Ouço Debussy
09/11/2009
Além de passar todas as minhas manhãs em uma bioblioteca de colégio, ainda faço quase que o mesmo itinerário aos domingos – visito a biblioteca que fica ladeira acima de minha casa, com o intuito de estudar e ler um pouco – coisa que a minha nova vida de gremista e traça arrumadora de livros empoeirados e nada higienizados não mais permite.
Hoje eu ouvi Debussy. Ao som da flauta transversal de um garoto chamado Rafael, que não parece ter mais do que quinze anos de idade. Eu tinha um ano a menos que ele quando sai da escola de música sem nunca ter aprendido sequer um trecho de um tango de Piazzola, que dirá…! Mas estou sendo injusta, completamente insensata, ao tentar aliviar minha culpa. Nunca fui uma boa flautista em meus três anos de iniciante. Mas devo àqueles estudos o meu atual bom gosto para a música e a minha capacidade de reconhecer – em um auditório de biblioteca – as frases codificadas em partitura, notas diversas, um pouco da sutileza impressionante de Debussy.
Não posso dizer muita coisa com relação ao grêmio. Tantas águas rolaram, houveram tantas pedras no meio do caminho (no meio do caminho haviam tantas pedras!), que até Drummond se utilizaria de uma frase de Clarice Lispector: “A vida é inenarrável”. Eu apenas afirmo como fez Lermontov em momentos tediosos: “A vida é um gracejo vazio e estúpido”. Mas como eu não posso viver sem um bocadinho de prosa, adianto que passei três meses conturbados – sem comer, sem trabalhar, sem estudar e sem dormir direito – a minha carência afetiva era, na verdade, ausência de rotina. Quebrei aquela que muitos querem ferir ou fugir, fui mais além do que o meu próprio corpo poderia suportar. Aguentei brigas, choros, explosões de raiva, estratégias, manipulações e, Deus meu, nunca fiz tantos cartazes em toda a minha vida! E, no dia da contagem dos votos, à favor da chapa que montamos – vitória esmagadora – ainda assim não senti tranquilidade. Os problemas só começarão daqui para a frente: É um colégio, afinal, enorme, já foi o maior colégio da América Latina; ainda preciso recuperar notas das aulas que perdi; preciso fazer um discurso para o dia da posse… Preciso, além de tudo, voltar a escrever. Cansaço mental é até sugestivo.
Pode parecer pouco, mas os fatos já se complicaram por já estarmos em Novembro e, mês que vem, mais um ano de curso acaba para que outro venha em março de 2010. Uma década termina. Eu, com quase vinte anos já não planejo fugas, saio de casa em janeiro para dividir um apartamento com amigos. Isso já é certo. Preciso apenas de um trabalho. Faço curso de empregabilidade e tecnologia, talvez não me seja tão difícil conseguir um.
Vou para Minas muito em breve. Ouço Debussy. Camaçari Primeiro. Trata-se de um congresso de grêmios estudantis. Leio Saramago, um maravilhoso narrador. Descubro em Graciliano Ramos tanto Angústia quanto Insônia. Antes, eu o recusava. Mas não é tão ruim quanto o estereótipo que lhe deram. Cem Anos de Solidão mudou a vida de um amigo meu, mudou a minha, pode mudar a sua – simplesmente deixei de me preucupar com algumas coisas, a vida segue e é breve, logo, ouso recomendar (o livro e a filosofia). Ouço Debussy. Me pego questionadora, me pergunto “por quê o céu e azul?” e por qual motivo eu não consigo gostar de Crepúculo e toda a epidemia de literatice, enquanto minhas amigas se deliciam com a história de um amor tanto clichê quanto impossível - é que elas ainda não quebraram a cara com a vida, tá explicado. Ouço Debussy. Preciso fazer um resumo de Química, preciso fazer um trabalho escolar sobre a ditadura militar, de 1964 à 1985, individual e manuscrito. Lembro de 1968, tenho um projeto de livro com relação a este ano. Leva muita pesquisa, mas não tanto tempo. É um projeto prático e literário, na verdade. Não deve demorar tanto. Ouço Debussy. Meus amigos, não vejo a semanas. O dos olhos azuis é o que mais me visita, é o que mais me diz verdades face a face, apesar do pouco tempo que me conhece, mas eu gosto de gente sem-vergonha e, por ora tão sutil. Estou aprendendo a ouvir críticas, me avaliando, retirando delas algum aprendizado. Só não sei ainda fazer o mesmo quanto a mocinha exagerada, de olhos de jabuticaba, que muito fala, mas pouco ouve. Porém, é a minha melhor amiga. Ouço Debussy. Ouço Djavan “sair do nada dos meus horizontes”. Nada ouço do Caetano, seu disco outonal é sinônimo de verão, mas estou pouco disposta. Ouço a diretora ordenar: “Põe a farda, menina”. Amo aquele colégio, mas o meu patriotismo não chega à tanto. Ouço o cair de pratos, as brigas deles e a ameaça de separação. Ouço, mas nada tenho a ver com isso. Estou muito mais egoísta, importa meu futuro agora, mas por enquanto, ouço Debussy.
Impossibilitada no momento
23/10/2009
Estou louca para voltar a escrever, tenho excessos e ataques de assuntos diversos, mas falta-me tempo, paciência e inspiração para a escrita. E tempo, principalmente, me têm sido algo de extrema importância do qual não mais devo perder. Preciso, na verdade, aprender a administrá-lo.
Me atarefo com o grêmio, com malditos partidos políticos, por minha iniciação de militante, com os problemas de convivência e conveniência daqui de casa, com meu amor longe de mim (importância máxima), com meu emprego de bibliotecária, com a escola, com meus amigos velhos e novos e com dois que voltam e outro que se vai porque eu quis assim.
Histórias complicadas que precisarei contar aos poucos. Peço apenas que aguardem, pois não abandonei vocês, amo-os simples e eternamente meus leitores!
Pintura íntima
11/09/2009

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“Mas era bela, dessa beleza tão fácil de reconhecer, e pela qual somente os artistas se apaixonam. O pintor que procura aqui na Terra um tipo com a pureza celestial de Maria, que exige de toda natureza feminina aqueles olhos modestamente orgulhosos descobertos por Rafael, aquelas linhas virgens não raro devidas aos acasos da concepção, mas que só uma vida cristã e recatada pode conservar ou fazer adquirir; esse pintor, apaixonado por tão raro modelo, teria de súbito encontrado no semblante de Eugênia a nobreza inata que se desconhece a si mesma, teria visto, sob uma fronte calma, um mundo de amor, e, no corte dos olhos, na feição das pálpebras, não sei quê de divino. Seus traços, os contornos da sua cabeça, aos quais a expressão do prazer nunca alterara nem fatigara, pareciam as linhas do horizonte, docemente recortadas na distância dos lagos tranquilos. Essa fisionomia calma, colorida, aureolada de luz como uma linda flor que desabrocha, repousava a alma, comunicava o encanto da consciência que ali se refletia, atraindo o olhar.”
:: Do livro Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac.
“Corpo de Capela Sistina,
Com menos pecado,
Sorriso de Mona Lisa,
Pouquinho mais escrachada,
por ela corto a orelha,
fujo para o Taiti
Falo dela, choro
Que pintou em minha vida.”
:: À Primeira Vista, de Ulisses Tavares.
Ao Pã
24/08/2009
Lembra-se de quando eu me abrigava no teu abraço? Aquilo não durava mais do que alguns segundos e, ainda assim, eu fazia o possível para prolongar ou para armazenar em minha memória algo em ti que me fosse inesquecível.
Tratava-me com a mesma cortesia de sempre, e me repreendia docilmente quando eu teimava em errar uma nota. Por muito tempo fui sua única preucupação e nos ocupávamos com a música erudita nordestina ou com o tango de Piazzolla que você me apresentou, mesmo sob o pretexto de que eu ainda era muito jovem para compreender aquele estilo. Não diria o mesmo, porém, se conhecesse os meus escritos. Trataria-me como um “prodígio”, como muitos me vêem e talvez você mesmo passasse a me ver com outros olhos, era o que eu queria. Até hoje me arrependo de não ter lhe mostrado um rastro de maturidade. Mas eu tinha catorze anos. Era muito menos corajosa e com o dobro de insegurança.
Quando as novas alunas chegaram, alegrei-me porque teríamos companhia. Quanta ingenuidade, a minha. Veio uma tão desinibida, mas tão carente quanto eu. E a outra era sonsa, sabia atrair os holofotes unicamente para si, em sua eterna futilidade, passando por cima das pessoas. Ao seu redor, professor, uma certa hostilidade havia sido criada, mas mantínhamos o pacto de parecermos sociáveis para não decepcioná-lo.
Quando você se trancava com a sonsa no fim de cada aula e a desinibida vinha me contar sobre as últimas conversas entre vocês dois, senti que já não havia muita importância se eu estava presente ou não. Não havia mais tempo para nós, o pôr-do-sol era menos frequente às sextas-feiras, lembra? E você tinha a sonsa como companhia para os grandes concertos nos melhores teatros daqui, apresentações que eu adorava ir, mas que ela não entendia, se impacientava e, por fim, sentia sonolência conforme o que ela mesma havia me narrado posteriormente. Sentindo-me trocada, passei a faltar aulas e esforçava-me cada vez menos, eu que tanto queria acertar e ganhar um sorriso seu. Já nem me importava retroceder dois anos de curso por causa das novatas, de fato, não importava. Chamou-me então a atenção na frente delas, dizendo que eu não estava dando o exemplo como líder e aluna mais velha. Quando a sonsa iniciou a faculdade de Nutrição e, consequentemente, começou a faltar, você a parabenizou pelo importante passo de maturidade que ela estava dando. A desinibida fazia ballet, e você assistia orgulhoso as apresentações, tal como um pai coruja. Suas duas novas favoritas estavam crescendo, enquanto a sua filha do meio sequer saía do lugar, aos seus olhos. Porque a verdade era que eu escrevia, e queria dizer-lhe isso, mas não sabia se importava tanto.
Um pai. No teu primeiro dia de aula, entre nervosismo e formais apresentações, você mesmo havia dito que seria como um pai e um amigo para todos nós. Mas já no fim do curso, perguntei-me se todos os pais eram iguais àquele que eu tenho em casa. Um pai sempre deveria fazer sua filha chorar?
Por uma vez apenas chorei por você, algo que oscilava entre felicidade e angústia. Já com a tua indiferença em quase desprezo, sentei-me ao teu lado naquela viagem de apresentações musicais. Por um momento fingi dormir e pousei minhas mãos no livro que estava lendo. Você retirou o livro para o meu conforto e segurou minhas mãos. Notou-as frias. Lembro ainda das tuas mãos, tão macias, pequenas e gorduchinhas, quase as mãos de uma criança que ainda não chegara na Idade da Razão. Quando percebi sua ausência, vi-me livre para chorar. Mas, ao olhar para o fundo do ônibus, pude vê-lo a conversar com a sonsa, a trair-me mais uma vez e a convencer-me de que aquele era apenas um amor platônico de início de adolescência. “Isso passa”, me diria você, em sua filosofia vaga. Será mesmo que passa?
Abraços,
Syrinx.