A filha (rebelde) de 68

“Quero colo!
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui
Com vocês
Estou com medo
Tive um pesadelo
Só vou voltar
Depois das três…”
::Pais e filhos – Legião Urbana

Jéssica Lins sempre suscitou em mim uma certa inveja. Ela tinha tudo o que a sociedade capitalista poderia lhe oferecer e, naquela época, aos quatro anos de idade, o que ela queria eram os materiais escolares mais fúteis da existência: Mochila de rodinha da Barbie, estojo das princesas Disney… Ela era um sonho: Cabelo longo e levemente cacheado, muito bonita e uma voz que, apesar de uns acharem um pouco enjoada, soava como música para os meus ouvidos.
Sempre a frente dos nossos tempos: Julgava todos infantis e seus amigos eram escolhidos a dedo. Eu, obviamente, não fazia parte do grupo dela. E isso não me importava, nada importa quando se tem quatro anos de idade.
Eu vi Jéssica crescer, virar modelo, ouvir Sandy e Júnior sem parar (não demorou muito para que ela fosse comparada a cantora. Jéssica e Sandy eram idênticas ao extremo) e ter ótimas relações com o pai. Eu sempre lembro do pai dela, aquele rapaz jovem e belo, atencioso e carinhoso com a filha que tanto mimou. Acredito que Jéssica tenha ótimas relações com o pai, ambos não devem ter segredos. Todas as vezes que ele levava Jéssica ao colégio, dava-lhe um beijinho de esquimó, daquele com a ponta do nariz. Isso ocorreu até a oitava série (mas era ridículo um pai levar a filha ao colégio quando ela possuia já seus 14 anos de idade), quando mudamos definitivamente de escola, e eu nunca mais a vi.

Nunca possui relações tão íntimas com meu pai. Todos os dias, assim que acordo, ele me diz: “Ontem a bolsa de valores subiu tais porcento. Dá para acreditar?” e eu respondia, com um certo mau-humor: “Impressionante. Bom dia pra você também.”
Nunca o tratei como “senhor”. Papai sempre fora sério e não demostrava ter tempo ou paciência com a ovelha negra da família. Sempre preferiu minha irmã: estudiosa, comportada…fera em matemática. Os dois passavam horas discutindo economia. Um saco.
Lida com os números todos os dias. As vezes penso ter nascido na família errada: Eu sou a única que prefere as letras, e papai não me encoraja à escrita, vive dizendo que é perda de tempo, e tempo é dinheiro.
Incrível acreditar em quem ele se tornara. Quando brigamos, ele sempre recorda: “Lembre-se de que você é uma filha de 68!” Sim, é verdade. Devo ser a filha mais nova de 1968 (tirando Tom e Zeca, filhos do Caetano). Mas eu o faço lembrar: “Papai, você não é mais comunista!”
Deixamos de ouvir Caetano aos domingos. Não sentamos a mesa no café-da-manhã ou no jantar. Muita coisa mudou. Eu me isolei e vejo-o velho. Para ele, não passo de uma pirralha fracassada sem capacidade para estudar matemática. Nossas brigas são frequentes e tolas. Os meus choros também. Diante dele me sinto incompreendida. Lembro de Jéssica e seu pai tão atencioso, um pai que, confesso, gostaria que fosse o meu.

“Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?”
::Pais e filhos – Legião Urbana

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