Vinil Café

Girar a maçaneta daquela porta de vidro é sinônimo da premonição de adentrar um cenário irreal. O Espaço Vinil é a cafeteria cult dos sonhos de quem não tem o costume de participar desse enredo. É o centro dos casais apaixonados, dos aspirantes a roteiristas de cinema (que sentam em grupo de quatro componentes numa mesa para escrever em seus notebooks), clubbers, playboys e socialites em geral. Seguido de poparts anos 60 na parede e trilha sonora diferenciada: Ora jazz e soul nas vozes de Duffy e Amy Winehouse, ora MPB e Madeleine Peyroux deixando um clima à lá Piaf.
Garçonetes de uniforme azul e cabelo curto. Qualquer semelhança com Audrey Tautou é mera coincidência. Elas sorriem para os clientes já conhecidos e fazem aquele rosto sapeca de Amélie Poulain enquanto passeiam com uma bandeja de café. O lugar é francês em seus pequenos detalhes: Dos deliciosos criossants no balcão, até as cortinas verdes das janelinhas, na lateral de cada mesa.
Ainda é possível contar com a área cultural do espaço: Um painel onde os visitantes deixam assinaturas, fotos, frases de efeito, protestos comunistas e desenhos em geral; uma sebo, cuja prática principal é a venda e troca de livros; e discos raríssimos que podem ser ouvidos numa sala diferenciada: De paredes roxas e divãs vermelhos – o local acaba sendo mesmo intimista, me faz sentir em casa.
Ainda não me encaixo num grupo específico, pois sou visitante de fins-de-semana e não frequentadora assídua. Alguns já são conhecidos. A mesa dos universitários barbudos também é a mesa dos boêmios intelectuais e comunistas. Meu ex-professor de Literatura Inglesa termina seu romance na mesa dos futuros hollywoodianos. Em frente ao seu notebook, ele me chama, pede um palpite feminino sobre a fala seguinte da personagem. Após o cinema do shopping, os adolescentes levam suas namoradas para o Vinil, a fim de ganhar pontos com a sofisticação do lugar. Enquanto isso, Bebel Gilberto é tema de fundo. Os playboys se rendem ao universo nerd e comparam os últimos modelos da Nokia e Microsoft, enquanto seus celulares de estilos importados tocam a música da vez.
Algumas meninas tomam sorvete no balcão. Soube que vieram de Nova York, mas são brasileiras. Cabelos tingidos de loiro, fitas de cetim cor-de-rosa servindo de laço no pescoço (seria a última moda?), revistas como Elle e Vogue sendo passadas de mão em mão: Uma perfeição igualada a Sex And The City. E elas se vêem animadas em gritinhos ao ouvirem o pop sofisticado de Hilary Duff saindo da caixa de som, adentrando e descontraindo o ambiente. Um rapaz, que havia colocado o disco, sorri para uma delas, esta que lhe retribui com uma piscadela – de soslaio.
Meu milkshake acaba de ser colocado na mesa seguido de alguns biscoitinhos e uma pequena tigela de chocolate. Pela janela, se vê a concorrência: Um restaurante japonês com algumas gueixas do lado de fora. Uma menina passa em sua bicicleta com um gorro em forma de urso na cabeça. A chuva começa a cair e seus cabelos dançam com o vento.
E ainda assim eu penso que não há nada melhor do que respirar poesia e aspirar conhecimento, enquanto a caneta gira em torno do papel, me inspirando a criar esse texto.

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