A menina que roubava livros

Eu não queria fazer aquilo. Sabia que era errado, que poderia ser pega. Mas a distância entre a minha mesa e o balcão da bibliotecária era enorme. Pequena mesmo era a distância entre a minha mesa e a estante de livros da biblioteca da escola.
Afastei os maus pensamentos. Levantei-me e fui até o balcão, perguntei:
-O que é necessário para fazer a carteirinha daqui?
-Identidade, comprovante de residência e comprovante de matrícula.
Aquele era o ponto cruel. Há tempos, desde o início do ano, venho tentando pegar o maldito comprovante de matrícula. Que, por algum motivo inexplicavelmente indefinido, nunca chega em minhas mãos.
-Comprovante de matrícula? Por que? Eu uso uniforme, estudo aqui. Você me vê todos os dias.
-Sim. Mas acontece que algumas pessoas, mal intencionadas, vem com a farda da escola, fazem a carteirinha, pegam os livros que querem e depois desaparecem. Vários livros de José de Alencar e Lima Barreto, por exemplo, foram furtados.
-Ah… tá bom!
Ainda assim, tentei. Tentei diversas vezes pegar o comprovante na secretaria da escola. Ninguém parecia disposto a me ajudar. Solução? Roubá-los.
Foi bastante prático. Ao chegar na biblioteca, deixei a bolsa na entrada, tratando de levar o caderno e algumas canetas. Sentei na última mesa do fundo, mas antes, escolhi alguns livros da velha estante empoeirada. Passeava entre Castro Alves e Carlos Drummond de Andrade. Um terceiro livro despistaria, mas o Drummond seria levado para casa.
Sempre que a bibliotecária se distraía (e isso com frequência acontecia), eu tratava de esconder um livro dentro do caderno. Feito isso, fingia ler um ou dois capítulos de um outro livro qualquer, levantava, pegava minha bolsa e saía.
Seria só uma vez. Mas a minha atividade criminal acabou sendo prolongada. A cada dia, eu me via mais perto dos clássicos da literatura brasileira e cada vez mais longe de conseguir o maldito comprovante.
Todavia, acreditava que não estava prejudicando ninguém. A biblioteca era praticamente desabitada. Os alunos, sempre desprovidos de interesse, aderiam ao esquema de “copiar e colar” pela Internet. Mas eu, que não tenho paciência alguma para enfrentar o Mister Google, preferia a tranquilidade e o silêncio daquele lugar todo branco. Sem contar que pesquisa em biblioteca melhora e muito a caligrafia.
Meus breves furtos continuam. Vou sem culpa, procurando cultura. Nas estantes de minha casa pelo menos estão a salvo de poeiras e aranhas. Observo com orgulho minha nova coleção.

“Eu conheço a menina que roubava livros” é tema no blog do Levi Ventura: http://www.duventublog.blogspot.com

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