Nina

by Nina Vieira

(Primeiro você escuta, mas leia, enquanto isso).

Toda Nina já foi menina, criança. Dessa forma é batizada pela delicadeza do nome – a mãe que o faz, invariavelmente se engana, aprisionando a Nina a ser sempre aquele rosto corado ausente da necessidade e predisposição de crescer. Não em meu caso. Tornei-me Nina pequena, sim. Mas por acaso. Um casal espanhol de amigos da minha avó sempre esquecia o meu nome, chamavam-me Nina, durante as freqüentes visitas, para que não errassem. Fazendo ballet, o nome pegou.
Não gosto de generalizações, mas fato é que toda Nina sofre. É menina de guerra, tema de livro, personagem complexa de algum filme recente, aquela da qual tudo se pode esperar quando menos se espera. Toda Nina se refugia em alguma arte. Deve ser uma comum rebelião. Começa sempre com a dança, obrigatoriamente. Pode ser atriz, pode ser em vão. Escreve escondido, abusa do verbo infinito, submersa no que a consola. Toda Nina é um mistério envolvente, um privilégio de mente, um excesso de grosseria e ignorância dos sentimentos, um abuso de educação.
Toda Nina cresce deslocada, freqüentando festas. Todas as amigas da Nina têm um primeiro namorado. Só a dona Nina, bailarina, que não tem. Amarra os cabelos num coque desconexo e mal feito, tem as madeixas curtas, às vezes, usa tiara. Toda Nina se refugia no mar, mas tem a pele cor de neve – e com o furta-cor do olhar, vê-os negros como o breu. Esconde o rosto em páginas da literatura clássica, é notada por ser despercebida, é o antônimo, contradição. Toda Nina fala baixo, algo que não condiz com sua beleza. Nina também cruza os braços, não é aberta a novos conhecimentos. Cruza as pernas quando senta, e levantada, está na ponta da sapatilha. Sempre se dispersa, muda de assunto, troca em miúdos. Deixa uma resposta vaga, um silêncio subentendido, um cessar de palavras ditas. Toda Nina desabafa, no travesseiro, à noite. Para vomitar anseios em uma folha de papel.
Toda Nina exibe a sua vasta coleção de platonices amorosas. Chora feito viúva, depois acaba, finge esquecer. Toda Nina quebra a cara com o amor, diversas vezes. Ouve a mesma canção, a mesma valsa, os mesmos versos. Apesar da idade pouca, aparentemente nunca envelhece – apenas durante crises existenciais. Toda Nina faz planos de viajar o mundo inteiro. Mas não se atreve, sabendo que mal sabe tomar o ônibus na frente de casa. E perde a viagem pensando em tantas outras, que um dia fará. Toda Nina é anti-religiosa, confere. Tanto que é incompreensível, mas acredita em astrologia – e mapa astral. Toda Nina nasce da teimosia de uma taurina, sob a ascendência sedutora de escorpião, as virtudes de virgem, o carinho secreto de câncer – jamais a vaidade de leão ou os indescritíveis impulsos arianos. Toda Nina é fraca para bebida, satisfaz-se com um copo d’água, mas tem inveja de quem consegue não ter aversão. Toda Nina mora em uma casa grande, de desnecessária chaminé. Morre de frio no inverno, quando em Moscou.
Toda Nina despreza, inicialmente, algum Francisco. Ouve tua voz no rádio, não se conforma, muda a estação. Nina, porém, é piedosa. Cria-lhe alguma afeição. Pára o mundo, desce, aumenta o volume e escuta, tão simplesmente. Toda Nina vira troça da Cecília, Rita ou Ana. Mas toda Nina chora quando ele descobre quem tanto anseia lhe conhecer, em breve. E esta Nina, em particular gratidão, pode dizer que, no céu raptada, a música foi feita para ela – e, sem ter a menor sombra de dúvida, nem precisar explicar, todos acreditarão.

“Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou.”

:: Nina – Chico Buarque.