Estranhos

“Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar…”
::Saudosismo – Caetano Veloso

Rostos alegres e sorridentes vinham ao meu encontro, muitos conhecidos e outros que me davam novamente as boas-vindas. Foi difícil acordar cedo, no susto, com aquela crise existencial da adolescênca: “Ai meu Deus, já são seis e meia!”, fora o fato do “como será meu retorno?”, foi tranquilo, ainda bem.
Já havia dado o aviso prévio de que estaria lá na terça, que meus horários de minha dependência de matemática já estavam acertados. A novidade era o fato da decepção de alguns: Estaria no turno vespertino. Um alívio para muitos: “Ainda bem que essa garota foi embora”. Estranho voltar…
Mais estranho ainda nada ter sentido absolutamente nada. Sim, de fato, houve uma alegria constante no início, o reecontro, a animação, as notícias das férias, o fato de que fiquei muito doente semana passada… Mas depois, as expectativas foram dissonantes. Pela tarde, rolava o boato de que o turno matutino estava com o triplo de alunos do ano passado. Se antes aquele colégio se encontrava com poucas salas cheias, agora nenhuma restara vazia. E o ICEIA já foi o maior colégio da América Latina. Realmente o boato tinha lá seus fundamentos. Ainda assim isso não me impressionou. Logo Larissa e Levi Ventura tiveram aula e eu fiquei sentada na escada, relembrando o lixo que foi o ano passado.
Distraída. Até ser pega de surpresa por ele. Me assustei um pouco: Da última vez que nos vimos havíamos brigado feio, lembro que daquela vez toda a roupa suja fora lavada. Com lágrimas, muitas lágrimas. Era óbvio o fato de que eu iria reencontrá-lo, estava nítido para mim. E algo inesperado aconteceu: Permaneci fria, tranquila e preparada.
“O amor acabou”, precisava provar aquilo para mim mesma. Vê-lo de novo foi normal e até insólito, um paradoxo.
Sorri, não tremi e contei como passei as férias. Volta e meia alguma aluna nova passava por nós e ele contava os defeitos da criatura. Exatamente como fazia comigo ano passado: Me amava, mas não me deixava em paz.
“Como pode ter acabado tão rapidamente?”, eu me condenava por isso. Ao mesmo tempo em que, de algum modo, me sentia satisfeita e aliviada por ter feito mal uso de sua existência. Oh, sim, eu o desprezava. O desprezo é doce vindo de uma traidora.
E a manhã correu tranquila, sem muitos tormentos, como se tudo estivesse renovado, como se não houvesse rancor algum em nós, como se fôssemos velhos amigos, embora estranhos no ano passado.

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