Eu, a menininha, estou crescendo

by Nina Vieira

O posicionamento de touro em Júpiter intensifica a maré de sorte cujo início fora obtido desde meados do ano passado. Até junho de 2012, tenho sete vidas, segundo revelações de fontes confiáveis sobre o meu horóscopo. É a fase das mudanças radicais (tanto na vida pessoal, quanto na profissional), onde grandes projetos sairão do papel e finalmente flutuarão sobre a realidade da taurina. Sei.
Eu duvido da sorte como quem não acredita em Deus. E, no meu caso, dá no mesmo. Aguardo ansiosamente pela Lei de Murphy (sombra e fiel escudeira, já disse), para estragar minha paz.
Para completar o cenário, faltam apenas unicórnios cor-de-rosa e arco-íris em cada horizonte. O resto a vida já fez por mim.
Estávamos a caminho do restaurante chinês com nome italiano (não perguntem) quando eu devo ter contado alguma tortura básica do campo de concentração no qual vivia. Deve ter sido a gota d’água, porque ele, ele mesmo, o Professor de Filosofia, me veio com essa: “quer morar comigo?”
Como qualquer ser humano normal, jovem, e que mal saiu das fraldas, respondi que gostaria de pensar. Eu estava hesitando. E acrescentei empecilhos como: não vai ser fácil, mudança exige tempo, preciso trabalhar a cabecinha dos meus pais e VOCÊ ENLOUQUECEU? ESTÁ SE PRECIPITANDO, SABIA? E por aí vai.
Hoje, duas semanas depois, tenho certeza de que foi a melhor escolha que fiz na vida.
Se eu escrevesse um livro, certamente seria uma biografia na qual eu teria um codinome e relataria as memórias do meu cárcere privado pós-guerra. Eu estava presenteando os meus pais com a metade do meu salário de livreira, enquanto não tinha direito a assistir televisão nem ouvir o rádio. Pagava as contas, mas não podia comprar uma roupa, ou biscoito recheado, assistir filme no meio da madrugada, ter uma escova de dentes que durasse pelo menos um mês, essas coisas. E, além da falta de liberdade, também haviam as brigas constantes, de modo que eu não aguentava mais. Deixava de discutir, enquanto ouvia muito sermão. Parecia que eu morava em um pensionato.
Juntei algumas roupas na mochila e avisei: estou indo embora. Não queria pensar mais sobre o assunto, pôr dificuldades inúmeras e sequer ouvir os conselhos da minha mãe. Embora, em muita coisa, ela tenha razão. Basicamente, é a história da vida dela.
Quando meus pais se conheceram, ele era divorciado (já com uma filha) e ela era estudante. Os dois “se juntaram”, me tiveram, os problemas começaram e hoje vivem em pé de guerra. Ela abaixa a cabeça porque não tem jeito. Separar-se significa não ter para onde ir. Desde o início do meu ensino médio ela faz pressão para que eu estude, “seja alguém na vida” e me torne independente. Sempre compreendi minha independência como a libertação dela: se eu estudar, poderei tirar minha mãe daquela casa. Não é bem assim.
Demorou para que eu compreendesse que “a minha vida” é a minha vida. E eu não vou poder tirar ninguém do inferno, sendo que eu mesma não consigo me livrar dele. Tenho minhas próprias pernas e sei caminhar. O meu namorado também é divorciado e tem uma filha (muito linda e inteligente, por sinal), mas isso também não é sinônimo de que um raio cairá duas vezes no mesmo lugar.
Minha mãe não me ensinou a conquistar independência. Aconselhava-me a “respeitar” e “não responder” ao meu pai. Fora incapaz de me fazer aprender a fazer comida e lavar roupa. Fui criada na concepção de “pobre menina rica”, porém altruísta, sacrificando-me muitas vezes porque isso ou aquilo faltava dentro de casa.
A casa que habito não é muito longe da casa de meus pais. Mas tem carinho de sobra, abraço e risada o dia inteiro. Não tenho saudades da outra casa, mesmo que nesta falte quase tudo: fogão, panela, sofá, cortina, tapete. Sobram momentos felizes e únicos: o olhar de criança do meu amor, seus quarenta e poucos anos de experiência, seus ensinamentos, sua trilha sonora. Minha liberdade é do tamanho dessa casa sem móveis – preenche-a e me completa.
Eu tive certeza do meu não-arrependimento quando, recentemente, “inventei” de passar mal durante o almoço. Dessa vez estávamos na praça de alimentação. Eu como muito pouco. Não posso encarar um prato razoável porque o meu coração incha, não suporta o peso da comida que não desce. Então fico sem respirar. É somente mais uma das consequências de minha doença – e este foi o sintoma que primeiro percebi, embora meus pais me obrigassem a “raspar o prato”, porque comida não se desperdiça (e citavam as milhares de crianças africanas que passam fome no exato momento em que eu me privilegio em um jantar com talheres e taças de vinho. Naturalmente eu ouvia essa baboseira de pessoas que não se mexiam sequer para tentar salvar o mundo: doando agasalhos ou dinheiro para o Criança Esperança, sequer colaborando para separar o lixo a ser reciclado, mas tudo bem – falar é sempre mais fácil). Então peguei comida demais e não consegui enfiar tudo na boca. O Professor de Filosofia chamou um segurança que, por sua vez, pediu que algum funcionário trouxesse uma cadeira de rodas e lá fui eu – linda, frágil e morrendo de vergonha sob os olhares e demais holofotes da praça de alimentação rumo ao elevador (tenho claustrofobia, lembrem-se).
Chegamos a “enfermaria”. Minha situação fora rapidamente explicada para a “médica” que mediu minha pressão (baixíssima) e aconselhou que eu fosse para um “médico de verdade” (a encenação estava ótima). Ela fazia minha ficha e perguntou ao Professor: “mas o senhor é o quê dela?”. Ao que ele respondeu: “namorado, eu vivo com ela”.
O que importa é que eu o amo, ele me quer e isso basta. E não estou dependendo dele. E tenho o meu trabalho, meu ensino médio técnico completo e, apesar dos pesares, conseguimos até aproveitar a liquidação da Zara, gente (coisa que eu JAMAIS conseguiria fazer se ainda estivesse morando com os meus pais). Até o meu pai conseguiu me dar um abraço por esses dias, pedindo que eu fosse dormir em casa qualquer domingo, para que conversássemos. Um abraço. Eu não me lembro sequer da sombra de um abraço dele. Não sei se é saudade ou remorso. Fato é que eu, a menininha, estou crescendo. Fico absurdamente surpresa de ter tomado uma atitude como essa, mesmo. E todos os meus familiares também devem estar. O que importa é que eu estou feliz. E a felicidade não me cabe. A felicidade é uma responsabilidade enorme, mas leve. Dia desses admiti (para ele) o quanto estou feliz, e por isso não consigo mais escrever. Porque infortúnios são sinônimo de boas histórias. Quem escreve desconhece a felicidade e, agora que estou experimentando este novo sabor, tenho receio de desaprender e perder o foco narrativo.