O Chico-Saramago-Chico

by Nina Vieira

“Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol no Rio de Janeiro, para ter olhos de ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco”.
:: Do livro Budapeste, de Chico Buarque.

Quando Caetano Veloso começou a fazer rock e presenteou o público com os discos e Zii e Zie, foi unanimidade, tanto de quem gostou para quem detestou, a seguinte conclusão, como fato incontestável: Strokes baiano. A presença dos barulhos, ruídos, guitarras altíssimas e baixo em evidência, fizeram com que os entendidos no assunto fossem de mesma opinião. Naturalmente, o termo era pejorativo de ambas as partes. Mas pejorativo para quem? Quando Strokes marcou presença na MTV às 12:51, todo adolescente que lia Hermann Hesse e assistia filmes franceses – os ditos “jovens cultos” – receberam os integrantes de braços abertos, eu inclusive. Era diferente, surreal, um tanto quanto à frente do nosso próprio tempo, aquele rock progressivo, barulhento como todo bom rock’n’roll, mas charmoso em seu contexto original por abusar, também, de tecnologia e urbanismo. Deus sabe como eu sentia falta de Red Hot e Nirvana. Com Strokes, voltei à minha adolescência apesar de, na época, estar com catorze ou quinze anos. E, assim como Smells Like Teen Spirit havia dado lugar a Californication, Reptilia era um novo hino adolescente. Strokes e Caetano Veloso são completamente cosmopolitas. Assim como Luiz Gonzaga e Elvis Presley eram a mesma coisa, dizia Raul Seixas.
Em se tratando de Chico Buarque na literatura, não poderia ser diferente. Mas ninguém afirmou o que somente eu havia premeditado: eis aqui um Saramago brasileiro, nada mais óbvio a se dizer. Comecei com Budapeste em 2009, quando, na própria orelha do livro, o renomado escritor-lusitano deixara claro que “Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro”. Dir-se-ia que Saramago estava a descrever sua própria obra, como se assumisse o papel do José Costa, como se fosse um ghost-writter do cantor e compositor. Não estou insinuando que “alguém-copiou-alguém”, até porque, seria absurda qualquer tentativa sobre – e me causaria muitos transtornos fazê-lo. Só quero dizer que, exatamente por serem parecidos na literatura, deliciei-me apreciando tanto um quanto o outro, gostando ainda mais do Chico, enquanto influenciado direta ou indiretamente por Saramago; assim como amo deveras Caetano, tanto quanto gosto do Strokes.
Há, porém, diferenças claras nas obras dos dois artistas – José Saramago e Chico Buarque. O primeiro segue uma história precisa, com início, meio e fim. Formula antecipadamente seus personagens, narra como um observador dos fatos e da paisagem e, à exceção de Todos Os Nomes, início e fim de livro expressam uma metáfora de contra-senso intrigante, completamente inesperada. Inesperadas também são as obras do segundo artista, porém, entremeadas de confusões maravilhosas, que nos deixam tão tontos quanto à razão de ser escritor do Paulo Leminski. Estorvo é mirabolante. Leite Derramado é sensual. E só não li Benjamim, para completar a reunião publicada pela Companhia das Letras (coincidentemente, ou não, editora que publicou livros de José e Buarque), por acidente de percurso e acaso de ainda não ter chegado em minhas mãos. As peças teatrais do Chico também desconheço, confesso. Não sou especialista, mas do pouco que li, pude fazer algumas observações.
Ler Chico Buarque de Hollanda é como ouvir o mesmo. Quando ouvimos Atrás da Porta, que fala da mulher subitamente abandonada e nos deparamos com Olhos nos Olhos, crendo ser a mesma personagem, totalmente refeita dos recentes acontecimentos, adquirimos toda uma possibilidade de analisar minuciosamente os feitos do bom e velho Chico. Trocando em Miúdos está para Pedaço de Mim, assim como Budapeste muito se assemelha ao Ensaio Sobre a Cegueira. Para começar, Chico é narrador-personagem, mesmo que se lhe atribua o pseudônimo de José Costa. Inicia sua narrativa com uma oralidade rara, mas conhecida. Leio imaginando o próprio Chico a me narrar, com sua voz grave e comedida, como afirmara sua personagem Kriska, dizendo: “Porém numa obra literária deve haver nuances (…), que só se percebem pela voz do autor”. Quando se está em um ponto da história, subitamente somos lançados a uma lembrança remota do Rio de Janeiro do início do século passado ou a uma viagem para um país do qual desconhecemos até o idioma, na saudação mais simples. O leitor chega a se desesperar entre tantos redemoinhos que permeiam a realidade e a imaginação, sem distanciá-los, sem dar margem à percepção do que está acontecendo, do que aconteceu e do que poderá vir a ocorrer – e eis o ápice da literatura de Chico, seu melhor feito até então. Mas entre elogios e críticas ácidas, talvez esse seu lado compositor se faça tão presente quanto no tempo em que Vinícius de Moraes era discriminado por unir poesia e música. Vide o breve escândalo, absolutamente sem sentido, do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura de nosso país. Temos Sarney e Paulo Coelho como membros da Academia Brasileira de Letras, mas perdemos nosso tempo a nos incomodarmos com um cantor e compositor popular, tão importante com sua contribuição para a cultura do Brasil, pelo simples fato de que há controvérsias entre romance e ficção. Mas terá sido mesmo esse motivo? Saramago era ateu, porém, grande escritor e cidadão, além de defensor dos Direitos Humanos. Nobel merecido, ora. Caetano, só por ter nascido já é culpado. Mas eu faço questão de atirar ovos e pedras para aquele que abrir a boca contestando a criatividade e filosofia deste.
Bem, não discuto mais o irremediável, não perderei o meu tempo. Fiquei feliz ao ver, em uma recente edição da revista Bravo!, que observei por alto, listagens de personalidades várias opinando sobre livros, filmes, peças teatrais e exposições mais importantes no Brasil, da primeira década deste novo milênio. Satisfeita, encontrei várias vezes tanto o do Caetano, quanto o Budapeste de Chico Buarque. Retorno à orelha de meu exemplar e deparo-me com outra citação, do Caetano desta vez, a dizer que “talvez o mais belo dos três livros da maturidade de Chico, Budapeste é um labirinto de espelhos que afinal se resolve, não numa trama, mas nas palavras, como os poemas”. Pois é, cultura é isso. Tente fazer melhor.