sobre fatalismos – pra não dizer que não falei das flores

18/11/2009

Você

Arquivado em: Cartas — by Nina Vieira @ 13:08
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Me cansei de vocês e de tudo aquilo que ainda nem começei. Me cansei das conversas e conselhos de um, dos exageros da outra e da falsa centralidade daquela. Me cansei porque tenho me consumido e me absorvido desse amor estranho, este desgovernado incesto, esse quadrado amoroso, que me faz querer afastar-me e estar perto de vocês ao mesmo tempo e em sentido contrário.
“Bacanal!” – Exclamei em nossa primeira conversa. E você adorou minha idéia de “novos-caras-pintadas” e o fato de que ouço Caetano. Não confiei em você em momento algum. Pela militância e pelos olhos azuis também. A minha querida Jane Bennet/Elinor Dashwood confiou-lhe até os escritos de seu mais recente livro fictício que está sendo passado à limpo; e a adolescente vulgar obriga-o a dizer que a ama todos os dias. Você, maldito, já viu em mim características que ainda não pude enxergar. E talvez eu realmente me subestime e me culpe pela existência de enes problemas entre Deus, o mundo e o espaço dentro e ao redor de meu umbigo, abaixo de meu nariz. Adorei suas verdades, ultimamente, tenho aproveitado críticas (e isso não é ironia).
Ou talvez eu tenha me cansado de mim mesma, desse meu falso moralismo antiquado. Estou, na verdade, me achando e me sentindo insuportável, tendo aversões às versões de mim – eu que tanto sou várias dentro de uma só. Estou fora de si, ou fora de mim, porém, dentro de mim mesma, quero me virar do avesso.
E agora, danado, viajaremos juntos. Será muito melhor do que aquele dia em que deixamos o cineminha de lado para deitar e rolar em grama de espaço público, sem ter medo de sentir felicidade. Mas eu quero só ver quem agüenta e quem se descontrola, guri. Eu não posso mais com tanta responsabilidade, nem com a cobrança da mesma. Quem me subestima são eles, “o inferno são os outros”, disse Sartre, certa feita em que não regulava muito bem da cabeça. Agora, a sua entrada não é mais permitida aqui, precisamos de outro ponto de encontro para os nossos devaneios e eu sugiro a pracinha com vista para o mar, que fica depois da casa da moça obra de Da Vinci.
Cara, que inferno. São os outros? Eu não sei. Talvez o problema seja mesmo comigo. Essa porra desse grêmio têm testado os meus limites de tempo, espaço e paciência. Um dia, eu explodo e tudo se esgota. Mas no momento, não devo desistir. Você quer montar uma república, só vou morar contigo porque sabes cozinhar. Porém, não pense que irei lavar tuas cuecas – afinal, eu não queimei sutiã em praça pública na outra vida para ser hoje sua escrava – nem putas, nem submissas!
Eu comentei que morreria na frente de um fuzil, com uma tulipa na mão, se for possível. E provavelmente será, sendo eu sua amiga e com o espírito libertário que tenho de quem adora arrumar confusão. Aquele idiota do turno da noite me tira do sério, não ouso dirigir-lhe a palavra; lembra daquela briga/escândalo que tivemos na frente de todo o colégio? Sou eu a mais nova “barraqueira impulsiva” do ambiente.
Talvez eu perca de ano ou fique na recuperação de alguma matéria de Informática, isso já é certo. Não há nada nem ninguém que me sirva de consolo. Meu emprego de bibliotecária já era, podes crer. Vejo um bando de gente alienada cobrando o que não deve. Acho que vou “reinar” sozinha. Acho que vou fazer tudo sozinha. Isso é Lei de Murphy, fatalismo. Destino previsto e declarado anteriormente. E sem muito alarde.
Tá bom, não sou conformista. Mas aí também seria o sujo falando do mal-lavado. Ora, quem você pensa que é? Somos idênticos, esqueceu? Das três, sou eu quem possuo o mesmo espírito de “não tenho medo de morrer” e “pra não dizer que não falei das flores”. Ou seja, você é a mesma coisa, com um pouco mais de experiência e conhecimentos. Mas não, eu não vou me filiar ao seu partido, me deixa fora disso ou eu te “xingo” de comunista.
Vai embora logo que eu já não agüento mais essa tua infantilidade tão amadurecida. Você precisa apenas tomar um sorvete, na lanchonete, andar mais com a gente, para me ver de perto, enquanto ouvimos uma canção da Gal ou do Roberto. Baby, apenas finja que nada disso aconteceu.

09/11/2009

Ouço Debussy

Arquivado em: Crônicas — by Nina Vieira @ 21:02
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Além de passar todas as minhas manhãs em uma bioblioteca de colégio, ainda faço quase que o mesmo itinerário aos domingos – visito a biblioteca que fica ladeira acima de minha casa, com o intuito de estudar e ler um pouco – coisa que a minha nova vida de gremista e traça arrumadora de livros empoeirados e nada higienizados não mais permite.
Hoje eu ouvi Debussy. Ao som da flauta transversal de um garoto chamado Rafael, que não parece ter mais do que quinze anos de idade. Eu tinha um ano a menos que ele quando sai da escola de música sem nunca ter aprendido sequer um trecho de um tango de Piazzola, que dirá…! Mas estou sendo injusta, completamente insensata, ao tentar aliviar minha culpa. Nunca fui uma boa flautista em meus três anos de iniciante. Mas devo àqueles estudos o meu atual bom gosto para a música e a minha capacidade de reconhecer – em um auditório de biblioteca – as frases codificadas em partitura, notas diversas, um pouco da sutileza impressionante de Debussy.
Não posso dizer muita coisa com relação ao grêmio. Tantas águas rolaram, houveram tantas pedras no meio do caminho (no meio do caminho haviam tantas pedras!), que até Drummond se utilizaria de uma frase de Clarice Lispector: “A vida é inenarrável”. Eu apenas afirmo como fez Lermontov em momentos tediosos: “A vida é um gracejo vazio e estúpido”. Mas como eu não posso viver sem um bocadinho de prosa, adianto que passei três meses conturbados – sem comer, sem trabalhar, sem estudar e sem dormir direito – a minha carência afetiva era, na verdade, ausência de rotina. Quebrei aquela que muitos querem ferir ou fugir, fui mais além do que o meu próprio corpo poderia suportar. Aguentei brigas, choros, explosões de raiva, estratégias, manipulações e, Deus meu, nunca fiz tantos cartazes em toda a minha vida! E, no dia da contagem dos votos, à favor da chapa que montamos – vitória esmagadora – ainda assim não senti tranquilidade. Os problemas só começarão daqui para a frente: É um colégio, afinal, enorme, já foi o maior colégio da América Latina; ainda preciso recuperar notas das aulas que perdi; preciso fazer um discurso para o dia da posse… Preciso, além de tudo, voltar a escrever. Cansaço mental é até sugestivo.
Pode parecer pouco, mas os fatos já se complicaram por já estarmos em Novembro e, mês que vem, mais um ano de curso acaba para que outro venha em março de 2010. Uma década termina. Eu, com quase vinte anos já não planejo fugas, saio de casa em janeiro para dividir um apartamento com amigos. Isso já é certo. Preciso apenas de um trabalho. Faço curso de empregabilidade e tecnologia, talvez não me seja tão difícil conseguir um.
Vou para Minas muito em breve. Ouço Debussy. Camaçari Primeiro. Trata-se de um congresso de grêmios estudantis. Leio Saramago, um maravilhoso narrador. Descubro em Graciliano Ramos tanto Angústia quanto Insônia. Antes, eu o recusava. Mas não é tão ruim quanto o estereótipo que lhe deram. Cem Anos de Solidão mudou a vida de um amigo meu, mudou a minha, pode mudar a sua – simplesmente deixei de me preucupar com algumas coisas, a vida segue e é breve, logo, ouso recomendar (o livro e a filosofia). Ouço Debussy. Me pego questionadora, me pergunto “por quê o céu e azul?” e por qual motivo eu não consigo gostar de Crepúculo e toda a epidemia de literatice, enquanto minhas amigas se deliciam com a história de um amor tanto clichê quanto impossível - é que  elas ainda não quebraram a cara com a vida, tá explicado. Ouço Debussy. Preciso fazer um resumo de Química, preciso fazer um trabalho escolar sobre a ditadura militar, de 1964 à 1985, individual e manuscrito. Lembro de 1968, tenho um projeto de livro com relação a este ano. Leva muita pesquisa, mas não tanto tempo. É um projeto prático e literário, na verdade. Não deve demorar tanto. Ouço Debussy. Meus amigos, não vejo a semanas. O dos olhos azuis é o que mais me visita, é o que mais me diz verdades face a face, apesar do pouco tempo que me conhece, mas eu gosto de gente sem-vergonha e, por ora tão sutil. Estou aprendendo a ouvir críticas, me avaliando, retirando delas algum aprendizado. Só não sei ainda fazer o mesmo quanto a mocinha exagerada, de olhos de jabuticaba, que muito fala, mas pouco ouve. Porém, é a minha melhor amiga. Ouço Debussy. Ouço Djavan “sair do nada dos meus horizontes”. Nada ouço do Caetano, seu disco outonal é sinônimo de verão, mas estou pouco disposta. Ouço a diretora ordenar: “Põe a farda, menina”. Amo aquele colégio, mas o meu patriotismo não chega à tanto. Ouço o cair de pratos, as brigas deles e a ameaça de separação. Ouço, mas nada tenho a ver com isso. Estou muito mais egoísta, importa meu futuro agora, mas por enquanto, ouço Debussy.

23/10/2009

Impossibilitada no momento

Arquivado em: Diário — by Nina Vieira @ 16:03
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Estou louca para voltar a escrever, tenho excessos e ataques de assuntos diversos, mas falta-me tempo, paciência e inspiração para a escrita. E tempo, principalmente, me têm sido algo de extrema importância do qual não mais devo perder. Preciso, na verdade, aprender a administrá-lo.
Me atarefo com o grêmio, com malditos partidos políticos, por minha iniciação de militante, com os problemas de convivência e conveniência daqui de casa, com meu amor longe de mim (importância máxima), com meu emprego de bibliotecária, com a escola, com meus amigos velhos e novos e com dois que voltam e outro que se vai porque eu quis assim.
Histórias complicadas que precisarei contar aos poucos. Peço apenas que aguardem, pois não abandonei vocês, amo-os simples e eternamente meus leitores!

11/09/2009

Pintura íntima

Arquivado em: Citações — by Nina Vieira @ 14:56
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“Mas era bela, dessa beleza tão fácil de reconhecer, e pela qual somente os artistas se apaixonam. O pintor que procura aqui na Terra um tipo com a pureza celestial de Maria, que exige de toda natureza feminina aqueles olhos modestamente orgulhosos descobertos por Rafael, aquelas linhas virgens não raro devidas aos acasos da concepção, mas que só uma vida cristã e recatada pode conservar ou fazer adquirir; esse pintor, apaixonado por tão raro modelo, teria de súbito encontrado no semblante de Eugênia a nobreza inata que se desconhece a si mesma, teria visto, sob uma fronte calma, um mundo de amor, e, no corte dos olhos, na feição das pálpebras, não sei quê de divino. Seus traços, os contornos da sua cabeça, aos quais a expressão do prazer nunca alterara nem fatigara, pareciam as linhas do horizonte, docemente recortadas na distância dos lagos tranquilos. Essa fisionomia calma, colorida, aureolada de luz como uma linda flor que desabrocha, repousava a alma, comunicava o encanto da consciência que ali se refletia, atraindo o olhar.”
:: Do livro Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac.

“Corpo de Capela Sistina,
Com menos pecado,
Sorriso de Mona Lisa,
Pouquinho mais escrachada,
por ela corto a orelha,
fujo para o Taiti
Falo dela, choro
Que
pintou em minha vida.”
:: À Primeira Vista, de Ulisses Tavares.

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