Noite prosaica

Sábado à noite, luzes acesas, mas nenhuma badalação. Ele põe sua jaqueta, pega as chaves, a carteira e diz que vai sair. Passa a mão nos cabelos – já grisalhos – e cantarola um rock. Assim, pelo menos, se sente mais jovem.
Do mesmo modo que caminha, olha a rua movimentada, onde uma garota passeia em sua bicicleta e um casal se beija no banco da praça. O Rio de Janeiro continua lindo, continua sendo e nada irá mudar este fato. O Leblon ainda é o espaço de pessoas atarefadamente capitalistas. E ele é obrigado a confessar que se rende a isso.
As luzes e o colorido da rua por onde anda ainda o fascina, mesmo apesar de ver tudo aquilo todos os dias: Cafeterias, uma loja de discos e, logo mais à frente, o seu destino – a locadora. Ele entra, sorri para o vendedor e apresenta seu cartão de “cliente assíduo”. O rapaz faz um sinal de positivo com a cabeça, ao mesmo tempo que lhe indica as inúmeras estantes visivelmente repletas de DVD’s. Ele caminha calmamente e despreucupado, sem notar que já havia passado um longo período de tempo, na difícil decisão do que assistir. Acaba decidindo por Um Peixe chamado Wanda, por gostar da Jamie Lee Curtis, talvez. Volta ao balcão, reapresenta seu cartão ao vendedor, paga e sai.
Olha para os lados e se surpreende ao ser abordado por um jovem:
-Tio, me dá um trocado?
O garoto, obviamente, não havia percebido com quem estava falando. Os dois se olham nos olhos, o guri se vê tomado por brilho, o velho tira a carteira do bolso, o guri abre um sorriso, o velho entrega uns trocados ao morador de rua. Este observa, perplexo, a atitude do senhor de idade, já. Recordando-se de quando passava algumas tardes, ouvindo suas músicas.
-Poxa… Poxa, foi mal. Se eu soubesse que era o senhor, não teria…
-Que é isso, garoto? Aqui está, para ajudar você. Sei que os tempos andam difíceis.
-É… para todos nós.
Os dois caminhavam, alegres, falantes. E ambos não perceberam que um fotógrafo que ali passava, havia registrado o momento.
O rapaz se despede e toma seu rumo enquanto o outro muda de calçada. Na cabeça, relapsos de uma nova era, um discurso de Fidel e o mal da sociedade capitalista que impede o futuro de muita gente. E tudo acaba sendo como aquela música, que ele mesmo compôs, cujo refrão afirma que “alguma coisa está fora da ordem/fora da nova ordem mundial”.
Adiante, várias pessoas o fazem parar novamente e ele sorri, um tanto quanto confuso, logo entendendo o recado, aos pedidos insistentes daqueles que queriam um autógrafo.
Um sábado à noite qualquer, um rock a ser cantarolado. O Rio de Janeiro continua lindo, continua sendo. E a noite de sábado, com um programa típico de sábado, é prosaica. Mas Caetano não.

“O cantor e compositor Caetano Veloso, 63, foi visto no sábado, 21 de junho, saindo de uma locadora no Leblon, Rio de Janeiro, onde reside. Foi abordado por um morador de rua que lhe pediu esmola. O músico sacou a carteira e andou pela calçada conversando com o rapaz. Mais adiante, ele foi novamente abordado – dessa vez, para dar autógrafos.”

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