O emprego dos meus sonhos

by Nina Vieira

Não fazia o meu estilo o conceito “megastore”, criado para caracterizar a equação livraria + café + tecnologia em áudio e vídeo. Eu me contentava com as livrarias pequenas, que nada mais eram além desse espaço diminuto com paredes descascando em tons outrora vibrantes, livros com cheiro de mofo, dificuldade para caminhar – tudo isso resultava no ambiente a aparência de meros sebos. Então essas livrarias acabaram, dando lugar exatamente àquilo que aparentavam, sobrevivendo da caridade de tradicionais e reclusos leitores, que gostam dos espaços menores e com menos gente.
Mas enfim me rendi aos cafés. No térreo comprava um livro e subia a escada, sentava em alguma mesa (sempre ao canto) e escolhia no cardápio algum pedaço de torta só para não fazer feio (pois era o máximo que eu poderia comprar, sem o acompanhamento de um refrigerante). Isso se deu graças a Saraiva – que trouxera para o Brasil o conceito “megastore” e fez com que eu fosse testar o atendimento de todas as suas unidades da cidade em que moro.
Essas “pesquisas” eram realizadas no primeiro sábado de cada mês. Quando comecei a ganhar o meu próprio dinheiro, preferi a Saraiva do Shopping Barra, de primeira. É uma livraria pequena e, por isso mesmo, aconchegante (semelhante ao clima dos sebos de que tanto gosto). Além disso, possui o melhor acervo de biografias que já vi. O pessoal do café sempre me dava sugestões detalhadas com relação ao menu e eu saía de lá satisfeita.
Já a Saraiva do Salvador Shopping me surpreendeu negativamente. Apesar de combinar com o design do shopping, fugia um pouco do padrão da Saraiva. As paredes são brancas, existe pouco do amadeirado evidente e parece oferecer de tudo – exceto livros. Em compensação, o acervo de filmes e discos é maravilhoso, mas eu pretendia o que de mais rústico e familiar habita uma livraria e, por isso mesmo, confesso que migrava sem um pingo de vergonha na cara para a Livraria Cultura, no mesmo piso.
A maioria dos meus amigos respondia vagamente que a Saraiva do Shopping Iguatemi é a melhor de todas. Duvidei. Na realidade, eu não gostava do shopping em si: extremamente fechado em seus múltiplos labirintos de ar-condicionado (me atrevo a dizer que Saramago deve ter se inspirado nesse sufocante local para compor a obra A Caverna). Há excesso de pessoas circulando e aquela humilhante divisão de todo shopping center: primeiro piso para a “classe C”, com suas lojas de departamento populares; segundo piso destinado à classe média; e terceiro piso com suas grifes, lojas de decoração e óculos de sol, clínicas, cinema, praça de alimentação. Não obstante, é lá que a Saraiva se encontra.
Subo e desço uma escada fixa. Como todo mundo, entro no shopping pelo térreo (entende-se como “todo mundo que pega buzu e compra na Riachuelo”). Já no primeiro patamar o logotipo (e-nor-me) da Saraiva Megastore pode ser visto, acima da loja Renner. Cada vez que me aproximava, tomava consciência da grandiosidade do espaço (outrora Siciliano, onde os estudantes sentavam no chão como se não houvesse amanhã). Adentrando, vê-se livros por todos os lados e um crescente desejo revela-se inevitável: quero morar em uma livraria.
Porque, se não fosse palpável, a Saraiva do Iguatemi simplesmente não existiria. Subindo a escada que dá para o interior da loja escolho o nome de qualquer um dos escritores no branco painel e preciso pensar rápido em uma obra de sua autoria. Aprendi a jogar dessa forma porque, todas as vezes que passava por aquele shopping, era sagrado comparecer à Saraiva, só para gastar a sola da sapatilha. Eu sabia o caminho de cor e salteado – mas me perdia nos corredores quando queria ir ao banheiro, por exemplo.
Setores bem distribuídos com tudo em seu lugar. Não encontrei dificuldade nas estantes de literatura. Os vendedores carregavam livros diversos, com vendedores descendo e subindo escadas, repleto de exemplares nos braços ou em cestas, arrumando prateleiras, atendendo duas ou três pessoas ao mesmo tempo (sem contar o telefone). Parecia estressante, mas eles nunca perdiam a cordialidade e bom humor. Eu já via todo esse esforço desde os quinze anos de idade. E, mesmo assim, sempre tive certeza de que gostaria de trabalhar em uma livraria. Mas ali, naquela Saraiva, tive certeza absoluta: esse é o lugar.
Com o tempo, essa livraria específica tornara-se uma fuga. Com o início das chuvas (e mesmo sem elas), deixei a confortante liberdade marítima para buscar respostas nos livros de lá. Sentava-me em qualquer lugar – às vezes no chão – e folheava um exemplar de Veríssimo, por exemplo. Ia para a livraria gastar metade do salário assim que recebia, ou quando brigava em casa com o meu pai (ou seja: sempre). Tomava contornos de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo – a Saraiva é a minha Tiffany’s.

Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo.
Sempre vou à noite, por volta das sete. Conheci alguns livreiros, pouco pedi auxílio deles (dava para ver como a galera andava ocupada e como tinha gente desocupada e com preguiça de procurar livros). Um dia, decidi incomodá-los perguntando como eu poderia “fazer parte desse time”. Bastava entregar meu currículo no balcão de serviços e aguardar.
Eu não admitia que fosse tão simples. As pessoas que trabalham na Saraiva sempre me pareceram tão diferentes e cultas que só podiam ser, no mínimo, estudantes de Letras, Cinema, afins. Na minha concepção, para entrar lá era necessária uma carta de recomendação dos professores e, mesmo assim, o futuro vendedor estaria sujeito a uma redação de (no mínimo) trinta linhas, bem caprichada (e sob o novo acordo ortográfico, claro) sobre o motivo de estar recorrendo à vaga. Colocar currículo? Isso era fácil demais.
Mas fiz isso, alguns meses atrás (e duas vezes). Também, sem esperança alguma. Duvidava que fosse chamada. Duvidava que o “boa sorte” da mocinha do balcão fosse sincero. Acreditava que ela rasgaria meu currículo assim que eu lhe desse as costas.Uma semana após o ocorrido, comecei a trabalhar em outro local, e o máximo de Saraiva perto de mim era a editora, no meio do caminho, fazendo com que eu saltasse do ônibus muito antes do meu ponto, só para ter o gostinho feliz e momentâneo de estar perto do que eu imaginava ser o emprego dos meus sonhos.
Mas o dia da seleção aconteceu. Éramos quase (quase?) vinte jovens desconhecidos em uma sala semi-escura planejada para palestras e exibições cinematográficas, aguardando, em silêncio.
O Gerente Sênior e mais duas moças atravessaram a sala e apresentaram-se. Propuseram a dinâmica de formarmos duplas para que, com informações obtidas em cerca de cinco minutos, pudéssemos apresentar nosso parceiro(a) resumidamente. Ao meu lado estava uma menina de dezoito que pretendia fazer moda e era argentina radicada no Brasil há sete anos. Logo perguntei se ela já havia lido sua conterrânea, Pola Oloixarac, cuja excelente obra de estréia causara alvoroço no mundo inteiro. Gostava de best-sellers estilo A Cabana e A Menina que Roubava Livros, além de auto-ajuda. Porém, assim como eu, detesta “livros de vampiro” (que já se tornou, deliberadamente, uma categoria à parte).
Quando a dinâmica começou, conhecemos um pouco do que cada tímido rosto apresentava. Antes de entrarmos naquela sala, caminhávamos solitários e anônimos na livraria, cada qual olhando para o alto, enquanto eu tocava em meus livros prediletos, pedindo aos autores bênção e sorte.
Nesta seleção havia gente que sacava tudo de tecnologia, outro que entendia de música e muitos que apenas gostavam de ler. Percebi que “gostar de ler” era pouco para quem avaliava. Imaginei que eles deviam ouvir isso de todos os jovens que avaliavam, fora que as pessoas certamente paravam o Gerente na livraria, dizendo: “eu gosto de ler, posso trabalhar aqui, tio?”. Não. Eu era uma reles candidata, formada apenas em um colegial integrado com técnico em Informática (o que, francamente, não significa muito). Então, quando chegou a minha vez, precisei demonstrar que minha literatura vai além da apreciação: está em mim desde o berço, fora o fato de que eu SEI o que estou lendo.
Quando perguntada, citei alguns dos meus autores prediletos: Nabokov, Saramago, Drummond, Benedetti, de Assis… Assumi meu desgosto pela saga Crepúsculo (porque gostar de literatura também significa imprimir personalidade). O Gerente Sênior pediu que eu sugerisse um livro para uma das candidatas que está lendo (e gostando) da obra de Meyer. Reparando que o forte dela são os “romances impossíveis”, indiquei-lhe Todos os Nomes, de Saramago, que traz a história de um Sr. José, escriturário da Conservatória Geral do Registro Civil de Portugal que, no intuito de ampliar sua coleção de personalidades famosas daquele país, ao furtar mais uma certidão depara-se com a de um a mulher desconhecida que, por engano, veio junto. Então ele persegue essa mulher até se deparar com um desfecho surpreendente, mas para sabê-lo, só lendo o livro. O Gerente Sênior então perguntou: “tem aqui?”, todos riram enquanto eu respondia que sim, chegando a indicar estante e prateleira, até porque, havia comprado lá mesmo.
Nas considerações finais, atrevi-me a divulgar o endereço deste blog e também o da Hillé (a “bíblia” dos livreiros). Revelei que anseio tornar-me escritora (só disse isso porque uma outra candidata também o fez) e todo mundo acrescentou alguma coisa. O Gerente Sênior (um misto de educação e descontração – sempre fazendo-nos rir) agradeceu e disse que, em breve, entraria em contato conosco. Levantei, agradeci-lhe a oportunidade e tomei o rumo de casa, confiante.
Eu mal havia colocado os pés no patamar da escada de minha casa. Estava tentando convencer a minha mãe dos inúmeros benefícios da Saraiva quando, de repente, o meu celular toca. Identifiquei logo o número: era da livraria (ai meu Deus, ai meu Deus).
Era o Gerente Sênior (ele mesmo). “Não esperava que eu ligasse tão rápido, né?”, não, eu não esperava sequer que eles ligassem. Precisei conter o tamanho da minha emoção. Ele disse que gostou muito do meu perfil, porque eu sou “a cara da empresa” e tinha uma proposta para me fazer. Queria que eu comparecesse no dia seguinte. Precisei revelar que trabalho, que ficaria difícil sair dois dias seguidos e sugeri que fosse falar-lhe dali a uma hora. Ele concordou.
Troquei de blusa e corri para o ponto de ônibus. Conheço Salvador e já eram quase seis. Sabia do engarrafamento. Mas fui. Quem muito quer, acaba conseguindo, de alguma forma. E eu sentia ser aquela uma grande oportunidade.
Cheguei e falei rápido com uma livreira conhecida, que me desejou boa sorte. O Gerente Sênior logo veio ao meu encontro e pediu que eu fizesse uma avaliação antes de conversarmos. Fiz a tal prova na mesma sala da seleção, dessa vez vazia. Vez ou outra chegava alguém para perguntar se ali seria realizada alguma palestra, e pedi que fossem se informar no mesmo balcão de serviços onde, meses antes, entreguei meu currículo (mais tarde fiquei sabendo que divulgaram o evento na Saraiva errada, mas tudo bem). Feita a prova, fui conversar com o Gerente sobre sua proposta.
Fiz seleção para vagas temporárias. Trabalharia oito horas por dia, durante três meses apenas. A proposta dele era que eu já entrasse como efetiva (!), tendo a carga horária de seis horas. Aceitei, óbvio. Recebi uma lista de documentos que precisaria entregar (já sabendo da confusão que isso provavelmente geraria em meu atual emprego) e o aviso de que receberia uma ligação, no dia seguinte, confirmando hora e local de meu exame para admissão.
Comuniquei minha demissão em meu trabalho, mas sugeri permanecer até que encontrassem outra pessoa para ocupar o meu lugar. Venho para o meu “antigo emprego” às sete da manhã para sair duas da tarde. O que em nada interfere no meu “atual emprego”, que vai das quatro da tarde às dez da noite.
No sábado posterior, dia do exame (pergunta e resposta) para admissão, decidi tirar “meu último dia de férias” na Saraiva, para que o trabalho pesado começasse. Peguei um livro, li até a metade, conversei com o Gerente Sênior e com a Vendedora Talento (que também fez a seleção) super gente fina, que dissera que a escolha pela minha pessoa havia sido unânime e para o setor correto: literatura.
Sonhava trabalhar em uma livraria desde os quinze anos. Tenho quase vinte e o emprego dos meus sonhos. Trabalhar com livros, para quê melhor? Mais uma vez o destino mostra que o meu futuro está na literatura. E não há como fugir disso.