Para Mário Prata

by Nina Vieira

Mário Prata, escritor.Quando minha adolescência começou, dá licença, eu lia Shakespeare. Minha irmã, seis anos mais velha, lia de tudo um pouco que havia de disponível na banca de revistas. Anos atrás, após o término de Hamlet, liguei a televisão porque, dá licença, meu mais recente hábito era assistir ao Jô Soares após o Jornal da Globo. Eu, que mal havia largado as bonecas, achava o Jô Soares um porre absoluto, com seus convidados intelectuais que só serviam para que o sono me aparecesse depressa. Não naquele dia. Naquela exceção, tive insônia.
Porque um tal de Mário Prata foi lá conversar sobre o seu, até então, novo livro, Purgatório, cuja história “comediava divinamente” a Divina Comédia, de Dante. Era uma paródia. Acontece que o Prata narrou o livro inteiro em um programa que teve apenas ele como único convidado. Três blocos só desse cara, arrancando gargalhadas altas e espalhafatosas da platéia (e do Jô também, que pensei que iria enfartar ali mesmo, de tanto rir), contando minuciosamente sobre o Pequeno Príncipe no céu, Leonardo da Vinci (e todo mundo que é “legal”) no dito cujo purgatório e a famosa e originalíssima “pamonha de Piracicaba” como fundo musical das máquinas de datilografar, como uma verdadeira visão do inferno. Daí eu pensei: “esse cara deve ser importante”. Eu só lia clássicos, era a magricela de cabelos lisos e escorridos que sentava na frente/canto da sala-de-aula. Um zero à esquerda. Aquela fase havia sido difícil. E Mário Prata, meu querido, me perdoe, mas eu realmente não tinha noção da sua existência, exceto o fato de que minha mãe era criança e gostava muito da tua novela, Estúpido Cupido.
Minha maneira esquiva de lidar com o mundo tampouco agradara aos meus pais. Naquela madrugada, com a televisão ligada, volume altíssimo, meus olhos brilhando, eu ria como nunca enquanto minha mãe gritava do quarto que havia pessoas ali e na vizinhança que tinham mais o que fazer no dia seguinte: trabalhar, por exemplo. Na manhã posterior, fiz um escarcéu, seguido de chantagem sentimental para que me comprassem o livro do Prata – em vão. Até hoje, minha família não gasta dinheiro com “supérfluos”. Lançamento de livro é coisa muito cara, que põe em jogo as reais despesas da casa e eles supunham já gastar demais comigo. Chorei tudo o que pude, ampliando minha chantagem, também, sem êxito.
Um ou dois anos depois, acredito, estando na casa de minha irmã seis anos mais velha, que lia de tudo um pouco que havia nas bancas de revista, deparei-me com um exemplar da Capricho, essa fofura da Abril que encantou a geração dela, a minha e que, provavelmente, encantará a das minhas filhas, tendo em conta que já minhas primas em fase de crescimento a lêem avidamente. Sempre tive o hábito curioso de abrir uma revista começando pela última página. Foi então que conheci o Antonio, filho do Mário.
Daí que eu percebi que o Mário Prata era o sogro que eu havia pedido a Deus. Porque o Antonio escancarava ali, com humor, ironia e muito afeto, toda a lama suja e pegajosa que foi a minha/nossa adolescência. Os conflitos eram praticamente os mesmos. Só o gênero mudara. Achei que o Antonio Prata era a minha alma-gêmea literária, e eu tinha de ir para São Paulo esbarrar com esse cara que têm vontade de consolar quem quer que ele enxergue chorando pela rua, mesmo com medo de invadir a privacidade da pessoa. Enfim, com essa e outras informações, eu já tinha realmente toda uma tática. Só faltava fugir de casa.
Três anos atrás, ao iniciar esse blog, porém, Antonio Prata despediu-se de suas leitoras queridas e fui saber a notícia depois de ter atravessado correndo a rua chuvosa para comprar o meu exemplar na banca mais próxima. Desabei. Se ele me visse ali, chorando, aos quinze anos, no meio da rua, talvez perguntasse o que me tinha acontecido e me convidasse para um café com desabafo. Como eu queria que realmente acontecesse!
No mesmo ano, acompanhei-o até o fim de seu primeiro blog, no qual ele narrava sua viagem ao Oriente. O lance é que ele deveria voltar de lá com alguma boa história de amor para narrar em livro. Pensei a maravilha que era ser escritor: poder viajar, conhecer lugares novos e voltar com idéias múltiplas a fim de serem impressas. Era aquilo que eu queria para a minha vida. Nisso, jamais tive a coragem de comentar no blog do Antonio. Imagina, deixar lá o meu e-mail, junto com o link do meu blog. No geral, as pessoas pensam que escritores nada têm que fazer o dia inteiro, que são inteiramente desocupados e até inúteis. Eu discordo. Via o Antonio ocupadíssimo em entregar crônicas, ler jornais, livros, revistas e escrever um livro. Entretanto, um dia ele poderia estar sem nada para fazer e decidir conhecer um pouco mais dos seus leitores. Já pensou? Eu ia morrer de vergonha das minhas leviandades de pré-adolescente e, radical como eu era, nunca mais escreveria de novo.
Um conselho que os mais velhos sempre me davam, e eu não ouvia, era o seguinte: o tempo passa e cura tudo. Eu realmente pensava que aquilo era piada de quem já estava cansado de ouvir minhas tolices. Mas não. Depois que crescemos, percebemos que quem tem mais de trinta anos e é aparentemente de nenhuma confiança, tem total razão. Hoje eu estou formada no colegial, em ensino técnico. Muito diferente daquela garotinha de quinze anos que queria viver de arte – e ainda quer –, mas não sabia como. Entendo claramente que escrever é um prazer imenso, mais do que um simples desabafar. E leio o blog do Antonio sempre que posso, comentando sem medo. Nunca recebi a visita dele por aqui (acho), e isso me permite estar mais tranqüila do que a taquicardia que provavelmente eu teria caso o dito cujo me aparecesse em uma caixa de comentários, do nada.
Escrevo isso por diversos motivos. Um deles: tenho inveja da Anna, que já recebeu e-mail do Antonio (e marcou com estrelinha), além de, recentemente, ter sido destacada em um dos cadernos da Folha de S. Paulo por um dos colunistas que ela adora. Penso que essa moça, lá de Minas, será uma das mais importantes jornalistas culturais do nosso país e aprecio, sobretudo, o fato dela ser desta geração – a minha – que produz muito lixo anti-cultural e aparentemente reciclado, mas que tem um futuro também. Eu sempre tive muita inveja das gerações anteriores, porque o Mário foi amigo do Sabino, do Rubem Braga. Era jovem e subversivo (como todo e qualquer jovem) quando ocorreu a ditadura. E a minha geração, até agora, tirando o enorme avanço tecnológico e a liberdade finalmente alcançada, nada tem de novo, fazer o quê.
O segundo motivo é que ando caçando livros da família Prata nos mais diversos sebos, livrarias e estantes de conhecidos. Desde a saída do Prata-filho da revista Capricho, por exemplo, anda mofando um certo Purgatório num sebo bastante visitado aqui no centro da cidade. Eu, que ainda não li o livro, penso na sorte enorme que possuo. Três anos se passaram desde que eu o encontrara ali e nunca alguém pensou em levá-lo, apesar do título tão sugestivo. Nem eu mesma o levo, não sei bem por que. Acho que gosto de me deparar com Prata-pai ali, no meio da prateleira em ordem alfabética (um livro do filho dele, que estava ao lado, há muito já levei). Sorrio de minha própria cumplicidade.
O terceiro motivo é que a última entrevista que o Mário dera ao Jô (não faz muito tempo, e também não teve três blocos, como da primeira), vi um escritor mais fatigado, sem ter perdido o bom humor, falando do seu mais recente livro, cujo título não me recordo. Fiquei um pouco triste – o Mário já velho está. A idade, enfim, chega para todos.
E, semana passada, tomei como empréstimo Minhas Mulheres e Meus Homens, basicamente, hilariantes e quase duvidosas narrações do Mário sobre sua agenda telefônica, na qual você encontra famosos e anônimos tão ilustres quanto. Mário Prata está no ápice – sempre foi um excelente contador de histórias. Uma, entretanto, chamou-me a atenção. Karina Almeida, estudante de Minas Gerais, mandara-lhe um e-mail dizendo que estava a fazer um trabalho na faculdade sobre o escritor, enquanto cronista. Pediu-lhe auxílio, no que estivesse ao seu alcance. E Mário Prata é Mário Prata, por isso mesmo, único em tudo o que faz. Contou-lhe que ela se enganara, afinal, ele era um dentista aposentado, velho tarado, morava em uma quitinete, era virgem. Em seguida, sua fictícia esposa invade sua caixa de mensagens e vê a tal da Karina, pede então que deixe-lhe em paz a família, que o Doutor Mário não é virgem coisa nenhuma e tem oito filhos. Mário, o tarado, pede que Karina mande-lhe suas medidas e algumas fotos. A estudante entra na brincadeira e diz ser viúva de três maridos, tendo ela seis filhos e já não é tão nova assim. Ou seja: provavelmente Karina tirou nota máxima nesse trabalho da faculdade, graças ao carisma do escritor.
Para concluir, deixo claro que Mário e Antonio Prata são para mim grandes influências, apesar do estilo de ambos ser totalmente diverso do meu. Gosto de simples histórias com ótimos narradores, evidência tão clara atualmente também nos livros do Chico Buarque. Antonio herdou muito do humor do pai. E espero que ambos continuem me guiando secretamente nesse tão esperançoso caminho.