Primavera, num espelho partido

by Nina Vieira

“Às vezes uma boa relação de clausura ou reclusão, uma relação que pode se converter em amizade para sempre, constrói-se melhor com silêncios oportunos do que com confidências intempestivas.”
:: Do livro Primavera Num Espelho Partido, de Mario Benedetti.

Estações do ano não fazem a menor diferença se você não vive no hemisfério norte. O conceito de que as folhas das árvores cairão no outono e de que no decorrer do inverno nevará, não são válidas como marcadores de tempo para quem vive precisamente no litoral do Brasil, onde o clima é abafado e sufocante, mesmo quando chove. Mas a primavera é outra história.
Sempre chove no primeiro dia da primavera. Sempre. É a estação predileta do mundo inteiro, por sua razão poética (e comercial, na maioria das vezes), e a que eu mais detestava, quando criança: porque não poderia sair de casa enquanto estivesse chovendo. Mas na primavera, a chuva só vem no fim da tarde, antecipando-a. O dia parece ficar mais curto, menos aproveitável. Não há o esperado e espetacular “sol de quatro da tarde” – hora favorita dos fotógrafos por obter a melhor iluminação natural. Enquanto a chuva não vem, a ameaça nublada interfere no decorrer do dia. E eu não podia sair. Quando perguntava o motivo, já que não estava chovendo ainda, recebia como resposta: “é o início da primavera”. A constatação parecia um ritual. Teríamos que ficar em casa, esperando a primavera chegar, com suas nuvens cinzentas em tarde gris.
Quando a primavera deste ano chegou, eu mal havia notado. Saí de manhã e fui para o trabalho sem almoçar. Fiz um lanche, por volta das duas da tarde, recebi minhas obrigações e dei graças aos céus por saber que estaria durante todo o dia ocupada, isto é, com a mente ocupada, evitando pensar em mim mesma. Ou na véspera.
Na noite anterior, como de costume, fechamos o estabelecimento e andamos juntos até o ponto de ônibus. Fiz uma menção qualquer sobre o meu cachorro, que me espera retornar do trabalho já com a coleira em volta do pescoço, alegre, para que possamos passear na frente da casa. Ao término, ele disse que precisava conversar um determinado assunto comigo, totalmente sem jeito de começá-lo – embora eu já soubesse o que era, mas só pretendia ouvir, para me defender, quando e se fosse necessário. Em suma, tínhamos um caso – para falar direta e prolixamente. Gostamos um do outro de primeira, não havia meio-termo e, apesar de termos nos conhecido naquela empresa, eu não era sua colega de trabalho (se fosse, jamais teria dado continuidade): estava lá apenas e tão somente para treinar e aprender o sistema utilizado, pois seria encaminhada para uma outra franquia. Mas trocamos e-mail, depois telefone, fomos ao cinema, nos beijamos. Passava os domingos em sua casa, até que, um dia, ele me telefonou, todo sério, perguntando se eu gostaria de trabalhar como secretária ali, onde ele também estava. Em resumo, parece muita coisa. Mas não foi. Não durou semanas. Eu, como sempre, ilusória libertária, jeune fille rangée, inventei de esboçar um histórico breve de minha vida amorosa que se traduz em uma descrição muito boa do escritor António Lobo Antunes sobre mulheres e seus cigarros, e eu, apesar de não fumar, me encaixo na descrição da mulher que mantém com os homens “relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas”, em que “sofre por cantores feios de intervenção” – o que significa dizer que sim: eu quero casar, ter filhos, casa azul com varanda, estilo colonial, fazer a janta ouvindo Roberto Carlos no rádio, enfim – esse ideal medíocre e burguês, utópico deveras que atinge as massas. Mas acontece que o máximo que consigo disso tudo é coquetear com metade do universo, porque eu gosto de pessoas: não importa a idade, tipo físico, orientação sexual, modos de vestir (e usar), se são vegetarianos e gostam de histórias em quadrinhos já perto dos trinta, se cursam Administração ou Filosofia, se estão aposentados, se são casados, se já possuem netos. Eu gosto de ir para a cama com essas pessoas e fazer nada – só deitar, conversar, conhecer, puxar o cabelo, virar e dormir. Eu gosto de ser o mais íntima possível das pessoas, sem receios, sem esperar absolutamente nada, sem cobranças. E penso mesmo que isso não faz de mim “uma qualquer”, pois a ternura que divido com aqueles que durmo fora conquistada através do respeito, da confiança, da amizade. A minha visão das relações humanas é absurdamente grega, eu sei. Talvez um pouco bíblica. Ou completamente demoníaca, nabokoviana.
Talvez, por isso, nunca tenha namorado. Parece surpreendente, mas não é. Quero me dedicar a uma única pessoa, claro que quero, sou mortal. Mas também não posso abrir mão da minha liberdade por um passo em falso, tendo em vista que o meu realismo transcende a correção. Amor? Eu sinto. E posso estar apaixonada perdidamente por uma pessoa, sem precisar dela, sem que ela precise de mim. Posso amar incondicionalmente, mas tenho minhas etiquetas, meus princípios. Assim como posso abrir mão da minha liberdade – mas nunca, sob hipótese alguma – para justificar a minha existência perante o outro. Já o fiz, uma única vez, mas fiz por mim, não por outro motivo, ou alguém.
Quem escolhe aderir a este tipo de liberdade, está, natural e deliberadamente, sujeito a rejeições. Na realidade, “escolha” não é o termo apropriado. Não escolhemos: somos levados por situações diversas. No caso de muitos, há a contravenção – uma anarquia comum de se auto-rebelar perante a sociedade, impressionado-a. Mas acredito que, hoje em dia, isso tornou-se tão popular (minha geração está reinventando o romance moderno, o que significa dizer que está assassinando toda a poética do século XII para cá), que já nem conta como justificativa. Entretanto, sempre haverá aqueles que sofreram de amores loucos, platonices infantis, e que não pretendem sentar e esperar que a sua vida tenha um “final feliz” com resquícios de comédia romântica (a adolescência já passou; lemos Werther, de Goethe; sobrevivemos e prometemos não sofrer mais). Não. Nós, os anti-românticos disfarçados de lugares-comuns (mas deixo claro que não fazemos parte de uma mobilização e/ou sindicato) também tivéramos nossas experiências fracassadas e, por isso mesmo, compreendemos melhor virtudes, defeitos e armadilhas que a confusão atrativa (não amorosa) pode nos oferecer (apesar da aparente pouca idade).
Pois bem. Chegáramos ao ponto, ele enrolando, eu compreendendo o que parecia vigente e necessitava apenas de comprovação. Ele se afastara de mim, nos últimos tempos: tinha sempre que dormir cedo ou estudar para uma avaliação fictícia da faculdade – mentiras sinceras que não me interessavam. Às vezes ficava, mas me empurrava para o primeiro ônibus que passasse perto de minha casa, também pelo horário. Estava me preparando. Estava se despedindo e me dispensando.
Deixei que falasse. Disse estar preocupado comigo, algo que não compreendi e cuja resposta não fora esclarecedora. Porque eu vou muito bem, obrigada: estou trabalhando, fazendo meus cursos, saindo em alguns finais de semana, especificamente para passar a tarde dominical em sua cama – nua (“tem uma bailarina nua na minha cama, como é que pode?”, lembra-se?). Mas, como sempre, o problema não sou eu (e o inferno, são os outros): é ele, que está na faculdade, trabalhando, morando sozinho e não pretende criar expectativa de futuro para nós dois(!). Ouvi atentamente, defendi-me como pude e não esbocei reação. Devo ter assumido, no máximo, um ar enfadonho, entediado, sobretudo pelo adiantado da hora em acúmulo com as tarefas do dia – cansaço mental, dificuldade para raciocinar e dialogar. Pedi que fosse embora, para a calçada oposta, onde o seu ônibus passa, não fica aqui, esperando o nada me levar para longe. Também deixei claro que o assunto não se transformaria em alguma crônica deste espaço. Até parece.
Nem chorar eu conseguia. Deveria, de certa forma. Porque eu também me conheço e todo fim é dificílimo, mesmo que início e meio tenham durado pouco. Quando o meu ônibus chegou, subi e recordei Avellaneda – velha e querida personagem literária de Benedetti, aquela do meu romance predileto, A Trégua. “Avellaneda não veio ao escritório hoje, está doente”. Como seria se, no dia seguinte, eu também não fosse? Inventaria uma gripe (Avellaneda morreu de gripe, ou de uma falha na respiração, sei lá), passaria o dia na frente do mar, para me sentir pequena e buscar respostas, como invariavelmente faço – e talvez não voltasse.
Mas também julguei que não era para tanto. Eu agüentaria. E superaria. E não iria fazer da vida dele um inferno, ele nem merece isso. Não merece porque foi sincero, porque eu gosto dele, e porque (óbvio), sentirei sua falta. Vou sentir falta do apartamento diminuto (e lindo) de paredes brancas (aparentemente sem personalidade), ausente de móveis, com aquele colchão imenso (breve espaço de beijar, diria Drummond, se visse) – que me parecia o suficiente. Sentirei falta da varanda do quarto, cuja vista desconheço, pois aquela porta de acesso nunca fora aberta enquanto lá estive. Sentirei falta da escada até a porta, quando ele ia me buscar após eu ter saído do ônibus, indo ao meu encontro, me beijando, não me deixando falar, sem parar de olhar nos meus olhos, sem deixar de cumprir a silenciosa obrigação do “você está linda”. Sentirei falta da descrição mais precisa, detalhada e original dos meus “olhos cor de mofo”, ou “cor de musgo” – porque esse é o jeito dele dizer “gosto de você, seus olhos são verdes”, e eu adorava, só por estar nas entrelinhas. Mas sentirei uma falta absurda do cheiro da pele dele, antes e depois do banho, com frescor, esse cheiro que ainda sinto no trabalho, quando passa perto de mim. E do toque, das carícias, dos beijos e olhos nos olhos. Da compreensão. De quando ele disse “faz amor comigo”, com os olhos brilhando, porque nenhum outro homem o dissera anteriormente – mas também não era amor, somente educação.
Muito antes dessa estação começar, Benedetti me presenteara com outro romance inesquecível: Primavera Num Espelho Partido, livro narrado por várias vozes, que trata sobre o exílio, a prisão de um cidadão político, uma família desestruturada, muitos tangos (e boleros), a visão de uma criança, a visão de um idoso, um esperançoso amor que se desfaz na imaginação do leitor – para que outro recomece. Na véspera dessa minha primavera, voltei para casa e encontrei Constante, o meu “Cão das Lágrimas” (os dois nomes são referências claras aos animais descritos por Saramago, em diferentes livros), que já abraçava sua dona, em pedaços e aos prantos, porque se havia hora para chorar, sem sombra de dúvida, seria aquela: antes que eu chegasse em casa e despertasse questionamentos (para dormir, logo em seguida, feito uma pedra, sem atender o telefone que tocara no meio da madrugada – o sono dos justos). Chorei pela rejeição. Mais uma. Por não caber (outra vez) na vida de uma pessoa. Por não me encaixar, por “ser especial”, por “escrever bem”, por “ser muito inteligente”, por “estar muito doente” e todas as outras características que fazem de mim “uma pessoa única”, mas eu não quero ser única: eu quero ser par, ser igual a todo mundo, ser normal, ter uma vida medíocre e burguesa, quero ser filha de Deus, mesmo não acreditando Nele.
No dia seguinte, começou a primavera. Tive um dia de trabalho fora do comum, no qual mantive minha mente ocupada por ordens dele, telefonando para quinhentas pessoas para tratar do mesmo assunto. Olhei nos olhos dele, conversamos, rimos. Fiz o contrário do que havia pretendido na noite anterior, que se baseava em ignorá-lo (momentânea expressão de descontentamento). Mas também, não passou disso. Não será a mesma coisa, daqui por diante – e nós dois sabemos. Eu sei. Tanto que saí antes dele, fui para o ponto de ônibus, naquele frio inconsolável de quase nove e meia (preciso levar um casaco, mas nunca aprendo – saudade de quando ele me repreendia por isso), esperar sozinha. Pouco tempo depois, ele foi para o seu ponto, do outro lado da rua, mas não ousei olhar uma vez sequer – significaria fraqueza. Vi-o parti dentro de um ônibus enquanto uma lágrima furtiva reclamava o meu estado deplorável: humilhação sentimental. Sei do quanto sou fraca, sei dos meus limites. Sei que hoje encaro melhor a ausência do que em outros tempos (quinze anos, aquela época terrível…). E agora, somos estranhos, meros colegas de trabalho, vigiando a ausência do outro em calçadas opostas. Fui eu quem quis assim.
Naquela primeira noite primaveril, prometi que passaria o domingo à beira-mar.