Vozes do meu rádio

by Nina Vieira

“Tenho uma imensa vontade de chorar, mas não me permito. Nunca mais vou me permitir chorar por homens transitórios, por alguém, seja quem for. Ouço os primeiros ônibus da madrugada e olho os pacotes em cima da mesa, os sacos de lixo que guardam os restos de mais esta relação. Procuro pela casa algum resto material da sua existência, mas já não encontro. Fiz a limpeza completa e minuciosa. De concreto, só a dor vai passar. Passa sempre; este é o perigo. A dor tantas vezes repetida acaba por anestesiar-se, e eu sei que sobreviverei mais uma vez, e esta certeza é que me faz abrir a guarda quando sinto que não devo entrar numa relação amorosa fadada ao insucesso e a dor e, então, embarco nesta viagem louca e vertiginosa, até a próxima vez, na madrugada a arrumar bagagem pouca de homem errado, restos de relação vazia que só deixa este gosto amargo.”
:: Da crônica Vida Suicida, de Normalice Souza, presente no ótimo livro de contos e crônicas Canção Inglesa.

Aprendera que “reciprocidade” nem sempre era uma palavra bem-entendida aos ouvidos alheios. Tentara encontrar um motivo plausível para tanta surdez, será que só fazia parte do vocabulário dela?
Tudo bem. Já não esperava por isso quando decidiu desculpar-se de erros que ambos haviam cometido, mas que somente ela assumiria a responsabilidade da culpa. Analisou bem se aquilo não era demasiada humilhação. Se ambos eram tão semelhantes em defeitos, a teimosia dele, aliada ao orgulho, a diminuiriam em uma velocidade atroz. E ele, cujo exibicionismo é sua fonte de princípios, tornou-se sutil quando a reduziu daquela forma. E quem parecia ganhar a batalha, agora sentia-se enfraquecida. Que prêmio receberia? A comprovação de que amava errado? Bastava. A Terceira Grande Guerra dentro de mim (2007-2008 d.C.) acabaria com um tratado de paz devidamente por escrito. E assim o fez, para felicidade geral das nações.
Lembrou-se da canção, daquele trecho que intensificava a sua dor estranha: “Hoje eu vendo sonhos, ilusões de romance”. Toca a sua vida por um troco qualquer. “É o que chamam de destino, eu não vou lutar com isso”. A experiência pessimamente sucedida deveria fortalecê-la. “Quebrou a cara? Agora aprenda”, dissera-lhe a razão, conselho que repetia inúmeras vezes. Aprender o quê? Nunca aprende com os erros. Só os lamenta. Cronica tudo na esperança de que algo se perca ou se encontre em oscilações infinitas. “Levando em frente o coração dependente, viciado em amar errado”, canta Cazuza. É tudo piada, até as vozes desse rádio. “Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome”. Queria tingir o mundo em tons dourados, os tons de Frida Kahlo. Ou resumir a sua vida em um musical dos anos 30. “Como é que se diz ‘eu te amo’?”. Eu mereço um lugar ao sol? Mereço. Mas ganhar para quê? Para ser carente profissional? Carente…
Conter a raiva é o seu melhor talento. E faz isso com uma habilidade invejável. “Não vale a pena esconder a dor, manter adormecido o que já passou. Sentindo as cicatrizes ao redor, marcas no inconsciente, insatisfação”. Abraça-o e sorri. Sorriem como crianças, amigos de infância. É assim quese sente perto dele, como uma criança frágil (que ela é), necessitada de proteção e atenção. Não, o coração já não bate acelerado, mas sente um amor vazio e inexplicável. O seu abraço faz falta, “o peito do meu traidor”. Na verdade, qualquer abraço faz falta. “Burn this house, burn it blue. Heart running on empty, so lost without you”. Encendeie a lembrança azul deste encanto. Quer sim abraçá-lo bem forte, porque essa é a maneira estranha que encontrou para dizer que está fraca. Mas ele não entende o seu vocabulário, lembremos. Há alguém que entende, só uma pessoa. A única no mundo que ouviu a sua rouca voz. Mas dezembro não chega e o seu amor não vem. Se agora ama outro, porque retorna ao passado? Reparação? Já o fezs da melhor forma, sem bajulação, mas com justiça e sinceridade. O que mais quer? Vingança? Com que intuito? Ainda o estima muito, guarda-lhe bons presságios e valorosos sentimentos, não chegaria ao ponto de tamanha estupidez.
“Pra terminar, dizer que o amor chegou ao fim. Esqueça de me perguntar se ainda há amor em mim”. Eis aqui (“bicicleta, planta, céu”) o fim das vozes no meu rádio. “Penso, medito e me espanto” com o fato de que nada me traduz tanto, meu esboço perfeito de manhã dominical. Que faço agora? Vou à igreja? Vejo o tal padre? Não. Basta de homens transitórios. Mas já são quatro e tal. E “confesso que acordei achando tudo indiferente”. Talvez eu tenha uma tarde gris, talvez Caetano cante daqui à pouco. “Bom-dia anjo”.

“Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu.
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural.”
:: Desafinado – Tom Jobim