Amanhã será um lindo dia?

(Em especial para Jair Eduardo.)

Os sonhos são frequentemente abalados pelo nosso crescimento e percepção do mundo. A realidade é um choque instantâneo para todos. Se, quando éramos crianças, queríamos ser bailarinas ou jogadores de futebol, agora vemos que ballet é privilégio de poucos que começaram cedo e que até para jogar bola é necessário ter algo mais do que as quadras de colégio. Se antes queríamos ser pediatras ou professores, agora vemos que passar no vestibular é difícil e que manter condições financeiras para a faculdade é sorte demais.
Há pouco tempo atrás, eu tinha quinze anos. E já via o início desse pesadelo bem de perto. Daqui há dois anos me formarei no Ensino Médio e tentarei o vestibular. Mas e ai? História ou Letras? Fora o meu lado pessoal. Quero um apartamento num bairro tranquilo, ou uma casa no campo, como a canção de Elis. Onde eu possa guardar meus amigos, discos e livros. Preferencialmente Proust e Florbela Espanca na cabeceira. Aquela coleção de Shakespeare e Tolstói, herança rara de minha avó, certamente ficará na estante da sala, repleta de outros livros. Nem creio que irei precisar de televisão. Ainda preservo os bons hábitos de meus antepassados: O de chegar em casa e ler um livro antes de dormir. Sem precisar me render as funções tecnológicas do mundo atual. Lírios-do-vale no jardim, cortinas de seda no verão, revistas recentes na mesa de centro e uma samambaia na varanda.
Possivelmente com minha maior ambição já alimentada: A de ser cronista num jornal ou revista de meu município. Cursos de História da Arte no exterior e um jantar por mês no Coliseu du Porto.
Me imagino com trinta anos ainda ouvindo o mano Caetano, que possivelmente já não estará entre nós. Um amor em minha vida, talvez um filho no ventre, quarto e canções de ninar para decorar. Filhos crescendo, dando trabalho e ouvindo a voz cansada de sua mãe a recitar Manuel Bandeira ou contar histórias de Fernando Sabino antes de dormirem. Adolescência chegando, horário de voltar para casa, tudo o que eu odeio ser obrigada a cumprir, devido as ordens de meus pais e o alto índice de criminalidade lá fora. No final somos mesmos como eles. Natal, Páscoa e outras datas religiosas que reunirão toda a família. Daqui até lá talvez eu esteja relendo O Código da Vinci ou qualquer outro mistério sagrado da humanidade. Pensarei e julgarei a existência de Deus, como tantas vezes fiz. Mas meus filhos crescerão sabendo que Papai Noel é apenas uma lenda.
Pontos ruins e naturais do cotidiano: Pesadelos, despertar, horário, fatfood, prazos, preços, shoppings, cartões de crédito, contas, estresse absoluto. Escalda-pés, pratos para lavar, gritos, brigas e reconciliações. Talvez um divórcio. Gosto de ser independente e não creio que estarei habituada a idéia de um amor eterno aos trinta. Amigas, baladas, bebedeiras, dor de cabeça e “oh meu Deus! Quem é esse cara aqui do meu lado?”. Auto-ajuda, terapia, um novo corte de cabelo e a velha promessa de parar de roer unha. Reconciliação novamente, pedido de desculpas, malas desfeitas, roupas no seu devido lugar. Rotina. “Eu te amo” todo dia alimentará minha alma.
Algumas coisas deverão ser mantidas. Escrever em diário, manter o blog, visitar e doar livros para a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Levar as crianças para lá todo fim-de-semana ou sempre que pedirem – assim foi comigo e assim será.
Sessenta anos feitos, o mesmo espelho no armário do banheiro, o mesmo rosto envelhecido com o tempo. Ternura e lembranças. Óculos na cabeceira da cama ao lado de Proust e Florbela Espanca. Filhos mais que crescidos, gerando netos para que a avó mime. Chinelos rosa-claro no chão, passeio de manhã ao lado do meu amor… Felicidade aparentemente existente em cada detalhe. Pensarei na morte sem medo, apenas como um breve ritual de passagem e enfim… terei vivido. Mas acho que quero que tudo seja imprevisível. A vida é um morango, como diz Emily França. E quero que a doçura venha com recheio de prestígio. Agora me vejo ansiosa, sabendo que tudo isso passará. Amanhã acordarei e vejam – já tenho trinta, ou sessenta – e não me assustarei. É muito filosófica e complexa nossa vida, apesar de curta. O importante é fazer valer a pena.

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