O observador

Eu o observo enquanto ele caminha em passos lentos pelo corredor da escola. Tranquilamente vai seguindo, majestoso e despreucupado. Há um lirismo e um mistério em cada gesto que ele compõe. Do modo como ajeita os óculos até a maneira de olhar para mim, o que me faz suspirar, vez ou outra.
Como observadora distraída da realidade, sou ótima. Gosto de assumir o papel de investigadora de vidas alheias, prestar atenção em pessoas diversas e deduzir como elas vivem , qual o seu tom de voz e o que gostam de fazer nos fins-de-semana.
Mas com ele, confesso que não foi possível obter informações precisas. No grupo de amigos que ele frequenta, surpresa: Também atua como observador. Está sempre quieto num canto e bem caladinho. Acho que ele tem uma opinião sobre cada indivíduo. E garanto que em relação a mim, falsas impressões surgem.
Quem me vê pela primeira vez, pensa que eu me julgo superior aos outros. Pensam que eu sou fria e que prefiro a solidão. O que, em parte, é verdade: Estou sempre sozinha, porque acho que o mundo ao meu redor é fútil e desprovido de interesse cultural. E todo mundo parece incomodado com o meu modo de agir. Ora escrevo, ora leio. É sempre assim, não tem mistério. Ou será que tem? E respondo com grosseria caso alguém ouse interromper meu ato sagrado de leitura.
Ele, como um homem, já com seus vinte e cinco anos, deve me achar uma menininha. Como muitos acham e como sou obrigada a admitir muitas vezes. Além disso, sei que seus “amigos” já se encarregaram de dizer desaforos sobre mim.
Mas o que penso dele pode parecer engraçado. Porque não minto: Também tenho o costume de julgar pela aparência. Mas com ele foi diferente. Olhei da primeira vez e o defini como alguém com o coração bom. E nunca pensei dessa forma. Olhando para o que há dentro de um ser, olhando nos olhos e compreendendo seu “eu interior”. Foi mágico, poético, indecifrável.
Uma incógnita. Olhar e conhecer apenas com um gesto. Com ele nunca falei. Recentemente, dei um breve vacilo ao contar para Emily França quem eu apreciava. Anteriormente, eu havia desprezado três elementos que, suspostamente, estavam apaixonados por mim. Emily, sempre coquete, prometeu investigar. Acabou descobrindo o nome dele e sua data de aniversário. Coincidentemente, uma semana após o meu, em 23 de maio.
Aos poucos os dois ficaram amigos. E o meu desejo de descobrir quem era o jovem que se escondia atrás de lentes oculares aumentava a cada instante. Mas me ocorria o mal de sempre: Mãos trêmulas, coração acelerado e travamento instantâneo de meus movimentos. Ou seja, eu me tornava tímida.
E ele sabe disso. E parece compreender, apesar de estranhar a incômoda situação que Emily nos coloca, nos deixando, vez ou outra, sozinhos. Ouço pouco sua voz, mas sei que ela virá seguida de um sorriso. É o tipo de pessoa que não precisa de muito pra impressionar. Sua sutileza já é o suficiente para que o encanto permaneça.
Não sei ao certo o que ele pensa de mim. Talvez me ache fria, talvez me encare como uma fútil sem cérebro, talvez…
Enquanto isso: Vivo. Vivo e sonho. Pois os sonhos alimentam a alma. E mais cedo ou mais tarde, quem sabe, seremos bons amigos.

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