Traça

“O que você vai ser quando crescer?”
Foi o que a professora Márcia perguntou aos alunos da terceira série. Aos nove anos de idade, a maioria das meninas queriam ser bailarinas ou pediatras. Já os garotos só tinham uma opção: jogador de futebol.
Mas, no canto da sala, havia uma menininha de olhos verdes cujo único intuito era ser escritora.
-O que uma escritora faz?
-Escreve, oras.
-Parece chato. Odeio escrever. Parece inútil também.
E é. Mas eu não controlava meus instintos. Torcia para que chegasse logo a sexta-feira, dia das redações com tema livre. No fim do ano meu primeiro livro estava pronto. Encadernado e com cartolina cor-de-rosa, exatamente como a professora colocara.
Meu “livro” era o único da sala com dedicatória. Originalidade minha, admito. Agradecimentos a pró Márcia, a minha avó que sempre me encorajava à leitura e a Carina e Léo – que sentavam ao meu lado.
Na quinta-série, os poemas eram meu alvo. Decorava Shakespeare e recitava na sala. Pouco a pouco a literatura inglesa foi me conquistando. Eu também fazia meus poemas. Versos bobos, rimas fáceis. Eu só tinha onze anos, mas a professora Sol já me achava um prodígio.
No teatro eu adaptava roteiros, quando entrei na escola de música, uma banda de rock foi formada, de modo que as composições ficavam por minha conta.
Nos serões da minha irmã, quando ela convidava seus amigos para dançaram vaudeville lá em casa, eu me sentava na varanda e lia Hamlet, Dom Casmurro e até a Enciclopédia Barsa. Eu era a única menina de treze anos com total paciênia para Machado de Assis. Mas adorava ler. Buscar palavras novas no Aurélio, caminhar nos corredores da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato durante as férias de verão… Aos poucos ganhei o apelido de “Traça”.
Traduzia textos em francês, escrevia contos, inventava personagens, situações diversas e um final surpreendente. Começei a blogar… Mas o tempo foi passando e minhas conclusões foram mudando de acordo com o meu crescimento. Quero mesmo é ser historiadora de arte, tenho paixão por isso.
Ainda sigo procurando estilos literários que me dêem identidade. Penso em fazer Letras (logo após a faculdade de História) mas não sei se é a minha. Penso em escrever livros, mas sei que nunca irei concluí-los. Ainda quero, muito mesmo, ser escritora. Embora saiba não possuir talento algum para isso. Escrever é um manifesto. E como eu disse anteriormente: Não consigo controlar os meus instintos.

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