Porque ler Kathryn Harrison

by Nina Vieira

Após meu fracasso na leitura de Um retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce (título ótimo para um livro péssimo, repleto de erros de concordância e ausente de vírgulas); e do meu triunfo em Chá das Cinco com o Vampiro, excelente obra de Miguel Sanches Neto; O Beijo, de Kathryn Harrison, é um desses livros insossos que se pega emprestado na biblioteca mais próxima apenas para não dar o final de semana como um fracasso em 365 dias. Queimei minha língua. Apesar de não ter levado fé alguma com o dito cujo exemplar, o trecho a seguir vale o tempo que você vai ganhar pesquisando nos sites de livrarias e sebos a disponibilidade do produto:

“Antes da minha ida à universidade, retornamos juntas ao consultório do ginecologista. Ela quer que eu seja medida para um diafragma, o método notoriamente inseguro de controle de natalidade. Mas não posso ser medida.
- Não antes de romper o hímen – diz o médico depois de me examinar. – Não quer fazer isso, ou quer?
Minha mãe, parada perto da porta, hesita. Eu me apóio nos cotovelos.
- Quero – ela responde.
Ele usa uma série de pênis verdes de plástico de tamanhos diferentes. Quando os recolhe da bandeja de aço inoxidável, não acredito no que vejo nas suas mãos. O tom daquele verde não existe em nenhum lugar na natureza, mas é o mesmo tom de instrumentos usados em cirurgias e bacias de ágata e outros objetos que associo à doença e morte. Um depois do outro ele os introduz, começando pelo menor – do tamanho de seu dedo mindinho – até o penúltimo sair manchado de sangue. O médico me deflora na frente da minha mãe. Será que é por ele ser o seu obstetra, o homem que me trouxe ao mundo, que se acha no direito de pensar que isso é de alguma forma correto?
Fico deitada na mesa, um lençol de papel cobrindo meus joelhos, minhas mãos cobrindo meus olhos.”