Desta vida e do que virá

by Nina Vieira

“Fruo a vida. Não estou feliz nem infeliz. Estou, digamos, desinfeliz. Nem céu nem inferno, apenas um sentir suave e fresco. Um sentimento conduz o outro, e recordo outros tempos em outros lugares, em outros verões, em que ficava, pelas madrugadas, a olhar o mundo, a procurar um sentido para esta vida tão à deriva, para concluir que esta pergunta não tem resposta e, se tem, não me foi dado encontrá-la nem antes nem hoje. Reconheço que não estou bem na minha própria pele. Nunca estive. Esta casca não me cabe.”
:: Da crônica Desinfeliz, presente no livro Canção Inglesa, de Normalice Souza.     

 
Cena de Orgulho e Preconceito

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Eu tinha bons planos para o meu futuro, aos quinze anos, quando nos sentíamos os donos do mundo e vivíamos em redomas de cristal. Ainda estava naquela dúvida entre qual faculdade iria fazer primeiro, já que eu sempre quis me especializar em duas áreas – Jornalismo e História, o que não deve ser novidade para ninguém. Trabalharia enquanto escrevia livros. Compraria um apartamento no centro de qualquer grande cidade, para pintar as paredes da sala de vermelho, ter revistas no banheiro e um sofá verde musgo retrô. Viajaria o mundo também, quando pudesse. Eu queria (e ainda quero), em suma, uma vida simples e confortável. Os paralelos necessários aconteceriam entre uma mudança aqui e ali: um novo amor que viria, jantares, cinemas, amigos velhos e novos, presentes. Nunca achei que fosse exigir em excesso.
Aos dezoito anos (no meu caso, quase isso), quebramos a cara e o coração (junto com o caráter, muitas vezes) com a realidade que, não apenas nos espera, como também nos surpreende, de súbito, sem prévio comunicado. Insatisfação. Por exemplo, faço um curso técnico de Informática que detesto, obrigatório no meu currículo escolar. Só não desisto agora porque seria loucura e eu ainda peso a sensatez, estando eu no último ano do ensino médio. Não sei como pude ser tão paciente – não apenas com os professores que iam e vinham, sem nunca permanecer, o que declarava a deficiência do curso em seus objetivos, mas também com relação a tudo porque passei e poderia ter evitado – queria ter evitado, e vocês sabem, todos sabem, por isso, não perco meu tempo a lamentar ou a tentar e atentar a passar uma borracha no que já está feito. Não vale à pena uma retrospectiva de infortúnios agora.
Há uma data marcada para o fim e o início de tudo aquilo que não precisa ser necessariamente espontâneo. Marcamos o dia da cerimônia de casamento na Igreja e o fim dele, como será com os meus pais após minha formatura de colegial. Não estou triste, tampouco abalada. É evidente que o inevitável irá acontecer. Acredito que mamãe e eu precisamos de uma carta de alforria, ir embora desse campo de concentração que devemos (devemos?) chamar de lar e ir cada qual para o seu lado, deixando papai Hitler sobreviver sozinho e como puder aqui, na falsa Alemanha nazista. Ela precisa disso ainda mais do que eu. E não sentiremos falta. Talvez pena. Pena dele. E iremos nos perguntar em silêncio como ele estará vivendo, mas… a piedade nada tem a ver com o amor. Mamãe planeja morar em São Paulo, junto com a minha madrinha e o marido dela, para cuidar de Beatriz – uma criança de dez meses que promete dar trabalho. A função de mamãe sempre foi servir. Cogitei a possibilidade de ir junto, mas não gosto tanto assim de São Paulo, aquela cidade cinzenta, sem mar (meu refúgio, o “vão” onde me escondo), repleta de dinheiro, prédios altos, insensibilidade, tudo que detesto.
Recentemente, recebi o convite para ir trabalhar em Niterói, Rio de Janeiro. Também como escrava, mas de um comportamento que odeio – Escrava da Moda. Dividirei um apartamento feminino com mais catorze meninas de todo o Brasil, com seus sotaques diversos e belezas irrepreensíveis. Viverei numa rotina de modelo profissional, rigorosa, embora não tão diferente da minha: acordar cedo, arrumar a casa (enquanto algumas meninas vão para o colégio), fazer o almoço antes de ir correndo para a academia, fazer castings (mais de quinze seleções por semana) e voltar ao toque de recolher. Sem poder sair para qualquer outro lugar nos dias úteis e sem poder receber visitas masculinas. Acho que posso aguentar a vida de freira trancafiada em um quase-convento, enquanto ainda tento carreira internacional (já que eu tenho um perfil europeu). Talvez eu retorne aos palcos teatrais, voltando a me especializar como atriz. Sempre fui boa em fingir quase tudo, sentimentos inclusive. E tenho um rosto bonito, com a bênção de nunca envelhecer, posso tentar algo no Projac, virar protagonista de um folhetim do Maneco, em horário nobre, talvez dê certo. E sempre terei saudade de quando tinha meus catorze anos e era a caçula da companhia teatral independente, de vanguarda, de época. Lembro bem daquele tempo: quando me acotovelava entre os camarins tumultuadamente lotados de gente e barulho, eu era feliz, acreditem, prestem bem atenção numa declaração como essa, pois eu fui feliz, um dia, uma época, outro tempo, infelizmente, nada atemporal.
Tudo isso vem a ser o meu “plano B.”, aquele para o qual seguimos, quando os sonhos de nossas vidas tendem a prosseguirem por caminhos incertos. E como eu queria ser mais chata, mais insistente, mais absurda, menos mesquinha, menos infantil e até mais infeliz – se isso tudo fosse significar que eu levarei a vida que quero, da forma que eu quiser, levando quem me quiser, quem eu quiser e estiver disposto a ir junto comigo e se arriscar…! Mas nada é tão fácil. E o que vem dessa forma, vai dessa forma (e isso é consolo?) e custa um preço tão caro… Planejar o futuro é vender a alma ao diabo.