Assinatura

(Dando uma limpa nos armários daqui de casa, encontrei algumas revistas antigas. Entre elas, a Capricho, da qual tirei esta crônica de Antonio Prata, que tem a ver com o post anterior. Boa leitura.)

Existe um momento na vida em que a gente inventa uma assinatura. Dali para a frente, para comprar um carro, entrar num emprego, casar ou descasar você vai precisar deixar o seu “personal rabisco” em cima de algum papel.
Lembro de, bem pequeno, eu e minha irmã brincando de inventar assinaturas. Estávamos treinando, acho, para sermos adultos. Acontece que fui crescendo, as pessoas ao meu redor criaram seus rabiscos oficiais, fui adiando esse momento. Adiando até que não teve jeito: quando eu vi, estava lá no cartório, o RG na minha frente e alguma coisa eu tinha que fazer. Escrevi lá meu nome com a minha porca letra de mão (que, de tão feia, merecia ser chamada letra de pé). Assim ficou até hoje.
Acho que o momento em que criamos uma assinatura é paralelo ao período em que criamos ou escolhemos essa coisa chamada estilo – tão fácil de perceber e tão difícil de definir. Na segunda série ninguém é mano, ninguém é hippie, nem usa piercing ou tatuagem. É todo mundo criança e eventuais diferenças de roupa e corte de cabelo têm muito mais a ver com nossos pais do que com a gente. Já na sétima, oitava série, basta uma voltinha pelo recreio e podemos ir colocando as pessoas em diferentes estantes, sem muita dificuldade.
Da mesma forma como adiei a assinatura, adiei esse tal de estilo. Nunca fui mano, nem hippie, nem tive piercings ou tatuagens. E não venho aqui fazer aquele discursinho xumbrega do “sempre fui mais eu”. Pelo contrário. Eu queria me encaixar, mas nunca me senti confortável em nenhuma das estantes disponíveis e, posso garantir, isso não era nenhuma alegria.
Durante o colegial, eu olhava os metaleiros todos de preto, os manos com as calças caindo e a cueca aparecendo, os playboys com seus relógios e tênis e calças de marca e pensava: Nossa, como eles conseguem ser tão seguros? Como conseguem andar desse jeito, sem terem vergonha? Eu, se punha um boné, já me sentia fantasiado, ridículo. (Acho que o máximo da minha ousadia foi na quinta série, quando resolvi imitar o personagem de um filme e fiz um topete. A primeira pessoa que disse “olha só, tá de topete…” já me deixou tão envergonhado que, logo após negar veementemente ter feito qualquer intervenção capilar – “eu? Imagina, meu cabelo sempre foi assim!” – meti a cabeça na pia e acabei com o “estilo” em dez segundos.)
Outro dia uma amiga me falava de um cara e soltou a seguinte frase: “um cara assim, meio o seu estilo”. Meu estilo?!, perguntei. Como é isso? Ela disse que eu era “intelectual-desleixado”, “casual-básico” e tinha rompantes de “descolado-light“. Fiquei ali, atônito, pensando no que aquilo significaria. Não nego que, diante da descrição, tive vontade de meter a cabeça na pia. Não ia adiantar. Fazer o quê? Mesmo contra a minha vontade, parece, eu tenho um estilo. Só espero ser melhor do que a minha assinatura, que, a cada dia que passa, fica mais feia.

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