O vôo da libélula

(Inpirado na música Longe Aqui, de Jay Vaquer)

Foi irresistível: Olhou pela janela afim de planejar como seria seu vôo até o chão. Mas não teve coragem e justificou a si mesma que talvez causasse muito trabalho e sujeira. Entendeu aquela estupidez como um sinal de fraqueza, precisava ser forte. Desistiu, foi ver televisão.
Em casa, os problemas aumentavam. Vez ou outra roubava dinheiro da carteira da mãe. Naquela casa nunca tinha comida e frequentemente seu estômago roncava. E além disso, não queria facilitar cigarro e bebida ao padrasto.
Morava em cidade pequena. Já passara algumas vezes pela polícia local, por pequenos furtos. Por onde andava, era vista como má influência. As pessoas fechavam portas e janelas, as mães colocavam seus filhos para dentro de suas casas, e os vizinhos, maldiziam sua presença.
Na escola era repetente e sempre a última da turma. Vivia isolada, achava que assim era mais “pé no chão”. Não tinha amigos. Nenhum sequer.
Chorava e rezava baixo pelos cantos, por ser uma menina má. Queria amar alguém e ser amada também. Mas quem naquela cidade iria ter a (in)decência de se aproximar dela? Passava as noites sonhando com o bonitinho da escola que nem sabia de sua existência. E depois se julgava tola, por ser como todas as outras garotas.
Viu que não seria mais possível conviver daquela maneira: Percebeu que podia se virar sozinha, mesmo não mudando sua postura para agradar a todos. Fez as malas. Ninguém a aceitaria daquela maneira, era mesmo muito tarde para tentar mudar. Não sabia o que iria ganhar. Mas também nada tinha a perder. Talvez fosse viável se arriscar um pouco. Ela fugiu. Ela partiu. Pra bem longe…
Os poucos trocados que tinha no bolso serviriam apenas para comer e beber. Se viu precipitada e perdida por não ter feito planos. Não sabia onde dormir e não queria que a reconhecessem. Usaria uma blusa com capuz, fizesse frio ou calor. Precisava se proteger de tudo e de todos. Sentia falta do conforto de casa, mas não importava: Estava fazendo um favor à mãe, que se livraria de um peso e não sentiria sua casa.
Muitas vezes procurou emprego. Mas ou se achava velha, ou muito nova. Em todo caso era sempre inadequada à situação. Recebera fertas de senhores de setenta anos, mas sabia que dinheiro fácil era um perigo.
Adoeceu. Ficou com febre, seus olhos já estavam vermelhos. Foi caminhando sem rumo, até que parou em frente a uma ponte, onde logo abaixo transitavam carros. Como seria seu vôo até o chão? Nem teve tempo de pensar numa resposta, sorriu, indo de encontro à morte. Como se esta fosse a mais doce de todas as realizações de uma vida insignificante. Fechou os olhos. Abriu e bateu as asas inexistentes de libélula. Até que ela partiu… ao meio.

Eu melhorei, caso alguém queira saber. E não era piada de primeiro de abril. Eu não brinco com a morte! Se era dengue, não faço idéia. Também agora não importa. E fiquem sabendo que eu não costumo escrever contos. Acho um saco. Sou mais amante das crônicas, de coisas que aconteceram comigo. Mas enfim, este é o primeiro conto publicado aqui. Beijo.

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