Escrevo, logo existo

by Nina Vieira

Não sou movida por promessas. Se fosse, seria suficientemente leviana e estaria já casada com um homem que, provavelmente, teria toda a razão do mundo para trair-me sem que eu soubesse. Se fosse, jamais perguntaria a uma artista, diante do seu público, quem ela levaria para a cama naquela noite. Se fosse, não haveria também razão para continuar escrevendo.
Fui movida por inocência durante muitos anos. Havia feito o meu próprio mapa-astral, onde a intervenção do destino pouco me era válida. Tinha certeza do que queria e de como conseguiria. Naquela época, em que eu era uma criança de cerca de trinta anos, parecia fácil: colegial, faculdade, trabalho, apartamento, viagens, viver com arte. Havia um seguimento clínico (e alguns cursos paralelos que fiz, traçando planos extras, caso o primeiro não desse certo), o que me deixou tranqüila por um certo período, enquanto meus colegas de classe se descabelavam com testes vocacionais diversos. Eu tinha certeza. No fundo, ainda tenho. Mas o termo “conseguir” se transformou em “tentar” e “tentar” é muito menos tentador – oh, infame trocadilho.
Quando comecei a escrever neste espaço, era engraçado, pois só havia um objetivo: desabafar. Nada me parecia mais instantâneo e terapêutico (o que demonstra que a escrita serve para artifícios dos mais variados). Minha intenção nem era tanto de fazer amigos inúmeros com outras tantas crises existenciais piores ou mais levianas do que as minhas. Eu escrevia porque sentia. Escrevia porque amava. Escrevia porque odiava. Escrevia para humilhar quem eu julgava que merecia. E escrevia para me culpar, deveras. Não obstante, em algum momento, a fase platônica se dissipara e cá estou eu, a ouvir Chico Buarque, dando risada do grande amor, jurando que não é mentira.
Não muito tempo passou e descobri que sim – era capaz de amar novamente. Era um motivo novo para usufruir da inspiração que se posicionara abaixo do meu nariz, sob a forma magistral e nada original de uma lâmpada. Reconciliei meu coração de pedra com a minha insanidade sem fundamento e, lá estava eu, ouvindo Caetano Veloso, porque só um novo amor pode a saudade apagar.
Entre essas duas fases, porém, foram poucas – digo raras – as ocasiões em que amadureci literariamente. O máximo que distingui disso tudo foi que criei um estilo literário sem perceber – e que só vejo hoje porque reli tudo o que escrevi até então. Assumo a crônica como minha única capacidade de expressão. Recorto mentalmente trechos de música e em muitas canções me inspiro para compor textos dos mais variados, embora ainda esteja egoísta quanto aos assuntos. Tenho um acervo mediano de citações dos livros que andei lendo nos últimos três anos – e eles também se fazem presentes em quase tudo o que escrevo. Mas a característica maior do que venho desempenhado é essa patologia sem limites que vocês, caros leitores, perceberam antes de mim: fuga do real para o imaginário – e vice-versa. Frequentemente me perguntam o que é verdadeiro e o que é ficção naquilo que escrevo. No princípio, fiquei a imaginar se vocês duvidavam de minha capacidade literária ou do fato de que eu realmente fosse uma colegial de dezesseis, dezessete anos que dormira com quase metade do corpo docente durante o último período do ensino médio. Por ventura e capricho de autora iniciante, decidi deixar com vocês mesmos o mistério. Saramago dizia que um autor deve ser julgado por sua obra enquanto estiver vivo pois, consequentemente, poderá defender-se de quaisquer acusações. Porém, em se tratando da minha pessoa, faço questão que se deleitem com biografias póstumas no formato mais admirável que a impressa marrom possa divulgar. O que, afinal, move um cronista? A obra de sua própria vida, daquilo que ele vive e observa – correto? Por qual motivo, então, deverá haver dúvidas quanto a veracidade daquilo que o autor transmite?
Sim, venho utilizando muito da ficção para compor minhas crônicas, admito. Mas vocês erram, muitas vezes, sobre o que julgam ser uma inverdade. É devaneio, claro, quando estou a relatar a vida da imperatriz Elisabeth da Áustria como se fosse eu a reencarnação desta. Mas será mentira ou coincidência que a infeliz ocasião de seu assassinato no estrangeiro tenha-me influenciado no coração que pulsa de nervoso e enfraquece facilmente? Serei eu doente de fato, ou também minha doença é crônica?
Ultimamente tenho acreditado mais em destino, em acaso puro, do que nos planos que eu mesma havia traçado. Ter sido educada por uma professora aposentada tão boa contadora de histórias que, por ventura, também era minha avó – só poderia significar isso, apesar da completa negação de meu pai quanto ao meu suposto talento. Mas fiz ballet dos quatro aos dez anos. Li Shakespeare e Dostoievski aos doze anos de idade. Fiz música e teatro pouco depois disso. Comecei a escrever pequenas fábulas aos dez anos que, engavetadas durante muito tempo, foram redescobertas e necessárias enquanto eu fazia um curso técnico em Informática. Agora, enquanto este blog completa três anos de existência e eu estou definitivamente desempregada (mas virtuosa de um arsenal criativo que beneficamente têm me incomodado), um grande amigo me convida para um projeto literário, muito bom aliás. Casos do acaso. Ou talvez, com tantos paralelos que tive em minha vida, uma predestinação para a escrita sempre estivera comigo, desde que nasci. Nunca me vi como escritora, embora goste de escrever. Caso eu enxergasse esse coletivo de desabafos como profissão, certamente viveria frustrada com prazos de entrega e editores intolerantes que limitariam meu espírito criativo. Vejo vocês, meninas de quinze, dezesseis anos, inspiradas por um amor leviano ou o fim de algo que sequer aconteceu – já passei por tudo isso. E devo dizer que o bom da literatura, inicialmente terapêutica, é poder cortar os pulsos com a lateral do papel ofício, até que se amadureça. Porque vocês irão descobrir que o amor segundo e terceiro é melhor do que aquele que parecia eterno. Porque vocês irão se deparar com frustrações deveras em qualquer tipo de relacionamento. Porque vocês não vão odiar a si próprias a vida inteira pela culpa que não fora dividida. Porque vocês vão estudar, se profissionalizar e conhecer alguém que lhes dê o valor necessário. Ou não. Mas também, não será o fim do mundo – cada um é feliz à sua maneira. Eu sou fatalista, otimismo não é comigo, vocês sabem. Por não ser movida por promessas, vou com o destino. Sou movida pela incerteza que ele reserva para mim.

“O meu trabalho é sobre a possibilidade do impossível. Peço ao leitor que aceite um pacto; mesmo se a idéia é absurda, a coisa importante é imaginar o seu desenvolvimento. A idéia é o ponto de partida, mas o desenvolvimento é sempre racional e lógico.”
:: José Saramago, no livro As Palavras de Saramago, sob organização e seleção de Fernando Gómez Aguilera.