Silêncio: Mulheres acordando

(Crônica de Xico Sá para a revista UMA. Um dos melhores textos sobre a mulher que já li.)


Impagável uma mulher quando acorda. Nada mais lindo e misterioso do que uma mulher acordando. Uma mulher antes das 10h da manhã, como uma vez vi em fotos de um livro de arte inglês, pelo que me lembro ou sonho. Uma mulher e suas verdades nos olhinhos que se espantam com o mundo, como uma criatura que acaba de sair do útero, o maior dos sustos, o maior dos assombros da existência.
Umas têm um mau humor tremendo, meu Deus, te deixam acuado, são capazes de xingar, espezinhar, te maldizer, para depois te amar ainda mais.
Outras acordam paranóicas com os cabelos, tenham caracóis, segredos, ou sejam lisos, loiros ou negros. Ainda mais se for no começo do amor, do caso, do namoro, do ensaio de casamento. Estas nos deixam na cama e correm para o espelho. Tudo por uma rápida conferência de Narciso. Se acham que estão “horríveis”, como naquele hiperbólico julgamento, dote tão feminino, te abandonam por horas no banheiro… E voltam as mais lindas.
Existem aquelas que não estão nem ai, estas são raras, acordam e te presenteiam com aquele sorriso, como se tivessem sonhado com a possibilidade do nirvana ao teu lado, cria da tua costela, como canta o outro Chico, uma beleza de menina!
Os mistérios de uma mulher quando acorda são muitos.
Umas simplesmente silenciam, no máximo um monossílabo, isso quando são, por alguma razão, indagadas. Elas têm dúvidas, ainda não sabem se amam ou não amam, elas ainda guardam velhas heranças amorosas, tudo bem, coisas da vida.
Algumas acordam assustadas, como se dissessem, “que besteira eu fiz, nunca mais eu bebo”.
Outras te mandam embora antes da aurora, para dormir o sono dos justos, o sono que livra de pesos na consciência e possíveis laços imediatos.
Adoráveis aquelas que mantêm a posição de “conchinha”, embora os motores da cidade já ronquem, apesar de todos os despertadores, todos os celulares. Estas são plácidas, jamais submissas.
Existem aquelas que acordam e põem logo uma música de acordo com o clima. Se tem sol, rock, se faz frio, jazz… Se o dia está cinza, toca aquela, que diz assim, como não quer nada, uma porrada, “Ah insensatez, que você fez, coração mais sem cuidado…”.
Nada mais lindo e misterioso do que uma mulher acordando, seus gestos, a dramaturgia, o arranque para a vida ou a inércia nos teus braços.
Os barulhos de uma mulher acordando, a música dos ossos se espreguiçando, os gerúndios tantos das ações e silêncios, o chuveiro ao longe a nos dizer tantos desejos e coisas, meu Deus, aquela água já escorre linda e faz pocinhas líricas nas saboneteiras…
Quantas dúvidas e quantas certezas acordam juntas quando uma mulher acorda.

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