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		<title>Eu, a menininha, estou crescendo</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 01:29:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O posicionamento de touro em Júpiter intensifica a maré de sorte cujo início fora obtido desde meados do ano passado. Até junho de 2012, tenho sete vidas, segundo revelações de fontes confiáveis sobre o meu horóscopo. É a fase das mudanças radicais (tanto na vida pessoal, quanto na profissional), onde grandes projetos sairão do papel [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3123&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">O posicionamento de touro em Júpiter intensifica a maré de sorte cujo início fora obtido desde meados do ano passado. Até junho de 2012, tenho sete vidas, segundo revelações de fontes confiáveis sobre o meu horóscopo. É a fase das mudanças radicais (tanto na vida pessoal, quanto na profissional), onde grandes projetos sairão do papel e finalmente flutuarão sobre a realidade da taurina. Sei.<br />
Eu duvido da sorte como quem não acredita em Deus. E, no meu caso, dá no mesmo. Aguardo ansiosamente pela Lei de Murphy (sombra e fiel escudeira, já disse), para estragar minha paz.<br />
Para completar o cenário, faltam apenas unicórnios cor-de-rosa e arco-íris em cada horizonte. O resto a vida já fez por mim.<br />
Estávamos a caminho do restaurante chinês com nome italiano (não perguntem) quando eu devo ter contado alguma tortura básica do campo de concentração no qual vivia. Deve ter sido a gota d&#8217;água, porque ele, ele mesmo, o Professor de Filosofia, me veio com essa: “quer morar comigo?”<br />
Como qualquer ser humano normal, jovem, e que mal saiu das fraldas, respondi que gostaria de pensar. Eu estava hesitando. E acrescentei empecilhos como: não vai ser fácil, mudança exige tempo, preciso trabalhar a cabecinha dos meus pais e VOCÊ ENLOUQUECEU? ESTÁ SE PRECIPITANDO, SABIA? E por aí vai.<br />
Hoje, duas semanas depois, tenho certeza de que foi a melhor escolha que fiz na vida.<br />
Se eu escrevesse um livro, certamente seria uma biografia na qual eu teria um codinome e relataria as memórias do meu cárcere privado pós-guerra. Eu estava presenteando os meus pais com a metade do meu salário de livreira, enquanto não tinha direito a assistir televisão nem ouvir o rádio. Pagava as contas, mas não podia comprar uma roupa, ou biscoito recheado, assistir filme no meio da madrugada, ter uma escova de dentes que durasse pelo menos um mês, essas coisas. E, além da falta de liberdade, também haviam as brigas constantes, de modo que eu não aguentava mais. Deixava de discutir, enquanto ouvia muito sermão. Parecia que eu morava em um pensionato.<br />
Juntei algumas roupas na mochila e avisei: estou indo embora. Não queria pensar mais sobre o assunto, pôr dificuldades inúmeras e sequer ouvir os conselhos da minha mãe. Embora, em muita coisa, ela tenha razão. Basicamente, é a história da vida dela.<br />
Quando meus pais se conheceram, ele era divorciado (já com uma filha) e ela era estudante. Os dois &#8220;se juntaram&#8221;, me tiveram, os problemas começaram e hoje vivem em pé de guerra. Ela abaixa a cabeça porque não tem jeito. Separar-se significa não ter para onde ir. Desde o início do meu ensino médio ela faz pressão para que eu estude, &#8220;seja alguém na vida&#8221; e me torne independente. Sempre compreendi minha independência como a libertação dela: se eu estudar, poderei tirar minha mãe daquela casa. Não é bem assim.<br />
Demorou para que eu compreendesse que “a minha vida” é a minha vida. E eu não vou poder tirar ninguém do inferno, sendo que eu mesma não consigo me livrar dele. Tenho minhas próprias pernas e sei caminhar. O meu namorado também é divorciado e tem uma filha (muito linda e inteligente, por sinal), mas isso também não é sinônimo de que um raio cairá duas vezes no mesmo lugar.<br />
Minha mãe não me ensinou a conquistar independência. Aconselhava-me a “respeitar” e “não responder” ao meu pai. Fora incapaz de me fazer aprender a fazer comida e lavar roupa. Fui criada na concepção de “pobre menina rica”, porém altruísta, sacrificando-me muitas vezes porque isso ou aquilo faltava dentro de casa.<br />
A casa que habito não é muito longe da casa de meus pais. Mas tem carinho de sobra, abraço e risada o dia inteiro. Não tenho saudades da outra casa, mesmo que nesta falte quase tudo: fogão, panela, sofá, cortina, tapete. Sobram momentos felizes e únicos: o olhar de criança do meu amor, seus quarenta e poucos anos de experiência, seus ensinamentos, sua trilha sonora. Minha liberdade é do tamanho dessa casa sem móveis – preenche-a e me completa.<br />
Eu tive certeza do meu não-arrependimento quando, recentemente, “inventei” de passar mal durante o almoço. Dessa vez estávamos na praça de alimentação. Eu como muito pouco. Não posso encarar um prato razoável porque o meu coração incha, não suporta o peso da comida que não desce. Então fico sem respirar. É somente mais uma das consequências de minha doença – e este foi o sintoma que primeiro percebi, embora meus pais me obrigassem a “raspar o prato”, porque comida não se desperdiça (e citavam as milhares de crianças africanas que passam fome no exato momento em que eu me privilegio em um jantar com talheres e taças de vinho. Naturalmente eu ouvia essa baboseira de pessoas que não se mexiam sequer para tentar salvar o mundo: doando agasalhos ou dinheiro para o <em>Criança Esperança</em>, sequer colaborando para separar o lixo a ser reciclado, mas tudo bem – falar é sempre mais fácil). Então peguei comida demais e não consegui enfiar tudo na boca. O Professor de Filosofia chamou um segurança que, por sua vez, pediu que algum funcionário trouxesse uma cadeira de rodas e lá fui eu – linda, frágil e morrendo de vergonha sob os olhares e demais holofotes da praça de alimentação rumo ao elevador (tenho claustrofobia, lembrem-se).<br />
Chegamos a “enfermaria”. Minha situação fora rapidamente explicada para a “médica” que mediu minha pressão (baixíssima) e aconselhou que eu fosse para um “médico de verdade” (a encenação estava ótima). Ela fazia minha ficha e perguntou ao Professor: “mas o senhor é o quê dela?”. Ao que ele respondeu: “namorado, eu vivo com ela”.<br />
O que importa é que eu o amo, ele me quer e isso basta. E não estou dependendo dele. E tenho o meu trabalho, meu ensino médio técnico completo e, apesar dos pesares, conseguimos até aproveitar a liquidação da <em>Zara</em>, gente (coisa que eu JAMAIS conseguiria fazer se ainda estivesse morando com os meus pais). Até o meu pai conseguiu me dar um abraço por esses dias, pedindo que eu fosse dormir em casa qualquer domingo, para que conversássemos. Um abraço. Eu não me lembro sequer da sombra de um abraço dele. Não sei se é saudade ou remorso. Fato é que eu, a menininha, estou crescendo. Fico absurdamente surpresa de ter tomado uma atitude como essa, mesmo. E todos os meus familiares também devem estar. O que importa é que eu estou feliz. E a felicidade não me cabe. A felicidade é uma responsabilidade enorme, mas leve. Dia desses admiti (para ele) o quanto estou feliz, e por isso não consigo mais escrever. Porque infortúnios são sinônimo de boas histórias. Quem escreve desconhece a felicidade e, agora que estou experimentando este novo sabor, tenho receio de desaprender e perder o foco narrativo.</p>
<br />Filed under: <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/cronicas/'>Crônicas</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3123/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3123&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Comercial de margarina</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 10:41:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[2012 é um ano do qual desconheço as férias. No tempo do recesso de ano letivo, era fácil desfrutar dos livros que eu comprava o ano inteiro para distrair minhas horas mortas. Agora, porém, não existe mais isso. Engana-se quem pensa que trabalhar em uma livraria significa que você terá ao alcance das mãos todo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3119&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">2012 é um ano do qual desconheço as férias. No tempo do recesso de ano letivo, era fácil desfrutar dos livros que eu comprava o ano inteiro para distrair minhas horas mortas. Agora, porém, não existe mais isso.<br />
Engana-se quem pensa que trabalhar em uma livraria significa que você terá ao alcance das mãos todo o acervo ali existente. Primeiro é necessário tempo. Durante o Natal, numerosos clientes me procuravam para dicas de livros, enquanto muitos outros caçavam <em>best-sellers</em>. Vi as estantes ficarem vazias, aos poucos. Lembro que desci com muitas cestas de livros &#8211; e Nickolas Sparks ainda vende que nem água. Biografias de Boni, Steve Jobs e Glauber Rocha fizeram o maior sucesso. Também auto-ajuda, como sempre. Foi um período difícil para quem não estava acostumada. Passei a trabalhar oito horas sem direito a folga. Trabalhei de madrugada acreditando que seria a maior das diversões, mas cometi o erro de não ter conseguido dormir durante o dia e, por isso, adquiri o pior dos humores. Devo ter &#8220;espantado&#8221; alguns leitores.<br />
O lado positivo era que tirávamos uma hora de almoço, ao invés de quinze minutos (como acontece para quem trabalha seis horas). Nunca fiz compras de Natal em tempo tão recorde. Precisava muito de roupas &#8211; e descobri que o amor faz com que abandonemos o preto total por vestidos longos com estampas de flores. Voltei a ser <em>hippie</em>. Tudo que tem flores miúdas em fundo claro torna-se meu desejo de consumo. Nova fase.<br />
Na minha lista de presentes, livros não poderiam faltar. Funcionários da livraria, obviamente, compram com desconto. Resolvi ME PRESENTEAR. Porque, em 2011, fiz tudo direitinho, realizei um sonho grande de trabalhar com livros, fiquei imensamente feliz. Daí que comprei um box de livros da Virgínia Woolf, pela editora <em>Novo Século</em>, que contém seis de suas mais importantes obras. Também dois Saramagos, um Jane Austen e um Vargas Llosa. O Professor de Filosofia presenteou-me com um Kerouac &#8211; <em>On The Road, O Manuscrito Original,</em> recentemente lançado pela <em>L&amp;PM Pocket</em> (na livraria concorrente, mas tudo bem).<br />
O meu trabalho tem um projeto muito bom de incentivo à leitura. Os funcionários podem levar para casa dois livros a cada quinze dias. Isso é ótimo para dar dicas aos clientes e acompanhar &#8220;as tendências do mercado editorial&#8221;. Percebi que tenho uma lábia muito convincente para a coisa. Eu amo o que faço.<br />
Agora mesmo peguei um livro da Hilda Hilst (aquela gatíssima pornográfica) e outro do Cristóvão Tezza. Porém, desde que comecei a trabalhar lá, perdi o hábito da leitura. Chego em casa muito cansada. Durmo para acordar quase na hora do almoço. Vejo os livros se amontoarem no chão do quarto e eu só preciso de mais de vinte e quatro horas por dia para dar conta. Ser livreira é desgastante: são seis horas em pé &#8211; e sem ficar parada (se bem que ficar parada é pior, a pressão cai). Às vezes atendo cinco pessoas ao mesmo tempo, enquanto desço livros, enquanto arrumo prateleiras. Mas gosto dos meus pés cansados no fim do dia &#8211; sinal de esforço. Fico satisfeita.<br />
Sim, quando se trabalha em uma livraria, temos a oportunidade excelente de conhecer pessoas interessantes. Todo mundo que trabalha comigo é bem legal. E os clientes tornam-se amigos de infância. Como, por exemplo, um senhor que só lê Tolstói e Dostoiévski; um psicólogo que ama biografias nacionais; um guri que me procura com uma lista imensa de literatura e uma mocinha que se entrega aos romances mais bobinhos.  Conheci um Escritor de Verdade. Eu nem sabia. Acontece que ele visitava sempre o setor literário. E sempre conversávamos. Um dia, o rapaz do estoque pediu que eu colocasse alguns exemplares do lançamento dele na mesa de literatura nacional. Então descobri. Cerca de uma semana depois, ele me dera seu livro de poesia de presente &#8211; e autografado. Virei a noite lendo. Gostei muito.<br />
Muito tempo atrás, recebi aqui no <em>blog</em><a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2009/06/08/autora-visita-escritora-amadora/" target="_blank"> a visita de uma escritora</a> que poucos de vocês conhecem, mas que muito aprecio. Normalice Souza deixou-me um comentário que jamais esqueci, em relação a um trecho de seu livro, <em>Canção Inglesa</em>, <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2010/02/10/desta-vida-e-do-que-vira/" target="_blank">que eu havia publicado</a>. Ela retornou recentemente a este espaço &#8211; e passamos a comunicarmo-nos via <em>e-mail</em>. Ela acaba de me mandar um conto lindo (que irá para o seu novo livro) e pediu minha opinião. Eu nem sei o que dizer. ela diz que lhe massageio o ego, mas a verdade é que fico paralisada quando sei que a literatura é boa, que vale à pena escrever para aliviar muitos pesos, que este é o caminho certo para nós duas. Contei-lhe onde trabalho. E, embora seja frequentadora assídua do espaço, foi lá só para me ver. Está lendo <em>Claraboia</em>, o livro póstumo de Saramago. E levou um Benedetti que lhe indiquei (espero que esteja gostando). Normalice é uma senhora bonita, com bastante vitalidade e um par de olhos recheados de esperteza. Mais um dos presentes maravilhosos que recebi no ano anterior.<br />
O Gerente Sênior da minha livraria está acompanhando este blog. Ele elogiou, dizendo que possuo uma rqueza de detalhes muito grande, que dá vontade de continuar lendo. Com isso tomo muito cuiado &#8211; pois bem sei o tamanho gigantesco dos meus textos. É estranho saber que o chefe sabe o que você está pensando &#8211; e esta crônica bem pode parecer uma &#8220;puxação de saco&#8221;, mas não é. Não sei mentir enquanto neste espaçço. E fico contente que ele apareça aqui.<br />
O meu namorado diz que o meu trabalho é cor-de-rosa, feito comercial de margarina: aquele no qual tudo é perfeito. Não é bem assim. Naturalmente, como em qualquer local de trabalho, lidamos com pessoas e hábitos que desconhecemos. Mas cada pequena dificuldade vai sendo aos poucos superada. E repito: amo o que faço. Amo, e espero continuar nisso.</p>
<br />Filed under: <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/cronicas/'>Crônicas</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3119/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3119&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Retrospectiva literária 2011</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 01:42:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Discutindo Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Ano ímpar, ano singular. Uma maré de sorte sobreveio nesses últimos tempos e, quando olho para os resquícios de 2011, confesso que este fora um ano frutífero (principalmente para quem queria &#8220;a sorte de um amor tranquilo / com sabor de fruta mordida&#8221;).  Tirei férias inesgotáveis do colégio, consegui o emprego dos meus sonhos, também [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3092&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Ano ímpar, ano singular. Uma maré de sorte sobreveio nesses últimos tempos e, quando olho para os resquícios de 2011, confesso que este fora um ano frutífero (<a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/01/03/anti-monotonia/">principalmente para quem queria &#8220;a sorte de um amor tranquilo / com sabor de fruta mordida&#8221;</a>).  Tirei férias inesgotáveis do colégio, consegui <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/11/16/o-emprego-dos-meus-sonhos/" target="_blank">o emprego dos meus sonhos</a>, <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/10/19/cliche/" target="_blank">também desencalhei</a>, <a title="cinheci o Carpinejar" href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/11/23/carpinejando/" target="_blank">conheci o Carpinejar</a>, a <a href="http://www.invanillasky.blogspot.com/">Isa Trindade</a>; <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/08/29/para-o-odilon-dancar/">tornei-me amiga (íntima!) do Odilon Wagner</a>, pedi demissão (juro: a sensação é muito boa), ganhei (de presente) uma <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/07/14/nina/">homenagem musical do Chico Buarque</a>, fiz e desfiz alguns projetos. Mas acredito que é importante salientar que, este ano, li tudo o que ambiocionava, desde pequena, encontrar. Tipo a autobiografia de Caetano Veloso e o mais famoso (e polêmico) livro de Nabokov. Também reli alguns de meus prediletos. Então, se o mundo acabar em 2012, fico feliz. fiz a minha parte. Dando continuidade à tradição que <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/03/31/literatura-retro/">fora iniciada no ano passado</a>, cá está a retrospectiva literária de 2011.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://sobrefatalismos.files.wordpress.com/2011/12/5643385814_68aa8996c1_z_large.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3098" title="Meninas lendo" src="http://sobrefatalismos.files.wordpress.com/2011/12/5643385814_68aa8996c1_z_large.jpg?w=500&#038;h=487" alt="Meninas lendo" width="500" height="487" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Os livros que li em 2011:</strong></p>
<p style="text-align:justify;">1. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/03/17/o-chico-saramago-chico/"><em>Budapeste</em> – Chico Buarque (reli);</a><br />
2. <em>Agosto</em> – Rubem Fonseca;<br />
3. <em>Ensaio Sobre a Lucidez</em> – José Saramago;<br />
4. <em>O Evangelho Segundo Jesus Cristo</em> – José Saramago;<br />
5. <em>Onde Estivestes de Noite</em> – Clarice Lispector;<br />
6. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/03/02/escrevo-logo-existo/"><em>As Palavras de Saramago</em> – José Saramago (sob organização e seleção de Fernando Gómez Aguilera);</a><br />
7. <em>Os Cus de Judas</em> – António Lobo Antunes;<br />
8. <em>Espelho Mágico</em> – Mário Quintana;<br />
9. <em>Contos Contidos</em> – Maria Lúcia Simões;<br />
10. <em>Anna Karenina</em> – Liev Tolstói;<br />
11. <em>Com Licença, Eu Vou À Luta</em> – Eliane Maciel (reli);<br />
12. <em>As Crônicas de Nárnia</em> (os sete livros em volume único, alguns relidos) – C.S. Lewis<br />
13. <em>A Casa dos Budas Ditosos</em> – João Ubaldo Ribeiro;<br />
14. <em>Elogio da Madrasta</em> – Mario Vargas Llosa;<br />
15. <em>O Livro dos Cochichos</em> – José Moreno (reli);<br />
16. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/10/31/que-tipo-de-mulher-voce-pensa-que-eu-sou/" target="_blank"><em>Memória de Elefante</em> – António Lobo Antunes;</a><br />
17. <em>Força Estranha</em> – Nelson Motta;<br />
18. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/04/15/a-minha-tregua/"><em>A Trégua</em> – Mario Benedetti (reli, por uma necessidade extrema e confortadora);</a><br />
19. <em>A Cidade e os Cachorros</em> – Mario Vargas Llosa;<br />
20. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/05/12/em-funcao-do-teu-aniversario/"><em>Olhai os Lírios do Campo</em> – Erico Veríssimo;</a><br />
21. <em>O Ventre</em> – Carlos Heitor Cony;<br />
22. <em>O Amanuense Belmiro</em> – Cyro dos Anjos;<br />
23. <em>Memorial do Convento</em> – José Saramago;<br />
24. <em>Um Retrato do Artista Quando Jovem</em> – James Joyce;<br />
25. <em>Chá das Cinco com o Vampiro</em> – Miguel Sanches Neto;<br />
26. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/05/27/porque-ler-kathryn-harrison/"><em>O Beijo</em> &#8211; Kathryn Harrison;</a><br />
27. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/06/27/helena-futurista/"><em>Helena</em> &#8211; Machado de Assis;</a><br />
28. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/05/31/liberte-nos/"><em>Os Anos Mais Antigos do Passado</em> &#8211; Carlos Heitor Cony;</a><br />
29. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/06/13/para-mario-prata/"><em>Minhas Mulheres e Meus Homens</em> &#8211; Mário Prata;</a><br />
30. <em>Comer, Rezar, Amar</em> &#8211; Elizabeth Gilbert;<br />
31. <em>Poemas 1913-1956</em> &#8211; Bertolt Brecht;<br />
32. <a><em>Lolita</em> &#8211; Vladimir Nabokov</a>;<br />
33. <em>História do Cerco de Lisboa</em> &#8211; José Saramago;<br />
34. <em>O Meu Nome é Legião</em> &#8211; António Lobo Antunes;<br />
35. <em>A Abadia de Northanger</em> &#8211; Jane Austen;<br />
36. <em>A Metamorfose</em> &#8211; Franz Kafka;<br />
37. <em>Na Noite do Ventre, o Diamante</em> &#8211; Moacyr Scliar;<br />
38. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/09/30/os-nerds-tambem-amam/" target="_blank"><em>As Teorias Selvagens</em> &#8211; Pola Oloixarac;</a><br />
39. <em>O Vendedor de Passados</em> &#8211; José Eduardo Agualusa;<br />
40. <em>Histórias do Sr. Keuner</em> &#8211; Bertolt Brecht;<br />
41. <em>Émile e Sophie ou Os Solitários</em> &#8211; Jean-Jacques Rousseau;<br />
42. <em>Além do Ponto &amp; Outros Contos</em> &#8211; Caio Fernando Abreu;<br />
43. <em>Estive em Lisboa e Lembrei de Você</em> &#8211; Luiz Ruffato;<br />
44. <em>Blecaute</em> &#8211; Marcelo Rubens Paiva;<br />
45. <em>Amor é Prosa, Sexo é Poesia</em> &#8211; Arnaldo Jabor;<br />
46. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/08/09/numero-primo/" target="_blank"><em>A Solidão dos Números Primos</em> &#8211; Paolo Giordano;</a><br />
47. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/09/24/primavera-num-espelho-partido/" target="_blank"><em>Primavera Num Espelho Partido</em> &#8211; Mario Benedetti;</a><br />
48. <em>Fahrenheit 451</em> &#8211; Ray Bradbury;<br />
49. <em>Carta ao Pai</em> &#8211; Franz Kafka;<br />
50. <em>Não És Tu, Brasil</em> &#8211; Marcelo Rubens Paiva;<br />
51. <em>1984</em> &#8211; George Orwell;<br />
52. <em>O Mundo</em> &#8211; Juan José Millás;<br />
53. <em>Cartas Ao Cão</em> &#8211; Tatiana Busto Garcia;<br />
54. <em>A Caverna</em> &#8211; José Saramago;<br />
55. <em>A Instrução dos Amantes</em> &#8211; Inês Pedrosa;<br />
56. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/11/07/sem-ti-me-consumiria/" target="_blank"><em>Verdade Tropical</em> &#8211; Caetano Veloso;</a><br />
57. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/11/23/carpinejando/"><em>O Amor Esquece de Começar</em> &#8211; Fabrício Carpinejar;</a><br />
58. <em>O Ano da Morte de Ricardo Reis</em> &#8211; José Saramago;<br />
59. <em>Memória de Minhas Putas Tristes</em> &#8211; Gabriel García Márquez;<br />
60. <em>As Virgens Suicidas</em> &#8211; Jeffrey Eugenides;<br />
61. <em>A Centaura e a Esginge</em> &#8211; Jorge Carrano;<br />
62. <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/10/24/charme-do-mundo/" target="_blank"><em>Tristessa</em> &#8211; Jack Kerouac.</a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O melhor casal literário:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><img class="alignleft" title="A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, editora Bertrand Brasil." src="http://sobrefatalismos.files.wordpress.com/2011/12/asolidc3a3odosnc3bamerosprimos.jpg?w=121&#038;h=185" alt="A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, editora Bertrand Brasil." width="121" height="185" />Alice e Fabio, de <em>A Solidão dos Números Primos</em>, de Giordano.  Apesar de Mattia ser o grande amor da vida de Alice (e protagonista do livro, junto com ela), o amor de Fabio por uma fotógrafa defeituosa que está prestes a perder a mãe me parece mais consolável do que a frieza do outro. Tanto é que ambos se casam e, apesar de construírem um casamento na base da infelicidade, as circunstâncias poderiam ter sido outras caso Alice não fosse tão distante e traumática. Sobretudo, gosto da maneira como os dois se conhecem: lembra romance de colégio, mas tão real quanto uma obra de Benedetti. Quem leu <em>Um Dia</em>, de David Nicholls, vai adorar esse livro.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Virei a noite lendo:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>A Centaura e a Esfinge</em>, de Jorge Carrano. Virei a noite de verdade: no mesmo dia em que o autor me presenteou com seu livro de poemas sobre as mulheres, devorei-o da orelha à última página. Não apenas para ler, mas para sentir todas as palavras.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Soco no estômago:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em><img class="alignright" title="Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago, editora Companhia das Letras." src="http://sobrefatalismos.files.wordpress.com/2011/12/ensaio.jpg?w=145&#038;h=216" alt="Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago, editora Companhia das Letras." width="145" height="216" />Ensaio Sobre a Lucidez</em>, de Saramago. Os personagens de <em>Ensaio Sobre a Cegueira</em> retornam neste livro e, se antes todos estavam cegos, agora todo o país vota em branco, misteriosamente, fazendo com que o governo não tenha controle da situação. É um soco no estômago porque Saramago nos presenteia com uma sugestão plausível &#8211; e uma solução problemática também. Mas a liberdade de expressão é o plano de fundo desta obra. Também <em>As Virgens Suicidas</em>, de Eugenides. Parece as irmãs Bennet de Jane Austen, só que ao contrário. A crueldade da adolescência e o cativeiro ao qual foram submetidas revelam o desespero humano em resolver os problemas para traumatizar outros. Genial.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Aquele em que chorei de soluçar:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Anna Karenina</em>, de Tolstói. A vida dela lembra bastante a de Sissi &#8211; última imperatriz da Áustria, de quem constantemente falo aqui no <em>blog</em>. Também pelo início e final, entrelaçados e premeditados, fechando um círtculo aparentemente vicioso. Karenina é certamente balzaquiana, e carregara consigo todas as dores de uma mulher sem voz &#8211; principal caricatura de seu tempo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A maior decepção do ano:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em><img class="alignleft" title="Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, editora Globo." src="http://sobrefatalismos.files.wordpress.com/2011/12/fahrenheit451indicadoroculto.jpg?w=115&#038;h=175" alt="Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, editora Globo." width="115" height="175" />Um Retrato do Artista Quando Jovem</em>, de Joyce. Basicamente é isso &#8211; título ótimo para livro péssimo. Kerouac, Saramago e Lobo Antunes possuem aquela linha narrativa singular, mas Joyce bem que tenta e se autodestrói. Mal escrito e inacabado. Também <em>Fahrenheit 451</em>, de Bradbury. A idéia de que, no futuro, os bombeiros queimarão livros ao invés de apagar incêndios funciona, mas eu nunca vi uma narrativa tão pobre e incompleta. A melhor personagem do livro logo desaparece deixando uma enorme e desnecessária lacuna. Não é de se admirar: o autor é americano e isso já quer dizer muita coisa&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Não levava fé, e me surpreendi:</strong> <em></em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>O Beijo</em>, de Kathryn Harrison. Uma criança traumatizada por um beijo amoroso que seu próprio pai lhe dá &#8220;de presente&#8221; em uma de suas várias despedidas persegue-a por toda a vida.  Ela confunde os sentimentos e cresce sentindo-se anormal, sofrendo abusos, presa a loucura do pai. Fiquei surpresa porque estava imaginando uma cópia forçada de <em>Lolita</em>, mas o livro de Harrison &#8211; que é autobiográfico &#8211; torna-se cada vez mais forte a cada página.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O mais chato:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Comer, Rezar, Amar</em>, de Gilbert. Li por obrigação, afinal, alguma modinha precisava fazer parte dessa lista. Literatura séria às vezes me enlouquece. Mas Gilbert é insuportável porque a vida dela é um mar de rosas problemático como as leitoras da revista <em>Cláudia</em>. Daí ela viaja o mundo inteiro, empaturrando-se de pizza italiana, conhecendo um guru e se apaixonando trocentas vezes no mesmo capítulo como se não houvesse amanhã.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Quase morri de rir:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Minhas Mulheres e Meus Homens</em>, de Mário Prata &#8211; o imbatível. Uma lista de endereços com famosos, anônimos e parentes do escritor, publicada com causos diversos e dos mais surpreendentes. Prata Pai arrasa &#8211; não só pela comédia, mas também pela construção criativa de toda a sua obra.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Aventura, fantasia ou infanto-juvenil:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>O Mundo</em>, de Millás. Tendo a infância como pretexto para a escrita, o autor transpõe um <em>Pequeno Príncipe</em> moderno, avisando que nem tudo é tão feliz assim. De garoto humilde, passa aos tempos de escritor hipocondríaco, sempre no intuito de rever seu bairro em todas as cidades do mundo.  A poética de Millás lembra Miguel Sanches Neto, <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/07/14/nina/">ou a canção Nina, de Chico Buarque</a>. É notável que Millás fala com o coração.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Biografia:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em><img class="alignright" title="Memória de Elefante, António Lobo Antunes, editora Alfaguara." src="http://www.livrariascuritiba.com.br/Imagens%5CLivros%5CNormal%5CLV246647_N.jpg" alt="Memória de Elefante, António Lobo Antunes, editora Alfaguara." width="184" height="300" />Memória de Elefante</em>, de António Lobo Antunes. Quem me apresentou esse escritor foi <a href="www.introducaoaoserrote.wordpress.com">André Curi</a>, publicitário lá de São Paulo (futuramente crítico literário), que escreve muito bem e com quem sonho largar tudo para comprar uma água-furtada em Paris, se nada mais der certo. A sugestão veio com um alerta: Lobo Antunes abre muitas portas e janelas. Dito e feito. A escrita singular desse lusitano que fora médico durante a guerra aponta vivências como motivo de escrita. <em>Memória de Elefante</em> não é exatamente uma biografia, pois mescla ficção, mas é narrado para uma mulher, na mesa de um bar, assim como o personagem de <em>Leite Derramado</em> (de Chico Buarque) descreve confusamente sua vida enquanto permanece no leito de um hospital, fingindo-se esperançado. Outra excelente biografia (e, dessa vez, é biografia mesmo) trata-se de <em>Verdade Tropical</em>, de Caetano Veloso: o início da carreira, o movimento tropicalista, as fases políticas pré-ditadura, os jovens que, aos poucos, tornavam-se grandes estrelas da música popular brasileira. A estranha escrita barroca de Caetano encanta &#8211; essa é uma obra absurdamente necessária para compreender a cultura musical de nosso tempo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O mais esperado:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Lolita</em>, de Nabokov. Desde pequenininha que eu ansiava por ler o diário do insano Humbert Humbert que se tranformou no romance obra-prima mais importante do sérculo XX. Eu não podia morrer sem ler esse livro.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Bate-bola de personagens:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><img class="alignleft" title="Primavera Num Espelho Partido, Mario Benedetti, editora Alfaguara." src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/primavera1.jpg" alt="Primavera Num Espelho Partido, Mario Benedetti, editora Alfaguara." width="124" height="194" />• Personagem masculino apaixonante</strong> – Don Rafael, o velho bondoso e repleto de memórias tristes de <em>Primavera Num Espelho Partido</em>, de Mario Benedetti. Conselheiro que sofre com o filho tido como preso político e que, volta e meia, toma a voz de um exilado. Basicamente, o próprio autor está ali;<br />
<strong>• Personagem feminina admiráve</strong>l – Blimunda, de <em>Memorial do Convento</em>, de Saramago. A mulher forte que, em jejum, enxerga a alma das pessoas e, no fim da vida, não perde a esperança de reencontrar o homem que deixara partir. Pela persistência que somente uma personagem saramaguiana pode ter;<br />
<strong>• Personagem mais chato</strong> – o Sr. Keuner, de <em>Histírias do Sr. Keuner</em>, de Brecht. O autor é, definitivamente, melhor com teatro. E o Sr. Keuner &#8211; que tenta passar como um velho professor muito bondoso, consegue ser apenas um ser humano chatíssimo que aponta os erros dos outros;<br />
<strong><img class="alignright" title="1984, George Orwell, editora Companhia das Letras, selo Claro Enigma." src="http://www.icultgen.com.br/wp-content/uploads/2011/12/resenha_1984_georgeorwell_11.png" alt="1984, George Orwell, editora Companhia das Letras, selo Claro Enigma." width="148" height="205" />• Personagem mais perturbador</strong> – São dois. O&#8217;Brien de <em>1984</em> (de Orwell), pois imagino penetrantes olhos azuis desvendando pensamento-crime dos pobres humanos; e Humbert Humbert (claro), de <em>Lolita</em>. Por toda a insanidade e vaidade do narrador-personagem. Pela culpa, pelo erro. E porque não merece perdão;<br />
<strong>• Personagem que mais me identifiquei</strong> – Lux Lisbon, acredite se quiser, do livro <em>As Virgens Suicidas</em>, de Eugenides. A tentação suicida por tudo o que é belo. O pacto que ela solidifica com as irmãs, as razões obscenas e práticas, a frieza singular também.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O melhor livro que li em 2011:</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><img class="alignleft" title="As Teorias Selvagens, Pola Oloixarac, editora Saraiva, selo Benvirá." src="http://www.benvira.com.br/imagens/capas/725866.jpg" alt="As Teorias Selvagens, Pola Oloixarac, editora Saraiva, selo Benvirá." width="109" height="169" />Em 2010, escolhi <em>Fogo Pálido</em> (do grande Vladimir Nabokov) como o meu predileto. Dessa vez, para minha própria surpresa, escolho <em>As Teorias Selvagens</em> como o mais interessante de todos. O livro da estreante argentina Pola Oloixarac é uma obra completa: bons personagens, excelente narrativa que se entrelaça e prende o leitor do princípio ao fim. Além de ser inteligente, filosófico, ácido no humor e anti-romântico, não é possível encontrar defeitos e lacunas na obra de Pola. Um livro para ser relido e compartilhado. Pola deixa de ser promessa e já se classifica como uma das melhores autoras de minha geração.</p>
<h1 style="text-align:center;">Feliz 2012!</h1>
<br />Filed under: <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/discutindo-literatura/'>Discutindo Literatura</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3092/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3092&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Nina Vieira</media:title>
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			<media:title type="html">Meninas lendo</media:title>
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		<title>Os escafandristas virão</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Dec 2011 13:34:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia]]></category>

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		<description><![CDATA[Aquilo que, nesse momento, se revelará aos povos, surpreenderá a todos – mas não por ser exótico –, somente pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio: os escafandristas virão. Digo isso porque, em Verdade Tropical, Caetano faz uma comparação rebuscada entre sua canção Alegria, Alegria e A Banda, de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3064&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Aquilo que, nesse momento, se revelará aos povos, surpreenderá a todos – mas não por ser exótico –, somente pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio: os escafandristas virão.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="Caetano Veloso e Chico Buarque." src="http://userserve-ak.last.fm/serve/_/51960021/Caetano+Veloso++Chico+Buarque+BRAVO+Chico++Caetano.jpg" alt="Caetano Veloso e Chico Buarque." width="400" height="300" /><br />
Digo isso porque, em <em>Verdade Tropical</em>, Caetano faz uma comparação rebuscada entre sua canção <em>Alegria, Alegria</em> e <em>A Banda</em>, de Chico Buarque. No inesquecível festival da <em>TV Record</em> de 1967, ambas as canções (se não me engano, ou Chico apresentou um ano antes <em>A Banda</em>, não me recordo) foram apresentadas: a primeira interpretada por seu compositor e a segunda, de Chico, na voz de Nara Leão. Sucede que o Caetano exibe o pensamento do quanto as canções são parecidas – apesar de <em>Alegria, Alegria</em> ter sido considerada uma “anti-<em>A Banda</em>”. Pois “caminhando contra o vento / sem lenço e sem documento” rima com “estava à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar / cantando coisas de amor”. Acontece que, naquela época em que Chico já possuía uma importância considerável na música popular brasileira e Caetano era apenas um novato (porém não “mais um”) rebelde nordestino gerando o movimento tropicalista, Chico possuía a certeza de estar lançando uma obra menor, se comparada a <em>Pedro Pedreiro</em> (da mesma época), por exemplo. <em>A Banda</em> tratava-se de uma marchinha leve para ser cantada do carnaval ao resto do ano, com a pretensão de divertir, fazer acordar corações, para depois tudo voltar ao normal, feito desencanto, como manda o figurino presente ao findar da letra. <em>Alegria, Alegria</em>, não. E Caetano jamais poderia imaginar que o impacto que essa composição/interpretação causara ali, naquele festival, remotos anos atrás, perpetuaria por gerações inteiras, tornando-se hino de diferentes épocas decisivas no país em que vivemos. O trecho abaixo é o que mais intensifica isso:</p>
<blockquote>
<p style="text-align:justify;"><em>“‘Alegria, Alegria’, seu bordão da temporada (ele lançou muitos que entraram na linguagem cotidiana) </em><strong>[trata-se de Chacrinha]</strong><em>, se tornou o título dessa minha canção projetada para ser um mero abre-alas mas que se tornou o sucesso mais amplo e mais perene entre todas as minhas composições. Isso dentro do território nacional, uma vez que os estrangeiros – mais próximos de mim neste caso – não lhe percebem tanta graça. Sendo que os brasileiros, que nunca a esqueceram, jamais se acostumaram com o título, referindo-se a ela na maioria das vezes, não pelo primeiro verso, nem pelo último, nem mesmo pelo quase-refrão ‘eu vou’, mas pelo pregnante ‘sem lenço, sem documento’, que surge duas vezes, e em posições assimétricas, na mesma letra.”</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align:justify;">Caetano reclama de duas coisas: da rivalidade que a mídia criara em relação a ele e Chico Buarque (rivalidade esta que, em suma, nunca existiu); e do fato de que Chico jamais ficará conhecido como “aquele cara que fez aquela música”, tendo em vista que <em>Alegria, Alegria</em> causou uma comoção grandiosa e de acordo com aquele período. Segue o trecho:</p>
<blockquote>
<p style="text-align:justify;"><em>“Eu não estava plenamente consciente de todos os seus aspectos e implicações, mas sabia vagamente que ‘Alegria, Alegria’ era, entre outras coisas, uma espécie de paródia de ‘A Banda’, um aproveitamento mais descarado da oportunidade do festival, trazendo a um tempo mais crítica e mais aceitação do fenômeno TV. Hoje considero muito revelador (mais de minha ingenuidade do que de minha lucidez) o fato de Chico ter se livrado de sua canção-cartão-de-visita como eu não pude livrar-me da minha. Estou certo de que ele não se sentiria especialmente feliz se as pessoas ainda lhe repetissem que ‘A Banda’ é sua melhor música, ou que ligassem seu nome exclusivamente a ela, como frequentemente fazem comigo.”</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align:justify;">O meu primeiríssimo contato com Chico Buarque se dera através de um livro didático de segundo grau, de Língua Portuguesa, que minha mãe trouxera para casa, em razão de ter retomado os estudos após ter cuidado de minha educação até meus quatro anos de idade. Ela estava a estudar interpretação de texto, e eu estava sendo alfabetizada em casa, pela minha avó paterna, que fora professora. Logo, era natural que gostasse de abrir qualquer livro em qualquer página e passasse a ler qualquer coisa. <em>A Banda</em> estava ali, estampada em estrofes de quatro versos (ou versos de quatro estrofes, pois juro que nunca cedi mais do que cinco segundos ao entendimento poético – apenas gosto – o que me torna ignorante diante da estrutura de um soneto, por exemplo), e eu lia devagar, para captar a dicção e compreender melhor, quando minha mãe começou a cantar, com ritmo e desenvoltura o que eu narrava com dificuldade e sem declamações.<br />
Mas cresci ouvindo Caetano, que mais combina com minha personalidade libertária, apesar de ofuscar-me em todas as canções (Chico, ao contrário, permite nossos duetos, alcanço a sua voz). E sucedeu que, um dia, me vi diante de uma verdade irrefutável: não posso viver sem esses dois. Ambos foram – e ainda são – necessários para o Brasil que fomos, somos e haveremos de ser. A compreensão da musicalidade de Chico Buarque e Caetano Veloso vai muito além de épocas determinadas – o que os torna atemporais. Gosto mais do Caetano, é verdade: por toda a sua ousadia – característica ímpar que Chico, infelizmente, não possui, sempre apresentando “mais do mesmo”, enquanto o Caetano sai do samba e volta <em>rock’n’roll</em>, de uma maneira que ninguém esperaria.<br />
Anna Vitória detestaria me ouvir cantar, como faço, enquanto lavo os pratos da cozinha, a belíssima <em>Futuros Amantes</em>, que já fora tema <a href="http://sooo-contagious.blogspot.com/2011/07/minha-palavra-preferida.html">de uma crônica sua</a>. Digo isso porque assumo um inevitável sotaque carioca ao afirmar que “os escafandristas virão explorar sua casa / seu quarto / suas coisas / sua alma / desvãos”, porque sai ao modo buarquiano de se cantar, ou seja: “os essscafandrissstas virão exxxplorar sua casa / seu quarto / suasss coisasss / sua alma / desvãosss”. E pior é que eu canto assim desde sempre, o que levara meu professor do coral a reclamar do excesso de “esses”, apesar de elogiar a grandiloqüência e firmeza da minha voz. Esses duetos que pratico com o Chico religiosamente aos fins-de-semana é que podem ser considerados culpados de minha nervosa dicção. Mas não me importo, não pretendo brilhar nos palcos por esse meio.<br />
Daí que, tal como <em>A Banda</em> é plural em relação a <em>Alegria, Alegria</em>, também considero o fato de que <em>Um Índio</em>, do Caetano, é quase idêntica a <em>Futuros Amantes</em>, de Chico. Com a leve diferença de que a primeira traz um âmbito social, enquanto a segunda trata de um amor que se perpetua tanto quanto o trecho “sem lenço, sem documento” que intensifica a trajetória do Caetano.<br />
Ambas parecem ficção científica. O fato de que um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante em um futuro próximo do qual haveremos de arrependermo-nos pela civilização imposta através da expansão marítima de países europeus em busca de riquezas nos trópicos (séculos atrás), intensifica o fato de que vendemo-nos cada vez mais a uma cultura que nos julga indiferente: aquela que é mais americana ou japonesa possível. Esse futuro de <em>Um Índio</em> já existe – a cada dia que passa, tornamo-nos cada vez mais dependentes da tecnologia, de tal forma que a nova geração (a minha, em verdade) não saberá sobreviver sem ela, por já ter nascido com ela. Em meu período de colegial, meu excelente professor de História do turno noturno frequentemente afirmava um fato: não existem culturas superiores e/ou inferiores. Os franceses não são melhores do que os americanos e estes não são piores do que nós. E nós não somos melhores do que a África, por exemplo. No meio disso tudo, claro, há controvérsias. Mas não posso fazer, por exemplo, o que muitos evangélicos fazem aqui na Bahia: constroem um templo em cada esquina e condenam – ao mesmo tempo em que massacram, deliberadamente – o candomblé. Detesto ouvir alguém dizer que “português é burro” e que tal evento é “programa de índio”: porque a troça da resposta é o que somos – descendemos de índios e portugueses, isso explica o sobrenome de minha mãe e os olhos claros que herdei – não há como negar nosso próprio berço.<br />
Já <em>Futuros Amantes</em> traz-nos um amanhã mais que distante: para quando a vida humana for extinta e o nosso amor continue a existir através de fragmentos que certos alienígenas descobrirão em um Rio de Janeiro debaixo d’água (imaginem). Esses intrusos virão em causa de pesquisa, e serão escafandristas a explorarem contextos acima de sua compreensão: a capacidade que uma pessoa tivera de esperar por outra, durante tanto tempo, pois a interpretação que a música apresenta é de que o amor chega para todos nós, portanto, não há necessidade de se afobar “que nada é pra já / amores serão sempre amáveis / futuros amantes, quiçá / se amarão sem saber / o amor que, um dia / deixei pra você”, um romance guardado a sete chaves, em forma de diário, em páginas de livros, resquícios de perfume, cartas, lembranças. Talvez, por isso, sempre achei essa canção meio adolescente, embora ela não tenha me consolado no período do amor primeiro, quando mais precisei.<br />
Cerca de um ano atrás, estava em um bairro nobre daqui de Salvador, apinhado de restaurantes e hotéis, além de residências de alguns famosos e empresários, quando, ao findar da tarde, tomei um ônibus que passaria pelo trânsito próximo da orla marítima, e então recordei <em>Futuros Amantes. </em>Naquele dia, decidi que, assim que pudesse, compraria um carro, aprenderia a dirigir e faria todo aquele percurso: com o mar servindo de paisagem e ocular testemunha, ouvindo o disco que traz essa canção, ouvindo-a, repetidas vezes, atrevendo-me a dirigir de olhos fechados, sentindo o vento salgado de maresia no meu rosto – com as janelas abertas (&#8220;percorrer correndo corredores em silêncio&#8221;) ou, se eu tiver muita sorte e ficar rica, haverá de ser um conversível (vermelho, é claro). E estarei a dirigir rumo ao infinito (o que, certamente, me sairá semelhante a essas propagandas de carro, que abusam de intuição e/ou instintos humanos para vendê-los), provavelmente serei levada até alguma cidade submersa, ganharei roupa de escafandro e meu carro transformar-se-á em submarino. E verei minha casa, adiante: situada em um Rio de Janeiro que desconheço, mas repleta de minhas peculiaridades. E sentirei saudades: dos diálogos inacabados e daqueles que jamais existiram, também de uns papéis de carta debaixo do colchão e algumas embalagens de chocolate que determinem um momento marcante. Considero estranha a idéia de explorar minha própria vida, ou de tê-la explorada por outros. Mas penso que isso só demonstra o quanto somos supérfluos, efêmeros diante da magnitude que é o eterno – mesmo quando o eterno é utópico, em sua maioria. Recordando outro trecho de música, “o verdadeiro amor é vão”, e talvez eu já o tenha vivido, sem notar. Se não, ao menos resta-me o consolo de um Chico que me põe no colo e corta meus soluços, porque nada é para já, o amor não tem pressa e ele pode esperar, mas nunca em silêncio: sempre haverá esse par de olhos cor de ardósia para fazer-me companhia. E, se ele vier a faltar (Deus queira que não), ainda tenho o Caetano, que me sacudirá pelos ombros fazendo-me acordar. São eles os meus verdadeiros amores. E meus futuros amantes, quiçá.</p>
<p style="text-align:right;"><em>“Eu já sabia então que as canções têm vida própria e que outros podem revelar-lhe sentidos que seu autor não teria suspeitado.”</em><br />
:: Do livro <em>Verdade Tropical</em>, de Caetano Veloso.</p>
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			<media:title type="html">Caetano Veloso e Chico Buarque.</media:title>
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		<title>Carpinejando</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 14:11:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Drummond, se o visse, diria ser pedra no meio do caminho. Eu, parafraseando-o, afirmo ser verbo no meio do poema. Carpinejar é um verbo. Um verbo forte. Um eco. Como a Lei de Murphy é minha sombra (e fiel escudeira), o circo estava armado para que tudo desse errado no dia em que eu veria [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3076&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Drummond, se o visse, diria ser pedra no meio do caminho. Eu, parafraseando-o, afirmo ser verbo no meio do poema. Carpinejar é um verbo. Um verbo forte. Um eco.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="Fabrício Carpinejar, escritor." src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/02/fabricio_carpinejar_credito_renato_stoduto.jpg" alt="Fabrício Carpinejar, escritor." width="495" height="225" /><br />
Como a Lei de Murphy é minha sombra (e fiel escudeira), o circo estava armado para que tudo desse errado no dia em que eu veria o Carpinejar na 10° edição da <em>Bienal do Livro na Bahia</em> (<a href="http://www.bienaldolivrodabahia.com.br/">esse evento</a> que me enche de entusiasmo a cada dois anos e me causa uma espera terrível). Há mais de quinze dias eu testava a paciência dos meus amigos “twitteiros”, porque o Carpinejar estaria aqui, o-Carpinejar-estaria-aqui, oCarpinejarestariaaqui. Logo, o excesso de euforia não deveria ser novidade. Sobretudo <a href="https://twitter.com/CARPINEJAR">quando vi que o próprio autor estava me seguindo</a>, fazendo parte da minha (nada extensa) lista de pessoas bacanas <a href="https://twitter.com/cronistaamadora">que lêem as bobagens que escrevo</a>. Tudo bem.<br />
Tive uma crise com o meu namorado (agora sem aspas), que não estava mais interessado (eufemismo) em me levar para o evento e inventou essa recusa um dia antes do dito cujo. Eu, como toda taurina (com ascendente em escorpião, lembremos), virei o cão e reclamei muito porque né: “como assim você toma essa decisão às onze da noite de domingo? Como eu vou arranjar alguém para ir comigo, meu filho? Se não estava com vontade de ir, porque diabos não me avisou, sei lá, no meio da semana?” Mas geminiano é assim mesmo, imprevisível que só vendo. Mas a gente não ama a pessoa por conta do signo. Ama justamente porque existe essa capacidade de se recusar a um compromisso planejado havia tempos.<br />
Porque é necessário que se compreenda a geografia soteropolitana: se você mora no centro da cidade, é realmente absurdo que um evento como esse esteja no fim do mundo. Se a intenção é democratizar a <em>Bienal</em>, produção, inventem um local mais perto. E outra coisa: quase vinte reais de estacionamento e oito para entrar? O que é isso, Bial? Por acaso pagamos para entrar numa livraria? Menos, por favor. Daí que ir sozinha estava fora de cogitação, pelo óbvio de que eu não saberia voltar e aquele ponto de ônibus do Centro de Convenções é de-ser-to. Entretanto, uma coisa era certa: eu já havia desistido de largar tudo na minha vida para trocar de nome e fazer o caminho de Lanzarote no intuito de encontrar Saramago. E, quando ele viera a falecer, vi que era tarde demais. Dessa vez, eu não me perdoaria se deixasse de conhecer o Carpinejar por conta de terceiros. Com a cara, a coragem (e o risco de ser assaltada) eu iria.<br />
E os absurdos, naturalmente, tendem a piorar: o acesso para a <em>Bienal</em> é dificílimo. Eu sairia do trabalho às quatro e meia e teria de ir direto (Carpinejar, seis horas, corre). Fui para o ponto de ônibus exatamente quatro e trinta e cinco. Em três minutos vi chegar o ÚNICO transporte que poderia me levar para a <em>Bienal</em>. Mas quem falou em sorte? Em meia hora eu já me sentia em um <em>road-movie</em>, nada nabokoviano, por sinal. O ônibus dava voltas e mais voltas nos mesmos bairros. Era um círculo vicioso. Fiquei nervosa. Muito nervosa. Nervosa ao ponto de ativar a minha taquicardia. A cada cinco minutos eu perguntava ao cobrador “já está perto, moço?”, e ele tentava me consolar com um “antes de seis e meia você chega, dona”. Antes de seis e meia? Como lidar? O Carpinejar não vai esperar. Ai meu Deus, ai meu Deus.<br />
Depois de uma hora e meia dentro daquele ônibus, completamente acabada, avistei a estrutura do Centro de Convenções. Puxei a cordinha, dei dois passos, agradeci ao (lerdo do) motorista e desci. Corri. Quase não encontrava o portão de entrada (sempre me confundo). Cheguei ofegante à bilheteria e ainda pior quando entreguei meu ingresso para o rapaz da entrada, perguntando de maneira desconexa: “o Café&#8230; Literário&#8230; Carpinejar&#8230; CADÊ ELE, MOÇO?”. O rapaz, naturalmente assustado (e ainda não recuperado de meu desespero), indicou as coordenadas e eu corri.<br />
Eu não tenho senso de orientação. Significa dizer que me perco com facilidade e sou facilmente atraída por desvios de todo tipo. Enquanto procurava feito uma louca pelo Café, pensava: “será que, no meio do caminho, vou conseguir topar com o <em>stand</em> da <em>Companhia das Letras</em>?” (que não estavá lá, por sinal). Caí na real do meu atraso (seis e meia, já) e pedi que um dos seguranças, <em>peloamordedeus</em> me orientasse.<br />
A mocinha que guardava a porta do Café Literário foi muito simpática ao informar “desculpe, o espaço está lotado”. Chorei. Juro que chorei. Chorei incessantemente. Implorei, em soluços: “por favor, moça, eu só quero ver o Carpinejar. Fico em pé, não tem problema”. Ela franziu o cenho em tom solidário e pediu que eu esperasse. Então sacou o celular/<em>Nextel</em>/sabe-se-lá-o-quê-mas-não-importa e chamou uma tal de Carol que, em trinta segundos, me puxou pela mão com um “tá atrasada!” e eu agradeci aos montes essas duas moças simpaticíssimas que realizaram o meu sonho.<br />
Assim que me abriram a porta, enxerguei várias mesas com cadeiras espalhadas, gente desfrutando taças, silenciosos, atentos. Adiante, Carpinejar, <a href="https://twitter.com/nlpretto">Nelson Pretto</a> e a mediadora do debate. Fui levada para uma mesa ao fundo, onde havia um senhor simpático, uma mulher de (aparentemente) trinta anos e um outro jovem. Sentei em uma cadeira alta, apoiei minha bolsa no colo e mal conseguia enxergar – com a vista completamente embaçada pelas lágrimas que ainda corriam, incessantes.<br />
O tema abordado nesse debate foram as mídias digitais. Mesmo que o Carpinejar não estivesse ali, eu me sentia na obrigação de assistir opiniões sobre esse assunto. Afinal de contas, o que está em jogo é o futuro de nossa literatura. Quem me conhece sabe do quanto sou materialista: gosto de ter o livro em mãos, de virar as páginas, de sentir o cheiro. O livro, para mim, sempre se manteve na posição de amante. Gosto desse conforto de tocar uma obra. E gosto de vê-la exibida na estante. Mas em se tratando do meu livro, especificamente, reconheço a facilidade de arquivá-lo ou de transformá-lo em um espaço como esse. E não há como fugir: duvido muito que o livro impresso seja extinto, mas o mercado (daqui a pouquíssimo tempo) dará espaço para essa maneira mais democrática de se desfrutar um livro. E aí os problemas tendem a começar.<br />
Eu me conformo em ser amadora. Escrevo porque gosto, quando quero. Detestaria ter essa obrigação de “ah, hoje eu tenho que escrever a crônica para o jornal” – e aí, ficar sem assunto. O termo “amadora” veio de Clarice Lispector, que dizia preferir ser assim a ter obrigação com a escrita. Tenho seriedade no que escrevo, mas não levo essa atividade “tão a sério”. Se levasse, talvez fosse frustrante. Porque eu certamente escreveria qualquer coisa, no desespero de manter a minha imagem de escritora. Quando pensei em iniciar um livro (e isso não faz muito tempo), comecei a pesquisar sobre o mercado editorial. Mas o que de fato me surpreendeu fora <a href="http://programadojo.globo.com/videos/v/jo-soares-entrevista-o-escritor-mario-prata/1577445/">a última entrevista que Mário Prata concedera ao Programa do Jô</a>. Ele havia levado uma lista com nomes de escritores brasileiros famosíssimos e renomados da atualidade (dentre eles, um “imortal” da Academia), que ganham a vida dando palestras em todo o país. A lista, claro, só foi mostrada ao Jô Soares. Mas para quem acompanha a literatura como mera admiradora, não me era difícil adivinhar pelo menos dois nomes ali presentes. Um escritor ganha muito pouco em relação aos livros que escreve. E ele só passa a ganhar visibilidade quando no terceiro ou quarto livro. Imagine para quem está nessa transição entre livro impresso/livro digital (se já ganha pouco com o primeiro, disponibilizando o segundo para <em>download</em> qual lucro se obterá?). Uma das senhoras presentes no debate lembrara-nos o fato de que os músicos não ganham dinheiro com discos, mas com <em>shows</em> (desde sempre, pelo menos no Brasil). Que seria da literatura? Que precisaríamos fazer para ganhar dinheiro – porque livro, aqui em nosso país, é fato, rende menos do que a música.<br />
Sou a favor da democracia na <em>internet</em>. Acredito que aquilo que publicamos aqui deve ser gratuito. Já está sendo. Semanalmente discuto literatura com todos vocês – e não cobro nada (assim como vocês não pagam para ler este espaço). Então, com a média de leitores fiéis que possuo em relação a este <em>blog</em> – e com todos os elogios (aos quais declino, muitas vezes) – talvez eu seja uma boa escritora. Escritora?<br />
O Carpinejar abriu meus olhos quando dissera que devemos parar de pensar que essa leva de autores de <em>blog</em> não traz para a literatura escritores de verdade. E o que são escritores de verdade? Os que publicam algum livro? Por quê? Há pessoas que escrevem recados de porta de geladeira e assinam o próprio nome em diferentes contratos porque são alfabetizadas. E os que escrevem porque pensam no que escrevem e porque se sentem na obrigação de expressarem-se ao público? Porque nós, da “geração z” não deveríamos ser considerados os autores do futuro?<br />
Nisso tudo, eu bem sei, há o desespero. A geração de 140 caracteres é rápida: a maioria não gosta de ler e, quando o faz, se contenta com romances meia-boca de vampiros. Atualmente, não acho tão absurdo assim que esses jovens sejam aficionados pela literatura de <em>best-seller</em>. Porque, apesar dos pesares, essa narrativa fácil (e pobre) incentiva aos clássicos. Stephenie Meyer, por exemplo, cita Emily Brontë e Jane Austen na saga <em>Crepúsculo</em>. E, em meu período de colegial (quando a saga esteve no auge), várias vezes fui questionada com um “e aí, Jane Austen fala sobre o quê?”. E boa parte desse pessoal passou a gostar do segundo nome mais importante da literatura inglesa – e as editoras, de um modo geral, começaram a lançar novas edições e traduções de, por exemplo, <em>Orgulho e Preconceito</em>.<br />
Há poética no <em>Twitter</em>. Foi assim que eu conheci o Carpinejar. As frases dele começaram a se multiplicar na rede social, <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/10/24/charme-do-mundo">como se fosse Caio Fernando Abreu e/ou Clarice Lispector</a>. Logo, despertou minha atenção. As pessoas começavam a me mandar textos inteiros dele, publicados em outros <em>blogs</em>. Aquilo era muito genial. Carpinejar aborda as relações humanas com muita sensibilidade. Define, responde. Conceitua. E, acima de tudo, respeita. Depois, li a sua definição da real beleza de Gisele Bündchen para a revista <em>Cláudia</em>, como já relatei <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/04/25/sem-vaidade/">aqui</a>. E então, só posteriormente, descobri <a href="http://www.carpinejar.blogspot.com/">o seu <em>blog</em></a> (que leio religiosamente). Nesse meio período, ganhei <em>Mulher Perdigueira</em> de um amigo que, entusiasmado, falara: “caramba, tem um livro de um escritor muito bom que você precisa ler agora!”.<br />
<img class="alignleft" title="O Amor Esquece de Começar, livro de Fabrício Carpinejar, pela Bertrand Brasil." src="http://img.skoob.com.br/livros_new/1/17402/O_AMOR_ESQUECE_DE_COMECAR_1236067840P.jpg" alt="O Amor Esquece de Começar, livro de Fabrício Carpinejar, pela Bertrand Brasil." width="160" height="243" />Próximo ao fim do debate, percebi que havia uma mesa com os livros do Carpinejar que estavam sendo vendidos. Levantei e decidi adquirir algum, também para perguntar a mocinha que vendia se os autores ficavam disponíveis ao público após a discussão. Ela afirmou com a cabeça, sorrindo. Então escolhi um volume de crônicas (óbvio), sob o título <em>O Amor Esquece de Começar</em>. Voltei para o meu lugar, planejando fazer uma pergunta muito inteligente (mas nada impertinente, como a maioria do público faz), porém nada me ocorreu, a emoção transbordava demais e eu tinha medo do embargo de minha voz.<br />
Carpinejar se mostrara dinâmico e divertido abordando este tema, que ele apóia. Eu, do outro lado da sala, não conseguia tirar os olhos de sua figura. Me desconfortava, rígida, enquanto a descontração dele permanecia. Algumas vezes ele olhou em minha direção (pessoa ruiva de blusa preta e calça <em>jeans</em>, estranha), mas não sei se era exatamente para mim.<br />
Todo debate termina sem uma conclusão direta. Senti que o assunto havia ficado no ar, porque não necessitava mesmo de “conserto”, tendo em vista que não era um problema. Logo, para saber se as mídias digitais serão o futuro, basta esperar que o próprio futuro chegue – e nos surpreenda.<br />
Dado oficialmente como encerrado, ainda trêmula, caminhei para a fila do autógrafo, mal conseguindo segurar seu livro entre os dedos que suavam frio (e a taquicardia, a taquicardia). Conversei com um rapaz na fila, à minha frente, que também o admira (e, de certa forma me tranqüilizou, distraindo-me com sua conversa). Estávamos ambos estupefatos concordando que “se o Carpinejar andasse por aí, entre os <em>stands</em>, ninguém o reconheceria”. Não era uma ofensa. Se ele fosse um Paulo Coelho, detestaríamos. O pessoal mais alternativo é assim mesmo – egoísta a tal ponto de querer dividir o mesmo autor apenas com os do seu grupo. Assim somos nós. Recordei-lhe que não havia levado uma máquina sequer, para tirar foto da lembrança. Quando foi a sua vez de falar com o escritor, deram-se um abraço, mas o Carpinejar dissera: “abraça que nem homem!”.<br />
Este jovem convidou-me para a foto – e lá fui eu, tímida e recomeçando a chorar (a foto ainda não chegou em meu <em>e-mail</em>). Quando terminou, chegara a minha vez.<br />
Abracei o Carpinejar com todas as minhas forças. E chorei, incessantemente, enquanto ele pedia calma: “já passou, já passou&#8230; O lobo mau já foi” (riam). Só podia responder em agradecimento, “obrigada por tudo”. Penso que minha função, enquanto leitora, é exatamente essa, a de agradecer. Agradecer todo o acolhimento que um escritor nos dá: a possibilidade de pensar e auxiliar em nossa vida, o dia frio com o cobertor que nos põe em cima, os conselhos inesquecíveis, a maneira como nos despe. Quando eu disse quem era, ele logo recordou: “te sigo!”. É, quem diria (eu mesma fico pasma, às vezes). Ele me dera um cartão com o seu <em>e-mail</em> e um autógrafo lindo no meu exemplar do seu livro. Enquanto autografava, reparei nas suas unhas grandes e pintadas de um azul lindíssimo (meio verde-água ou azul celeste – tipo de tom que, até hoje, reconheço como “azul da Prússia” – meu esmalte predileto). Ia falar do quanto havia gostado, mas guardei meu comentário, em razão de minhas terríveis unhas roídas.<br />
O Carpinejar acolhe. Ele poderia ser “um escritor chato” (desses que lançam livro e não dão autógrafo, mas Rubem Fonseca, ainda te amamos!). Chata havia sido eu: que avisei aos quatro pontos cardeais do ciberespaço que iria porque iria vê-lo. E chorei, quando o fiz. Ainda dei uma volta pela <em>Bienal</em> e adquiri mais dois livros (um deles de Vargas Llosa). Saindo dali, esperando no ponto de ônibus, vi o Carpinejar indo embora, corri e o abracei pela última vez (pedindo desculpas, também), ao que ele dissera: “bom te olhar”.<br />
Acreditei que ele me acharia maluquinha, maluquinha. Não achou, pelo <em>Twitter</em>, respondeu-me o seguinte: “não te achei louca, te achei essencial. Obrigado por todo carinho”. Imagina, Carpinejar. Sou eu quem lhe agradeço, e espero retribuir ainda mais, com esta crônica.</p>
<br />Filed under: <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/cronicas/'>Crônicas</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3076/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3076&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Nina Vieira</media:title>
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			<media:title type="html">Fabrício Carpinejar, escritor.</media:title>
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			<media:title type="html">O Amor Esquece de Começar, livro de Fabrício Carpinejar, pela Bertrand Brasil.</media:title>
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		<title>O emprego dos meus sonhos</title>
		<link>http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/11/16/o-emprego-dos-meus-sonhos/</link>
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		<pubDate>Wed, 16 Nov 2011 12:28:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Não fazia o meu estilo o conceito “megastore”, criado para caracterizar a equação livraria + café + tecnologia em áudio e vídeo. Eu me contentava com as livrarias pequenas, que nada mais eram além desse espaço diminuto com paredes descascando em tons outrora vibrantes, livros com cheiro de mofo, dificuldade para caminhar – tudo isso [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3085&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Não fazia o meu estilo o conceito “<em>megastore</em>”, criado para caracterizar a equação livraria + café + tecnologia em áudio e vídeo. Eu me contentava com as livrarias pequenas, que nada mais eram além desse espaço diminuto com paredes descascando em tons outrora vibrantes, livros com cheiro de mofo, dificuldade para caminhar – tudo isso resultava no ambiente a aparência de meros sebos. Então essas livrarias acabaram, dando lugar exatamente àquilo que aparentavam, sobrevivendo da caridade de tradicionais e reclusos leitores, que gostam dos espaços menores e com menos gente.<br />
Mas enfim me rendi aos cafés. No térreo comprava um livro e subia a escada, sentava em alguma mesa (sempre ao canto) e escolhia no cardápio algum pedaço de torta só para não fazer feio (pois era o máximo que eu poderia comprar, sem o acompanhamento de um refrigerante). Isso se deu graças a <em>Saraiva</em> – que trouxera para o Brasil o conceito “<em>megastore</em>” e fez com que eu fosse testar o atendimento de todas as suas unidades da cidade em que moro.<br />
Essas “pesquisas” eram realizadas no primeiro sábado de cada mês. Quando comecei a ganhar o meu próprio dinheiro, preferi a <em>Saraiva</em> do <em>Shopping Barra</em>, de primeira. É uma livraria pequena e, por isso mesmo, aconchegante (semelhante ao clima dos sebos de que tanto gosto). Além disso, possui o melhor acervo de biografias que já vi. O pessoal do café sempre me dava sugestões detalhadas com relação ao <em>menu</em> e eu saía de lá satisfeita.<br />
Já a <em>Saraiva</em> do <em>Salvador Shopping</em> me surpreendeu negativamente. Apesar de combinar com o <em>design</em> do <em>shopping</em>, fugia um pouco do padrão da <em>Saraiva</em>. As paredes são brancas, existe pouco do amadeirado evidente e parece oferecer de tudo – exceto livros. Em compensação, o acervo de filmes e discos é maravilhoso, mas eu pretendia o que de mais rústico e familiar habita uma livraria e, por isso mesmo, confesso que migrava sem um pingo de vergonha na cara para a <em>Livraria Cultura</em>, no mesmo piso.<br />
A maioria dos meus amigos respondia vagamente que a <em>Saraiva</em> do <em>Shopping Iguatemi</em> é a melhor de todas. Duvidei. Na realidade, eu não gostava do shopping em si: extremamente fechado em seus múltiplos labirintos de ar-condicionado (me atrevo a dizer que Saramago deve ter se inspirado nesse sufocante local para compor a obra <em>A Caverna</em>). Há excesso de pessoas circulando e aquela humilhante divisão de todo <em>shopping center</em>: primeiro piso para a “classe C”, com suas lojas de departamento populares; segundo piso destinado à classe média; e terceiro piso com suas grifes, lojas de decoração e óculos de sol, clínicas, cinema, praça de alimentação. Não obstante, é lá que a <em>Saraiva</em> se encontra.<br />
Subo e desço uma escada fixa. Como todo mundo, entro no<em> shopping</em> pelo térreo (entende-se como “todo mundo que pega buzu e compra na<em> Riachuelo&#8221;</em>). Já no primeiro patamar o logotipo (e-nor-me) da <em>Saraiva Megastore</em> pode ser visto, acima da loja <em>Renner</em>. Cada vez que me aproximava, tomava consciência da grandiosidade do espaço (outrora <em>Siciliano</em>, onde os estudantes sentavam no chão como se não houvesse amanhã). Adentrando, vê-se livros por todos os lados e um crescente desejo revela-se inevitável: quero morar em uma livraria.<br />
Porque, se não fosse palpável, a <em>Saraiva</em> do Iguatemi simplesmente não existiria. Subindo a escada que dá para o interior da loja escolho o nome de qualquer um dos escritores no branco painel e preciso pensar rápido em uma obra de sua autoria. Aprendi a jogar dessa forma porque, todas as vezes que passava por aquele <em>shopping</em>, era sagrado comparecer à <em>Saraiva</em>, só para gastar a sola da sapatilha. Eu sabia o caminho de cor e salteado – mas me perdia nos corredores quando queria ir ao banheiro, por exemplo.<br />
Setores bem distribuídos com tudo em seu lugar. Não encontrei dificuldade nas estantes de literatura. Os vendedores carregavam livros diversos, com vendedores descendo e subindo escadas, repleto de exemplares nos braços ou em cestas, arrumando prateleiras, atendendo duas ou três pessoas ao mesmo tempo (sem contar o telefone). Parecia estressante, mas eles nunca perdiam a cordialidade e bom humor. Eu já via todo esse esforço desde os quinze anos de idade. E, mesmo assim, sempre tive certeza de que gostaria de trabalhar em uma livraria. Mas ali, naquela <em>Saraiva</em>, tive certeza absoluta: esse é o lugar.<br />
Com o tempo, essa livraria específica tornara-se uma fuga. Com o início das chuvas (e mesmo sem elas), deixei a confortante liberdade marítima para buscar respostas nos livros de lá. Sentava-me em qualquer lugar – às vezes no chão – e folheava um exemplar de Veríssimo, por exemplo. Ia para a livraria gastar metade do salário assim que recebia, ou quando brigava em casa com o meu pai (ou seja: sempre). Tomava contornos de Audrey Hepburn em <em>Bonequinha de Luxo</em> – a <em>Saraiva</em> é a minha <em>Tiffany’s</em>.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo." src="http://www.bridefinds.com/files/2011/03/Hepburn-breakfast-at-tiffanys.jpg" alt="Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo." width="454" height="358" /><br />
Sempre vou à noite, por volta das sete. Conheci alguns livreiros, pouco pedi auxílio deles (dava para ver como a galera andava ocupada e como tinha gente desocupada e com preguiça de procurar livros). Um dia, decidi incomodá-los perguntando como eu poderia “fazer parte desse time”. Bastava entregar meu currículo no balcão de serviços e aguardar.<br />
Eu não admitia que fosse tão simples. As pessoas que trabalham na <em>Saraiva</em> sempre me pareceram tão diferentes e cultas que só podiam ser, no mínimo, estudantes de Letras, Cinema, afins. Na minha concepção, para entrar lá era necessária uma carta de recomendação dos professores e, mesmo assim, o futuro vendedor estaria sujeito a uma redação de (no mínimo) trinta linhas, bem caprichada (e sob o novo acordo ortográfico, claro) sobre o motivo de estar recorrendo à vaga. Colocar currículo? Isso era fácil demais.<br />
Mas fiz isso, alguns meses atrás (e duas vezes). Também, sem esperança alguma. Duvidava que fosse chamada. Duvidava que o “boa sorte” da mocinha do balcão fosse sincero. Acreditava que ela rasgaria meu currículo assim que eu lhe desse as costas.Uma semana após o ocorrido, comecei a trabalhar em outro local, e o máximo de <em>Saraiva</em> perto de mim era a editora, no meio do caminho, fazendo com que eu saltasse do ônibus muito antes do meu ponto, só para ter o gostinho feliz e momentâneo de estar perto do que eu imaginava ser o emprego dos meus sonhos.<br />
Mas o dia da seleção aconteceu. Éramos quase (quase?) vinte jovens desconhecidos em uma sala semi-escura planejada para palestras e exibições cinematográficas, aguardando, em silêncio.<br />
O Gerente Sênior e mais duas moças atravessaram a sala e apresentaram-se. Propuseram a dinâmica de formarmos duplas para que, com informações obtidas em cerca de cinco minutos, pudéssemos apresentar nosso parceiro(a) resumidamente. Ao meu lado estava uma menina de dezoito que pretendia fazer moda e era argentina radicada no Brasil há sete anos. Logo perguntei se ela já havia lido sua conterrânea, Pola Oloixarac, cuja excelente obra de estréia causara alvoroço no mundo inteiro. Gostava de <em>best-sellers</em> estilo <em>A Cabana</em> e <em>A Menina que Roubava Livros</em>, além de auto-ajuda. Porém, assim como eu, detesta “livros de vampiro” (que já se tornou, deliberadamente, uma categoria à parte).<br />
Quando a dinâmica começou, conhecemos um pouco do que cada tímido rosto apresentava. Antes de entrarmos naquela sala, caminhávamos solitários e anônimos na livraria, cada qual olhando para o alto, enquanto eu tocava em meus livros prediletos, pedindo aos autores bênção e sorte.<br />
Nesta seleção havia gente que sacava tudo de tecnologia, outro que entendia de música e muitos que apenas gostavam de ler. Percebi que “gostar de ler” era pouco para quem avaliava. Imaginei que eles deviam ouvir isso de todos os jovens que avaliavam, fora que as pessoas certamente paravam o Gerente na livraria, dizendo: “eu gosto de ler, posso trabalhar aqui, tio?”. Não. Eu era uma reles candidata, formada apenas em um colegial integrado com técnico em Informática (o que, francamente, não significa muito). Então, quando chegou a minha vez, precisei demonstrar que minha literatura vai além da apreciação: está em mim desde o berço, fora o fato de que eu SEI o que estou lendo.<br />
Quando perguntada, citei alguns dos meus autores prediletos: Nabokov, Saramago, Drummond, Benedetti, de Assis&#8230; Assumi meu desgosto pela saga <em>Crepúsculo</em> (porque gostar de literatura também significa imprimir personalidade). O Gerente Sênior pediu que eu sugerisse um livro para uma das candidatas que está lendo (e gostando) da obra de Meyer. Reparando que o forte dela são os “romances impossíveis”, indiquei-lhe <em>Todos os Nomes</em>, de Saramago, que traz a história de um Sr. José, escriturário da Conservatória Geral do Registro Civil de Portugal que, no intuito de ampliar sua coleção de personalidades famosas daquele país, ao furtar mais uma certidão depara-se com a de um a mulher desconhecida que, por engano, veio junto. Então ele persegue essa mulher até se deparar com um desfecho surpreendente, mas para sabê-lo, só lendo o livro. O Gerente Sênior então perguntou: “tem aqui?”, todos riram enquanto eu respondia que sim, chegando a indicar estante e prateleira, até porque, havia comprado lá mesmo.<br />
Nas considerações finais, atrevi-me a divulgar o endereço deste<em> blog</em> e também o da <a href="http://manualpraticodebonsmodosemlivrarias.blogspot.com/">Hillé</a> (a “bíblia” dos livreiros). Revelei que anseio tornar-me escritora (só disse isso porque uma outra candidata também o fez) e todo mundo acrescentou alguma coisa. O Gerente Sênior (um misto de educação e descontração – sempre fazendo-nos rir) agradeceu e disse que, em breve, entraria em contato conosco. Levantei, agradeci-lhe a oportunidade e tomei o rumo de casa, confiante.<br />
Eu mal havia colocado os pés no patamar da escada de minha casa. Estava tentando convencer a minha mãe dos inúmeros benefícios da <em>Saraiva</em> quando, de repente, o meu celular toca. Identifiquei logo o número: era da livraria (ai meu Deus, ai meu Deus).<br />
Era o Gerente Sênior (ele mesmo). “Não esperava que eu ligasse tão rápido, né?”, não, eu não esperava sequer que eles ligassem. Precisei conter o tamanho da minha emoção. Ele disse que gostou muito do meu perfil, porque eu sou “a cara da empresa” e tinha uma proposta para me fazer. Queria que eu comparecesse no dia seguinte. Precisei revelar que trabalho, que ficaria difícil sair dois dias seguidos e sugeri que fosse falar-lhe dali a uma hora. Ele concordou.<br />
Troquei de blusa e corri para o ponto de ônibus. Conheço Salvador e já eram quase seis. Sabia do engarrafamento. Mas fui. Quem muito quer, acaba conseguindo, de alguma forma. E eu sentia ser aquela uma grande oportunidade.<br />
Cheguei e falei rápido com uma livreira conhecida, que me desejou boa sorte. O Gerente Sênior logo veio ao meu encontro e pediu que eu fizesse uma avaliação antes de conversarmos. Fiz a tal prova na mesma sala da seleção, dessa vez vazia. Vez ou outra chegava alguém para perguntar se ali seria realizada alguma palestra, e pedi que fossem se informar no mesmo balcão de serviços onde, meses antes, entreguei meu currículo (mais tarde fiquei sabendo que divulgaram o evento na <em>Saraiva</em> errada, mas tudo bem). Feita a prova, fui conversar com o Gerente sobre sua proposta.<br />
Fiz seleção para vagas temporárias. Trabalharia oito horas por dia, durante três meses apenas. A proposta dele era que eu já entrasse como efetiva (!), tendo a carga horária de seis horas. Aceitei, óbvio. Recebi uma lista de documentos que precisaria entregar (já sabendo da confusão que isso provavelmente geraria em meu atual emprego) e o aviso de que receberia uma ligação, no dia seguinte, confirmando hora e local de meu exame para admissão.<br />
Comuniquei minha demissão em meu trabalho, mas sugeri permanecer até que encontrassem outra pessoa para ocupar o meu lugar. Venho para o meu “antigo emprego” às sete da manhã para sair duas da tarde. O que em nada interfere no meu “atual emprego”, que vai das quatro da tarde às dez da noite.<br />
No sábado posterior, dia do exame (pergunta e resposta) para admissão, decidi tirar “meu último dia de férias” na <em>Saraiva</em>, para que o trabalho pesado começasse. Peguei um livro, li até a metade, conversei com o Gerente Sênior e com a Vendedora Talento (que também fez a seleção) super gente fina, que dissera que a escolha pela minha pessoa havia sido unânime e para o setor correto: literatura.<br />
Sonhava trabalhar em uma livraria desde os quinze anos. Tenho quase vinte e o emprego dos meus sonhos. Trabalhar com livros, para quê melhor? Mais uma vez o destino mostra que o meu futuro está na literatura. E não há como fugir disso.</p>
<br />Filed under: <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/cronicas/'>Crônicas</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3085/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3085&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sem ti, me consumiria</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Nov 2011 13:13:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Discutindo Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Chico Buarque de Hollanda aparecera em minha vida, se não me engano, muito antes do Caetano. Entretanto, eu não esboçava reação alguma de maneira positiva quanto à presença desses dois nas estações de rádio. O rádio, em si, sempre estivera presente em minha infância, dado o fato de que não tínhamos aparelho de som em [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3068&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Chico Buarque de Hollanda aparecera em minha vida, se não me engano, muito antes do Caetano. Entretanto, eu não esboçava reação alguma de maneira positiva quanto à presença desses dois nas estações de rádio. O rádio, em si, sempre estivera presente em minha infância, dado o fato de que não tínhamos aparelho de som em casa, que reproduzisse <em>CD’s</em>. Haviam, entretanto, duas vitrolas. Nessas, porém, exaltavam-se tangos argentinos, dos mais antigos, que minha avó e meu pai adoravam escutar – cujos trechos me vêm à cabeça de quando em vez, cujas vozes, entretanto, nunca soube distinguir.<br />
Então eu desprezava Chico, Caetano e toda uma áurea “bossa-novística” daquela época. Sim, o Caetano já fazia bossa-nova. Só gostava do Toquinho: ainda assim, para ouvi-lo numa <em>Tarde em Itapuã</em>, ou, quem sabe, desenhando-me uma <em>Aquarela</em>. Havia muito do <em>pop</em> dos anos 80/90 naquelas estações especializadas em músicas nacionais e, nesse sentido, eu apreciava bastante <em>Kid Abelha</em>, Marina Lima e <em>Engenheiros do Havaí</em> (por incrível que pareça).<br />
O Caetano reapareceu em minha vida através de um disco estilo “<em>the best of</em>”, que minha mãe comprara na <em>Lojas Americanas</em>, quando também aparecera em casa nosso primeiro aparelho de som que reproduzia <em>CD</em>. As mesmas canções do rádio, com exceção de uma surpresa: <em>Tigresa</em>. Aquela, de “unhas negras e íris cor-de-mel”, que minha avó me cantava, quando eu era muito menina.<br />
Quando entrei na escola de música e comecei meus estudos em flauta transversal, abandonei a programação da <em>MTV</em> e dediquei-me a ouvir de tudo um pouco que minha mãe guardava em casa. Amei Raul Seixas, Gal Costa, Alceu Valença, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Gonzaguinha e mais alguns – mas foram amores passageiros. Insisti para que comprasse mais discos do Caetano – e realmente precisei insistir bastante – até que ela cedera e me presenteara com outros dois: um também estilo “<em>the best of</em>”, com a diferença de que <em>Alegria, Alegria</em> viera de acréscimo (pois ela adorava a música) e o <em>Prenda Minha</em>, álbum ao vivo, muito belo, cujas canções partiam principalmente do anterior, <em>Livros</em>.<br />
À medida que eu ia gostando cada vez mais do Caetano, crescia juntamente minha vontade de conhecê-lo melhor. Poucas pessoas sabem, a maioria me teve como uma “criança <em>pop</em>”, mas quase toda a minha adolescência teve o Caetano como trilha sonora, música de fundo, para todas as horas, pelo menos do término de meu ginásio até o penúltimo ano de meu colegial. No início desse namoro, lembro-me bem, pensava que era eu a “menina terra”, por quem o Caetano assumiria estar apaixonado: “signo de elemento terra”, por toda uma questão astrológica (ser taurina, com ascendente em escorpião); “do mar se diz: terra à vista / outros astros lhe são guia”.<br />
<img class="alignleft" title="Verdade Tropical, de Caetano Veloso, pela Companhia das Letras." src="http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&amp;f=147833697_1863.jpg&amp;v=E" alt="Verdade Tropical, de Caetano Veloso, pela Companhia das Letras." width="227" height="227" />Em 1997, Caetano escrevera um livro. <em>Verdade Tropical</em>, publicado pela <em>Companhia das Letras</em>, tornou-se, para mim, uma busca implacável. No ano de seu lançamento, eu era criança, de modo que o mano Caetano não fedia, nem cheirava. Durante três anos, passei a me interessar verdadeiramente pelo livro, em se tratando das opiniões polêmicas do cantor e compositor – seu modo de pensar, suas canções, sua vivência à frente do nosso próprio tempo e também o trecho sobre Gilberto Gil que fora retirado do livro e declamado por seu autor na gravação do <em>DVD</em> de <em>Prenda Minha</em>: “Caetano, venha ver o preto de quem você gosta”, dizia sua mãe, sorrindo ternamente como ela fazia. Era entrar em uma livraria e perguntar pelo título. “Esgotado” – era a resposta de todos os livreiros. Não havia mais reimpressões além da segunda, e senti que o <em>Verdade Tropical</em>, seria, para mim, <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/09/21/procuro-procuro-dolores-haze/">o equivalente a <em>Lolita</em>, de Vladimir Nabokov</a>: eu procuraria o Caetano, diversas vezes, em sebos, <em>sites</em> especializados, afins. Encontrei-o, certa vez, no <a href="http://www.estantevirtual.com.br/"><em>Estante Virtual</em></a>. Entretanto, estava bem além do que eu poderia pagar. E, pelo absurdo do preço, percebi que se tratava realmente de uma espécie de “livro raro” (mais tarde, vim a descobrir que a <em>Companhia</em> relançara-o em versão <em>pocket</em>).<br />
Ano passado, planejei com um amigo nossa ida para uma entrevista/<em>pocket show</em> que o Caetano faria no Teatro Castro Alves – recebendo questionamentos de fãs e atendendo seus pedidos para as canções. Esse planejamento já decorria em um ano: encontrava meu amigo na escola, discutíamos sobre a melhor composição, ouvíamos o novo disco (diversas vezes e não necessariamente nessa ordem). No dia de comprar os ingressos (a preços excelentes, aliás), os mesmos esgotaram-se em uma hora – e olha que chegáramos cedo. Para esse tipo de evento, na maioria das vezes, são distribuídas cortesias para “personalidades baianas” e os jornalistas desocupadamente culturais. Chorei de raiva. Já havia perdido os <em>shows</em> de suas turnês <em>Cê</em> e <em>Zii &amp; Zie</em> (ou “Caetano fazendo <em>rock</em>”), por conta de meu problema de saúde que assustava a minha mãe que, consequentemente, não pretendia me ver dançando, pulando e gritando na frente do palco, sendo empurrada por uma platéia enfurecidamente excitada. E ela tinha razão.<br />
O tempo passou, desinteressei-me um pouco do Caetano para amar Chico Buarque. Porque eu gosto do Caê pela razão filosófica de suas canções – ele me faz pensar. Mas o Chico me ensinou a sentir – sentir amor em cada letra, chorar, sorrir, cantar e me encantar por aquele par de olhos cor de ardósia. Ah! O Chico é outra coisa, talvez completamente diverso do Caetano, e estou em uma fase da qual preciso romancear com minha solidão, pois é minha companhia única desde sempre. Com Caetano, queria mudar o mundo, gritar e pintar meu rosto de verde e amarelo, queria ser Brasil com todas as forças, mas envelheci rápido e zombo de “quando eu era jovem” – aqueles treze, catorze anos&#8230;<br />
Recentemente, entretanto, notando uma certa mudança nas estantes da biblioteca próxima à minha casa, precisei perguntar:<br />
- Por acaso alteraram a ordem dos livros?<br />
- Sim. Ordens superiores. Até nós, bibliotecárias, estamos confusas.<br />
De modo que não encontrei o Marcelo Rubens Paiva, com suas obras em novas edições, pela <em>Objetiva</em>, que prometi ler. Então, fui tomada por impulso a caminhar para as biografias – que permaneciam intactas – e lá estava minha surpresa – o grosso volume de mais de 500 páginas do livro pelo qual eu tanto ansiara: <em>Verdade Tropical</em>, digno, diante de mim, assim, tão fácil – só porque eu havia desistido de procurar.<br />
Sondando a bibliotecária, percebi a etiqueta nova no canto inferior esquerdo – sinal de que chegara a pouquíssimo tempo. Também seria a primeira a desfrutá-lo, a perceber-lhe as páginas já amareladas, letras miúdas, enfim. Lembro de uma entrevista que o Caetano concedera ao Jô Soares, na qual ele narrava o processo do livro, dizendo que sempre havia feito música sem que ninguém tivesse dito coisa alguma – nenhum palpite sequer. Então, quando escrevera o livro, o editor foi cortando e cortando diversos trechos, metendo o bedelho. Confessara ainda que escrevera boa parte dele no meio de uma turnê – na qual fazia diversas viagens. Escrevia tudo no <em>notebook</em> e acabara perdendo aquele início. Sobreveio o Chico: “ele leva a sério, faz <em>backup</em> de tudo”. Jô Soares também: sempre imprime várias cópias, deixa salvos os capítulos em diferentes modos de arquivamento. Caetano, no entanto, não gostava de ter compromisso com a escrita. Somos dois.<br />
<em>Verdade Tropical</em> é uma “quase-autobiografia” de um artista que soube se reinventar e que acompanhou o Brasil em suas diferentes e mais importantes fases históricas de meados do século passado. Passa pelo irreverente tropicalismo – toma-o, em verdade, como suporte. Vem o exílio, “as tais fotografias” do planeta Terra (“em que apareces inteira, porém lá não estavas nua, e sim coberta de nuvens”) publicadas em uma revista internacional, que ele visualizou em plena ditadura, que originaram uma de suas mais belas composições; até 97, para o período em que ele escreve o livro.<br />
Tomo esta obra-prima da música popular brasileira e da história de nosso país quase quinze anos após a sua publicação. Por sorte, o extenso livro também traz um capítulo inteiro dedicado a Chico Buarque – que já li com afinco. Retomo as canções do Caetano, para fundo e referência. Capítulos como títulos de música, canções inspiradoras. Recomendo – não pela minha paixão evidente, mas simplesmente por ser um desses livros que deveriam estar nas bibliotecas escolares, desses que necessitariam de estudos e interpretação mais aprofundada nas aulas de História. O Caetano é meio barroco (e sem ele, eu me consumiria – a mim mesma, eternamente – e de nada valeria), incorpora texto dentro de texto, algo visível em suas crônicas, semanalmente reproduzidas em jornais de todo o país. Mete o bedelho onde não costuma ser chamado, mantém confuso o leitor, mas a graça reside aí: nessa interação enigmática que é puro e todo Caetano Veloso, provavelmente, juntamente com Saramago, um dos filósofos de nosso tempo.</p>
<br />Filed under: <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/cronicas/'>Crônicas</a>, <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/discutindo-literatura/'>Discutindo Literatura</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sobrefatalismos.wordpress.com/3068/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3068&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Nina Vieira</media:title>
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			<media:title type="html">Verdade Tropical, de Caetano Veloso, pela Companhia das Letras.</media:title>
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		<title>Que tipo de mulher você pensa que eu sou?</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Oct 2011 12:08:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Citações]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[“Nos seus acessos de misoginia o médico costumava classificar as mulheres consoante o tabaco que usavam: a raça Marlboro-sem-ser-de-contrabando lia Gore Vidal, passava o verão em Ibiza, achava Giscard d’Estaing e o príncipe Filipe muito pêssegos e a inteligência uma maçada esquisita; o tipo Marlboro-de-contrabando interessava-se por design, bridge e Agatha Christie (em inglês), freqüentava [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=2852&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p style="text-align:justify;">“Nos seus acessos de misoginia o médico costumava classificar as mulheres consoante o tabaco que usavam: a raça Marlboro-sem-ser-de-contrabando lia Gore Vidal, passava o verão em Ibiza, achava Giscard d’Estaing e o príncipe Filipe muito pêssegos e a inteligência uma maçada esquisita; o tipo Marlboro-de-contrabando interessava-se por <em>design</em>, <em>bridge</em> e Agatha Christie (em inglês), freqüentava a piscina do Muxaxo e considerava a cultura um fenómeno vagamente divertido quando acompanhado do amor do golfe; o gênero SG-Gigante apreciava Jean Fernat, Truffaut e o <em>Nouvel Observateur</em>, votava socialista e mantinha com os homens relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas; a classe SG-Filtro tinha o <em>pôster</em> de Che Guevara na parede do quarto, nutria-se espiritualmente de Reich e de revistas de decoração, não conseguia dormir sem comprimidos e acampava aos fins-de-semana na lagoa de Albufeira conspirando acerca da criação de um núcleo de estudos marxistas; o estilo Português-Suave não se pintava, cortava as unhas rentes, estudava Anti-Psiquiatria e agonizava de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios, de camisa da Nazaré desabotoada e noções sociais peremptórias e esquemáticas.”<br />
:: Do livro <em>Memória de Elefante</em>, de António Lobo Antunes.</p>
</blockquote>
<p style="text-align:justify;">Eu sou do tipo que não fuma. Que adora o aroma de cigarros de cereja, mas não tolera qualquer outro tipo ao redor. Freqüento cafeterias, detesto café. Gosto de Truffaut, <em>design</em>, afins. Não permito mais do que dez pastas em um <em>pen-drive</em> de quatro gigas, detesto quem escreve “pra” em lugar de “para”. Morro de frio com qualquer vento, visto trinta e seis, não uso salto superior a três centímetros. Prefiro que dividam a conta comigo, pois tenho com os homens relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas. Voto socialista, no primeiro turno. Abomino <em>best-sellers</em> com continuações (ou seja, todos), detesto sucessos cinematográficos recentes. Desce em meu conceito quem se atrasa. Não tenho o hábito de fazê-lo, mas aprecio pessoas que tiram os sapatos à entrada da casa de outrem. Tenho joanetes, em ambos os pés. Admiro homens com barba mal feita, por volta dos trinta anos. Adoro jovens estudantes de Humanas com cabelos cacheados, mas detesto seu absolutismo quanto a estereótipos (“ou somos burgueses ou somos comunistas”, um saco). Converso com desconhecidos idosos em praças públicas, daqueles que costumam repetir infinitamente a mesma história, para que possamos ouvir-lhe com ar de novidade. Gosto de olhares cínicos e pouco confiáveis – eles sempre são o oposto disso. Aprecio aquele que saúda quem vê pela frente, sem preconceito ou falta de vontade. Detesto vegetarianos ou qualquer membro da “geração saúde” que ousa tentar me influenciar. Leio Agatha Christie, nas férias ou durante as viagens de férias. Não consigo dormir sem comprimidos – sofro de insônia. Guardo notas fiscais, panfletos de exposição, selos ou qualquer outro “documento” que me recorde momentos felizes. Leio jornais à noite: gosto dos quadrinhos, não confio em seu horóscopo, vejo a programação dos poucos eventos em minha cidade e ponho-os no chão para que minha gata possa dormir. Uso camisetas pretas e masculinas de bandas de <em>rock</em> farofa dos anos 80. Detesto maquiagem nos olhos, causam-me alergia. Corto as unhas rentes – do pé. Rôo as das mãos (hábito péssimo). Leio biografias de pessoas que desconheço. Ouço rádio nas madrugadas freqüentes em que não consigo dormir. Não me apaixono fácil (não mais), e estou tentando quebrar essa barreira divisória entre mim e aquele ingênuo que se interessa. Agonizo de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios (oi Chico Buarque), condenando o estilo musical dos outros. Eu sou do tipo que não fuma, já disse, apaga isso. Se continuar, vou embora. Você não entende que essa é uma maneira fácil de distanciar de mim. Fique aqui, não levante, deixa que eu pego um táxi, você está bêbado, vou pedir a conta.</p>
<br />Filed under: <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/citacoes/'>Citações</a>, <a href='http://sobrefatalismos.wordpress.com/category/cronicas/'>Crônicas</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sobrefatalismos.wordpress.com/2852/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=2852&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Nina Vieira</media:title>
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		<title>Charme do mundo</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Oct 2011 12:19:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Até hoje considero inadequada a voz da Marina Lima, apesar dela ter estado tão presente em minha infância, quando o rádio permanecia ligado na cozinha. Sua rouquidão e agressividade atravessando o pop exagerado da década de 80 não me atraíam de forma alguma. Mas essa repulsa era facilmente dissipada com as letras das canções às [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3053&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><img class="aligncenter" title="Marina Lima, cantora." src="http://www.dicasdiarias.com/wp-content/uploads/2011/07/Show-marina-lima-sp.jpg" alt="Marina Lima, cantora." width="480" height="360" /></p>
<p style="text-align:justify;">Até hoje considero inadequada a voz da Marina Lima, apesar dela ter estado tão presente em minha infância, quando o rádio permanecia ligado na cozinha. Sua rouquidão e agressividade atravessando o <em>pop</em> exagerado da década de 80 não me atraíam de forma alguma. Mas essa repulsa era facilmente dissipada com as letras das canções às quais ela submetia uma resistente interpretação. Devo ter lido em alguma imitação da <em>Rolling Stones</em> que o seu irmão compusera as letras mais representativas de sua carreira. Classifiquei <em>Não Sei Dançar</em> como uma de minhas prediletas e segui o meu caminho contra o vento, sem lenço e sem documento, rumo à discografia do Caetano. E então Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector adentraram o meu literário espaço geográfico.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="Clarice Lispector, escritora." src="http://tadzio69.blog.terra.com.br/files/2010/05/aclacla.jpg" alt="Clarice Lispector, escritora." width="499" height="243" /><br />
Eu tenho febre. Eu sei. Acreditei que, assim que estivesse diante de mim a sorte de ler Abreu e Lispector, ficaria imediatamente fascinada e essa extensão de encantamento seguiria até o fim de minha adolescência. Ledo engano. Primeiramente pelo erro crasso de ter iniciado Lispector com <em>A Paixão Segundo G. H.</em> – sua obra de maior complexidade. Abandonei a leitura na segunda ou terceira página, mas não o fiz em relação à sua autora. E então viera <em>Uma Aprendizagem Ou O Livro dos Prazeres</em> – um de meus romances nacionais prediletos, pelo simples fato de apresentar um personagem utópico e belíssimo: Ulisses, que contrapõe a personalidade errante de sua companheira meio beauvoriana. Depois caíra em minhas mãos um exemplar das correspondências entre Clarice e Fernando Sabino (este último, sendo representado como “o autor de minha infância”, ao lado de Saint-Exupéry, é claro) e terminou aí o “meu lance” com a nossa mais importante autora brasileira, apesar de ucraniana. Com Caio Fernando Abreu, não poderia ter sido diferente: li a sua primeira publicação, o <em>Inventário do Ir-Remediável</em> (que também serve de denominação para <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/inventario-do-ir-remediavel/">uma das seções deste <em>blog</em></a>) e uma insignificante seleção de contos de uma também insignificante editora.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="Caio Fernando Abreu, escritor." src="http://www.juonline.com.br/arquivos/noticia/thumb_400_caio_fernando_abreu_gr.jpg" alt="Caio Fernando Abreu, escritor." width="400" height="196" /><br />
Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector deveriam estar de acordo com a minha idade. Sobretudo porque são autores para serem lidos nas desenfreadoras dificuldades que enfrentamos aos quinze anos (sim, refiro-me ao amor primeiro). Porém, talvez pela complexidade lingüística um tanto quanto interiorizada no sentimento humano de entender a si próprio (e não ao mundo), talvez eu caísse em uma espécie de “overdose existencialista” se adentrasse mais na perspectiva desses dois. Fato é que gosto deles na mesma proporção com a qual ouço Marina Lima, pois o meu distanciamento é nítido. Gosto das frases aleatórias e, se Lispector ou Abreu caírem em minhas mãos, ao acaso, serei capaz de lê-los com o mesmo vigor ao qual me dedico aos meus atuais prediletos desde aqueles remotos tempos: Saramago, Nabokov e Benedetti.<br />
Eu mesma considero surpreendente que tenha lido apenas dois livros de cada autor e que tenha desistido de um exemplar de Clarice. Isso contraria a ordem natural do ciberespaço: quase todos os blogueiros rasgam-se de emoção ao citarem esses dois como influência. E considero ainda mais estranhamente engraçado que muitos de vocês cheguem aqui e me comparem, de cara, com a literatura de Lispector. Fico pasma, gente. Mas, nesse ponto, é provável que eu tenha sorte: porque talvez, para escrever como Lispector, o melhor atributo é não especializar-se em sua literatura, assim como ela costumava dizer algo como “eu tenho medo de ser eu”, acho que também tenho medo de não sê-la.<br />
O mercado editorial está aí também para encontrar a nova Clarice. Se eu tiver sorte, talvez eles me encontrem, apontem e decidam publicar as bobagens aqui estampadas. E tudo isso, naturalmente, depende de minha plena passividade em não procurar um futuro para os meus textos. Mas penso que essas comparações são absurdas, principalmente para mim – que declino desses elogios e procuro um estilo próprio. De antemão, descarto os efeitos cinematográficos nabokovianos – apesar de amá-los. É certo que eu gostaria de escrever como Saramago, mas essa é uma difícil missão que resultaria numa imitação clara e prenúncio de fracasso, tendo em vista que Saramago fora único. No livro que estou lendo, <em>Verdade Tropical</em>, de Caetano Veloso, ele escreve que um amigo lhe dissera a regra número um para quem decide ser escritor: não imitar Proust. Caetano, na época que ouvira aquele mandamento, ainda não havia lido o famoso autor francês e, quando o fez, julgou impossível que alguém tivesse a capacidade de imitá-lo. Do lado de cá, embora anseie bastante pela ocasião, ainda não li Proust. Por sorte.<br />
<img class="alignleft" title="Tristessa, livro de Jack Kerouac pela L&amp;PM Pocket." src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/03/Tristessa.Jack_.Kerouac.jpg" alt="Tristessa, livro de Jack Kerouac pela L&amp;PM Pocket." width="160" height="263" />Acho que o mundo faz charme. E que ele sabe como encantar. Em meus quinze anos, devorei clássicos da literatura universal, uma ou outra antologia de Drummond e continuei amando Rubem Braga – meu cronista predileto com o qual pretenderia me casar, se ainda entre nós estivesse. E queria as leituras de todo mundo: George Orwell, Jorge Luís Borges, Jack Kerouac. Aliás, meu relacionamento com Kerouac é de uma doce ambigüidade. Tenho preconceito em adquirir livros finos – desses com menos de cento e cinqüenta páginas. Simplesmente não os compro, mas pode ocorrer a sorte de encontrá-los em alguma biblioteca (e assim li <em>A Metamorfose</em>, de Kafka; e <em>Romeu &amp; Julieta</em>, de Shakespeare). Entretanto, <em>Tristessa</em> sempre estivera ali, no mesmo lugar, na estante dos <em>pocket books</em> da <em>L&amp;PM</em> enquanto eu pegava a fila do mercado. E, apesar do preço em conta, havia um desinteresse enorme de minha parte em levar um exemplar daquela espessura, mesmo acreditando na literatura de seu autor e por esse título tão sugestivo (fora a veracidade que inspirou a obra) que, com toda a certeza do mundo, guardava uma história muito interessante. Quando decidi comprar <em>Tristessa</em>, ia sempre ao mercado e, vendo-a, lembrava-me do fato de que esquecia de levar dinheiro suficiente. Era sempre assim. Em contrapartida, também tenho preconceito com <em>pocket books</em> de muitas páginas (mais de duzentas e cinqüenta, por exemplo), de brancura excessiva e letras cuja fonte é especificamente 10. Infelizmente, a <em>L&amp;PM</em> peca para este lado (apesar dos títulos ótimos a preços acessíveis) e assim também recusei <em>On The Road</em> (devo ter lido mais da metade e só), do mesmo autor, tipo de leitura obrigatória entre os jovens com os quais circulo.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="Jack Kerouac, escritor." src="http://verybadfrog.com/wp-content/uploads/2010/01/Jack-Kerouac-1922-1969.jpg" alt="Jack Kerouac, escritor." width="500" height="341" /><br />
O inevitável veio quando o “meu namorado” (ainda é estranho, ainda é muito estranho&#8230;) perguntou-me se eu havia lido algum Kerouac. Respondi-lhe que não, mas também afirmei meu pleno interesse em <em>Tristessa</em>, desde sempre. Foi muita sorte: ele adora esse romance e emprestou-me no dia posterior ao que eu tomei vergonha na cara e percebi que havia dinheiro sobrando na carteira. Então entrei no mercado, peguei o meu exemplar e passei-o no caixa, sem mais demora.<br />
Eu gosto de romances possíveis. <em>Tristessa</em>, em suma, é inspirado em fatos reais. Histórias de humanos com seres de outros planetas e/ou mundos fantásticos não me atraem. Isso explica, por exemplo, minha paixão pelas obras de Mario Benedetti e Machado de Assis: apesar de seus finais infelizes, quase sempre condensados com a morte, é viável que eu me coloque no lugar da personagem e caminhe livremente por sua intensidade. Por isso <em>A Trégua</em> e <em>Memorial de Aires</em> são tão significativos, enquanto os <em>best-sellers</em> de minha geração não me causam torpor, não me fazem sentido.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="José Saramago, escritor, ao lado de sua esposa, a jornalista Pilar Del Río." src="http://www.nosrevista.com.br/wp-content/uploads/2010/06/JoseSaramago3.SebastiaoSalgado.jpg" alt="José Saramago, escritor, ao lado de sua esposa, a jornalista Pilar Del Río." width="502" height="377" /><br />
Acredito que os melhores escritores são lusitanos e latino-americanos. Tinha tudo para desprezar Saramago, se quisesse. Sobretudo por aquela escrita complicada, diálogos intermináveis e desobedientes. Mas me encantam suas personagens femininas: mulheres fortes que encaram as dificuldades de frente – tudo o que Simone de Beauvoir quis ser – um pouco mescladas pela particular figura de sua esposa, Pilar. As personagens saramaguianas são extremamente espanholas, de lábios carnudos e muito a dizer. Exceto uma, minha predileta: meio afrancesada, existencialista, filosófica (também aparentemente frágil). Trata-se da “rapariga dos óculos escuros”, assim identificada em <em>Ensaio Sobre a Cegueira</em>, que lança sobre nós a profunda e clássica frase da mais importante obra de Saramago: “dentro de nós há uma coisa, esta coisa é o que somos”. Essa mulher é uma jovem prostituta, meio estrábica (o que lhe confere “um quê” de russa, <a href="http://www.nuevorden.net/po_10.html">meio Nina Lugovskaia</a>). Poderia ser uma personagem nabokoviana, espécie de Lolita crescida, desacreditada, desesperançada. Mas talvez seja como a personagem-título de Kerouac. Com certeza é assim.<br />
<img class="alignright" title="A Instrução dos Amantes, livro de Inês Pedrosa." src="http://sobrefatalismos.files.wordpress.com/2011/10/pedrosa.jpg?w=176&#038;h=256" alt="A Instrução dos Amantes, livro de Inês Pedrosa." width="176" height="256" />Inês Pedrosa, outra escritora vinda de Portugal, cai como uma luva e um presente para todas as idades. Em matéria de delicadeza, não existe narrativa mais ímpar, densa e repleta de sentimentalidade (e combina com alguns dos versos de Adélia Prado). Pode-se ler a profundidade de <em>Fazes-me Falta</em> aos dezesseis anos para sentir-se saudosista diante d’<em>A Instrução dos Amantes</em>. Este último narra a história de uma turma carregada de conflitos após o suicídio de uma garota do bairro. A compreensão da vida é tão nitidamente intensa e os sentimentos tão precoces, que toda a minha adolescência parece estar ali – principalmente quando a luta entre vida e morte está mais enraizada dentro de nós mesmos.<br />
É um fogo leve que eu peguei do mar – ou de amar – não sei. Mas deve ser da idade. À exceção de poemas aleatórios encontrados em livros didáticos e cadernos de colegiais, a verdade é que nunca li uma obra completa de Fernando Pessoa. Não é tão surpreendente quanto minha ignorância perante Lispector, mas é certo que adoro o mar – meu principal refúgio – e deveria ser uma obrigação de minha parte adentrar o universo de quem melhor narrou o movimento das ondas. Mas, para isso, tenho Drummond (meu amante), esse mineiro arredio que demorou, mas se entregou ao balanço sonoro da maresia.</p>
<p style="text-align:justify;"> <img class="aligncenter" title="Carlos Drummond de Andrade, poeta." src="http://clotildetavares.files.wordpress.com/2009/10/08041601_blog-uncovering-org_drummond.jpg?w=486&#038;h=308" alt="Carlos Drummond de Andrade, poeta." width="486" height="308" /></p>
<p style="text-align:justify;">Amo o mar que Drummond avista, sobretudo porque mantenho o mesmo distanciamento de mera observadora com relação ao meu infinito. E me sinto pequena diante dessa magnitude que não ficara opaca através dos tempos. O mar é tema corrente na literatura – e ainda desperta as mais variadas emoções.<br />
Por isso, sou levada. E vou nessa magia, de verdade. Não sei precisar exatamente aquilo que molda as influências literárias. Trata-se de uma extensão grandiosa para ser resumida. Não sei como podem me julgar tão parecida com uma escritora que desconheço quase plenamente. Não sei se irei me apaixonar, com um arrebatamento incomum, um certo Fernando Abreu – que também é Caio. Às vezes converso aleatoriamente sobre Saramago com “o namorado” que agüenta essas minhas divagações. Mas ele diz achar bonita essa minha paixão pelo escritor. E contei-lhe de quando soube de sua morte, do tanto que chorei pelo falecimento do amigo que não tive. O “meu namorado” (já falei do quanto é estranho assumir que tenho um namorado?) é espírita: do mal da perda acredito que ele não sofra, por obter um entendimento acima do meu na questão da morte. Isso é muito bom, porque sei que vou embora antes dele. Assim, não terei muito da preocupação que Saramago demonstrara em seu documentário, ao apresentar o esconderijo no qual deveriam ser guardadas as suas cinzas. E então ele afirma não ter medo da morte, mas temer por Pilar, em como ela ficaria depois que ele fosse embora. De certa forma, o autor premeditava a crônica de uma morte anunciada.</p>
<p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter" title="Pilar Del Río, jornalista e viúva de José Saramago." src="http://sobrefatalismos.files.wordpress.com/2011/10/pilardelrio.jpg?w=350&#038;h=233" alt="Pilar Del Río, jornalista e viúva de José Saramago." width="350" height="233" /><br />
Transferi o meu sonho de conhecer Saramago para, um dia, tornar-me amiga de sua esposa. Consolá-la talvez. Ouvir histórias a respeito do homem que também amei, mas de outra forma. Amei Saramago como uma filha – e até hoje me sinto órfã. Sonhava fazer o caminho de Lanzarote: ilha cercada de pedra e sol (o mundo parece ter começado ali). Pediria que o casal, literalmente, me adotasse. Saramago e Pilar não chegaram a ter filhos.<br />
Esse cuidado que Saramago teve ao pensar em como Pilar seguiria após a sua morte trai um pouco das perspectivas do próprio. Ele não acreditava em Deus, mas reconhecia sua identidade católica. Não acreditava por estar cheio de Deus. O equivalente ao que André me dissera no dia em que “reconheci” o Professor de Filosofia: negar a vida é estar cheio dela. Recentemente, em um desses nossos momentos de existencialismo (no quarto escuro de sua casa, deitada nua em sua cama), confessei ao “meu namorado” que mereço morrer cedo. Sempre acreditei nisso, mesmo antes de descobrir meu potencial para a coisa. Ele questionou o motivo daquilo. “Eu vivo demais&#8230; ou de menos!”, respondi, com certa ambigüidade. Pediu maiores explicações que eu não saberia dar. Mas ele tem respostas convincentes para tudo (por isso eu o amo tanto) e disse: “você vive intensamente, interiormente”. Sim. É exatamente isso. Se eu fosse expressiva o suficiente, me transformaria em composição cubista e pintaria o mundo de incêndios azul-turquesa. Mas não sou Frida Kahlo, sou Lispector (segundo a opinião de vocês), lembremos. E isso me confere estranha discrição.<br />
<img class="aligncenter" title="Frida Kahlo, pintora." src="http://www.maisacao.net/blog/wp-content/uploads/2010/05/berlim_e_palco_para_a_amior_retrospectiva_da_obra_de_frida_kahlo_na_europa_blog.jpg" alt="Frida Kahlo, pintora." width="400" height="297" /></p>
<p style="text-align:justify;">Saramago não acreditava em “vida após a morte”, “reencarnação”, “céu”, “inferno” ou “purgatório”. Depois da morte, nada haveria. E, segundo ele, o ser humano teria de parar com essa concepção esperançosa de que “há um lugar para todos nós, quando deixarmos este mundo”. Eu, por outro lado, não sei exatamente no que acredito. A idéia de reencarnar me é bastante sedutora. O céu me parece entediante. Inferno não são os outros. Mas assusta-me a hipótese de não encontrar meu escritor predileto em outra dimensão. Se cada um de nós merece o local que, em vida, nos fora almejado (assim penso, às vezes), o que deve ser o “nada” descrito por Saramago? Será que ele habita este lugar? Quando eu for embora, ele me guiará?<br />
Pura questão fatalista – o que combina comigo. Ainda estou a gargalhar dessas comparações literárias, na mesma proporção em que divago sobre o sentido da morte sobre a vida. É tudo muito confuso e pouco esclarecedor. Mas até aprecio essa completa ausência de convincentes explicações. Está no <em>Cântico dos Cânticos</em>: “o amor é forte como a morte”. É charme do mundo em tudo o que eu quero. O que nos consola é todo esse mistério.</p>
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			<media:title type="html">Nina Vieira</media:title>
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			<media:title type="html">Marina Lima, cantora.</media:title>
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			<media:title type="html">Clarice Lispector, escritora.</media:title>
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			<media:title type="html">Caio Fernando Abreu, escritor.</media:title>
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			<media:title type="html">Tristessa, livro de Jack Kerouac pela L&#38;PM Pocket.</media:title>
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			<media:title type="html">Jack Kerouac, escritor.</media:title>
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			<media:title type="html">José Saramago, escritor, ao lado de sua esposa, a jornalista Pilar Del Río.</media:title>
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			<media:title type="html">A Instrução dos Amantes, livro de Inês Pedrosa.</media:title>
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			<media:title type="html">Carlos Drummond de Andrade, poeta.</media:title>
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			<media:title type="html">Pilar Del Río, jornalista e viúva de José Saramago.</media:title>
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			<media:title type="html">Frida Kahlo, pintora.</media:title>
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		<title>Clichê</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Oct 2011 11:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nina Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Segundo dados do IBGE apurados em 2010, Salvador possui 3.574.804 habitantes. E, assim como acredito em estatísticas, também imagino que a probabilidade de você encontrar o par ideal na esquina de casa é, digamos, nenhuma. O que me faz indagar: porque diabos tendemos a imaginar que “o amor da nossa vida” mora em outro continente? [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sobrefatalismos.wordpress.com&amp;blog=5633192&amp;post=3047&amp;subd=sobrefatalismos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Segundo dados do IBGE apurados em 2010, Salvador possui 3.574.804 habitantes. E, assim como acredito em estatísticas, também imagino que a probabilidade de você encontrar o par ideal na esquina de casa é, digamos, nenhuma. O que me faz indagar: porque diabos tendemos a imaginar que “o amor da nossa vida” mora em outro continente?<br />
Como <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/10/14/slow-motion/">havia dito anteriormente</a>, saí no feriado de outubro, fui ao cinema e, depois disso, telefonei para um amigo na intenção de encontrá-lo. Mas ele já estava acompanhado de um outro sujeito que – basta – , é filósofo, possui uma expressão sedutoramente solitária e, ao findar do dia, lá estávamos nós, aos beijos, na porta da minha casa.<br />
Ele mora perto de mim. Ele-mora-perto-de-mim, elemorapertodemim. Como se não bastasse, de fato eu o encontrava quase todos os dias, durante aquele breve período em que eu pegava no trabalho a partir do meio-dia, fazendo com que todas as minhas distrações se transferissem para o turno matutino, ou seja: eu ia à <em>lanhouse</em> de manhã cedo, resolver minha vida de anti-social. E ele estava lá. De bermuda e camisa regata, cara de sono, barba por fazer, cabelos desgrenhados e pouco grisalhos (dançando conforme o ritmo do vento), carteira e aparelho celular na mão (chaves também, acredito). Eu, naturalmente, observava com meticulosa atenção aquela criatura de olhar cansado, meio quarentão e que não me cumprimentava sob hipótese alguma, mesmo quando eu permanecia em pé, com um livro funcionando de escudo para que ele não percebesse a minha atividade observadora. Ele olhava para a rua, eu olhava para ele, e o estabelecimento não abria. Esperávamos. Mas esperávamos o quê?<br />
Sentávamo-nos lado a lado. Mas como ele não me prestasse a menor atenção e isso não me causasse taquicardia, decidi continuar com as ilusões comuns de minha idade, flertando com quem quer que fosse e por motivos variados. Azar o dele não olhar para mim.<br />
E Deus disse: “desce, arrasa e junta esses dois”, para o André (aquele mesmo), nosso padrinho e cupido, porque a culpa é dele, afinal, fomos apresentados um ao outro graças a sua “intervenção divina” e cá estamos.<br />
Em suma, o “meu namorado” (que está entre aspas porque a situação ainda é muito estranha – para mim) é professor de Filosofia, possui uma coleção (que presumo ser vasta) de camisas listradas, usa xampu de bebê (vergonha na cara, viu), tem cílios longos (oi <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Orgulho_e_Preconceito">Lydia Bennet</a>) e uns lábios em tom de lilás (mas nada vampirescos) mais bonitos que eu já vi. Sobretudo, me aceita. Mesmo com esse jeito meio fatalista e impulsivo que adquiri ao longo do tempo.<br />
E, por incrível que pareça (ou não), está dando certo. Quer dizer, não precisei esconder da minha mãe apesar do “oi, tenho dezenove anos, moro com os meus pais e preciso voltar cedo para casa”. A hostilidade dos dois, em princípio, me encheu de graça, sobretudo pelos informativos momentâneos que eu passava vez ou outra. Naturalmente, para a minha mãe, ele é “muito velho”. E pensar que esse mocinho de quarenta e um anos de idade (só) até “tinha medo” de subir as escadas rumo ao meu campo de concentração particular. E os adoráveis questionamentos maternais: “é casado? Tem carro? Ganha quanto?”. E também seus conselhos (proféticos, porque não dizer): “cuidado, quando ele disser que quer conversar em um local ‘mais tranqüilo’, é motel na certa”.<br />
É início de relacionamento, então, tudo são flores de uma eterna novidade: ele telefona para mim quando estou no trabalho só para ouvir a minha voz e combinamos um encontro para o fim da tarde. Quase todos os dias isso acontece, e ele vai me buscar, sempre bem disposto. Caminhamos rumo ao Pelourinho (que, além de ser histórico, ainda pode ser romântico) e já temos o nosso “local predileto” garantido. Nossas conversas são interrompidas apenas quando nos beijamos e declarações das mais variadas já foram feitas (uma delas, com certeza, jamais esquecerei). Domingo desses, decidimos namorar no <em>shopping</em>, porque não há nada melhor e mais cativantemente insuportável do que perturbar a paz dos clientes da <em>Livraria Cultura</em> e seus funcionários. Uma moça, por exemplo, carregava um cesto de mercado vazio e passeava entre as estantes como quem fazia piquenique, enquanto nos reprovava sem reservas. Algumas senhoras discretas fingiam tolerar nossa situação e nos sentíamos como que fazendo parte de alguma exposição específica – dois artefatos quase extintos, raríssimos, também inaceitáveis; variando nos abraços e carinhos – eu em seu colo, guardando o seu cheiro enquanto ele constatava que, de fato, gosta da minha pele. O inferno são os outros (oi <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Sartre">tio Sartre</a>), mas não importava. Eu estava realizando um velho e bobo sonho, esse de namorar em uma livraria, mas namorar de verdade, e não praticar o ato de “tomar um café com um homem casado” como acontecia meses atrás. Até porque, sempre tive inveja dos casais que namoram em locais públicos, fazendo questão de exibirem sua felicidade escancarada. Eu queria ser assim, mas não dependeria de mim apenas.<br />
É professor de Filosofia. Naturalmente, me ensina muito, ensina bem, adoraria ser sua aluna de verdade (oi <a href="http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/09/21/procuro-procuro-dolores-haze/">Lolita</a>). Tem uma filha adolescente, sua grande cúmplice, cuja idade não se difere tanto da minha, mas não a conheço ainda. E, claro, estou ansiosa para que ocorra, otimista por tornamo-nos possíveis grandes amigas, mas também receosa – ela pode não gostar de mim e penso que tem todo o direito de fazê-lo antes de me conhecer. Deve ser muito apegada ao pai, talvez sinta-se ameaçada pela fria barreira do ciúme (embora ele tenha me dito que ela estivera entusiasmada com a situação). Mas iremos a uma livraria, falarei dos <em>best-sellers</em> de nossa geração (minha total repulsa), dar-lhe-ei dicas de livros, tomaremos sorvete na praça de alimentação e essas inúmeras expectativas despretensiosas que prometi não imaginar, mas a vida tem dessas artimanhas de passatempo.<br />
Estive raciocinando sobre os clichês da vida. Para algo ser clichê, é necessário uma aparente perfeição causada por repetições. Por exemplo: sabemos que toda comédia romântica (americana) tem final feliz. Isso é clichê. Mas também seriam clichês esses momentos tranqüilos nos quais caminhamos de mãos dadas pela rua, perscrutando o olhar estampado de felicidade um do outro? Não. Na minha vida, instantes assim não se repetem. Aliás, é a primeira vez que eles me ocorrem. Logo, clichês foram todas aquelas platonices primaveris de outrora. Basta.<br />
Acho que estou amando. Mas não é um amor de quinze anos: avassalador, desmedido, impulsivo e impossível. Esses adjetivos só transitam por nossa mente enquanto não estamos vivendo um grande amor, mas desejando que tal aconteça. Com esta idade, determina-se um indivíduo para também servir de Narciso: pensa ser feio o que não é espelho, desnecessárias exigências surgem e, no fim de tudo, lamentamos uma perda do que não houvera e passamos a buscar na memória detalhes inexistentes que funcionem como resquício de um sentimento solitário (quinze anos é a pior idade, a mais traumatizante). Por isso o nosso amor é leve, tranqüilo, maduro, cuidadoso e paternal. Ele me respeita muito. É paciente (precisará ser) e muito gentil. Eu já havia desistido de procurar me apaixonar, mas esse meu presente fora irrecusável. Meu filósofo predileto (assim será considerado por todos, daqui a cem mil anos), Saramago (meu grande mestre literário), dizia que “por nada ter esperado da vida, tenho tudo”. É nesse ritmo que a banda toca. Porque ansiar tanto por um sentimento natural, que virá em seu tempo certo e quando menos esperarmos? O que faz a vida valer à pena são as surpresas do destino. Engraçado até mesmo como não penso absolutamente no futuro, no fim, no adiante, nessas bobagens que antecipam um efeito meramente presumido (pensamentos esses que nem sequer me permitiram tentar “adquirir experiência” em tempos remotos). O grande pacto de Cazuza com a vida era esse: “o nosso amor a gente inventa / pra se distrair / e quando acaba a gente pensa / que ele nunca existiu”. Vejamos nós, por exemplo: éramos dois solitários opostos e agora necessitamos um do outro, com a urgência intrépida dos amantes, e a satisfatória tranqüilidade dos humildes. Leitores, me internem: estou gostando mesmo desse cara.</p>
<p style="text-align:right;"><em>“Não é particularmente versada em histórias antigas e invenções mitológicas, mas só precisou de duas palavras simples para compreender o essencial da questão. Embora as conheçamos já, não se perde nada em deixá-las escritas outra vez, Éramos Nós.”</em><br />
:: Do livro <em>A Caverna</em>, de José Saramago.</p>
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