Para Levi Ventura

Sophie, minha futura filha, estará com quatro anos. Eu provavelmente terei trinta, trinta e dois. E você, a mesma idade. Você usará óculos e eu, só quando a vaidade não insistir os olhos persistirem em arder. Você estará casado com aquela amiga nossa da escola e eu, introvertida como sempre, continuarei a negar o amor e afastarei as pessoas que me amam. Orgulho puro. Algumas coisas nunca mudam.
Daí eu vou sair do trabalho, passar na livraria, passear pelas inúmeras estantes e encontrar, numa prateleira qualquer, um livro de folhas brancas e capa azul celeste, com o horizonte ilustrado. O autor será você e seu nome estará em letras douradas. O título será um conselho, algo que intensifique o fato de que é um livro de auto-ajuda. Sabia que você seria o próximo Augusto Cury.
Então eu vou ligar para a casa dos seus pais e descobrir que você já não mora lá. Eles me darão então o número do seu escritório, sim, porque você virou nutricionista.
E vamos nos encontrar numa dessas cafeterias cult do Rio Vermelho. Já bastante populares e não tão impressionantes como eram no tempo da nossa meninice. Eu vou levar seu livro na bolsa e pedirei um autógrafo quando for oportuno. Abraços, lágrimas repentinas e exclamações infinitas ecoarão no ambiente. Lembranças da nossa geração, muito mimada e um pouco medíocre. E nós queríamos mudar o mundo, fazer diferença. Conseguimos, de certa forma. Individualmente, mas com os mesmos intuitos. Acabamos concluindo que hoje (ou será amanhã?) somos pessoas melhores, com nossa integridade intacta, graças ao que fomos antes. Vamos sentar, rir de situações que ocorreram num passado distante, mas “parece que foi ontem”. Amigos que viraram vizinhos, outros que nunca mais vimos. Alguns que nos visitam no Natal… Lembranças dos nossos professores. De como eram doces as de Geografia e História. De como ensinava mal a de Matemática. Recordaremos as conversas quentíssimas, repletas de fofocas ou assuntos da mais alta seriedade, discutidos com todo o sigilo do mundo nas escadarias da biblioteca da escola.
Nando Reis será um senhor ruivo e grisalho. Sandy, quem diria, é a nova diva da MPB. O mano Caetano já não estará entre nós e, por um instante, faremos um breve silêncio pela memória daquele que fez a trilha sonora de outros tempos. Keira Knightley, nossa londrina diva, é quase uma senhora, que ganhou um Oscar recentemente. Tom Hanks é uma lenda e… Em que céu estará Spielberg?
As modas foram bobas e passageiras. As frases de filmes americanos ainda estará nas nossas cabeças, latejando. Aquela voz grave do Sean Connery a dizer que “primeiro testamos, depois confiamos” já foi o bordão da época.
Nosso Brasil não é mais o mesmo. Só agora foram cuidar de preservar a Amazônia. Mas o país evoluiu, cresceu e já faz parte do G8, veja só! E os Estados unidos caiu em seu próprio ego. Já não é mais uma potência mundial.
Falaremos do particular, do pessoal. Larissa espera o seu segundo filho e vocês torcem para que seja um menino. Ela ainda é muito sentimental, mas vocês se completam. Eu direi que casei na Igreja, de vestido branco e pétalas de rosa no altar. E todo o meu papo de feminista anti-Amélia terá sido pura balela. Durou um tempo, quase uma década. Fui feliz. E dessa união nasceu Sophie. “Tem os olhos verdes da mãe!” dirá você, ao ver as fotografias. “Um presente de Deus!”, responderei. Acabo virando católica.
Alguns caminhos terão sido incertos. Eu fiz Letras ao invés de História. Acabo tornando-me professora e a vida é muito boa. Você dirá que lê minhas crônicas naquele jornal. Eu lhe prometo trazer esboços de meu próximo livro. Você é um médico conhecido e sua esposa, redatora-chefe de uma revista feminina. Teremos (ou tivemos?) o futuro que sonhamos, meu amigo.
Porque a verdade é que o presente vivemos agora. E vamos embora, cada um para o seu canto, daqui há dois anos apenas. Contatos se perderão no meio do caminho, isso sempre acontece. Eu posso perder no ônibus o caderninho onde anotei seu endereço. E você esperará eternamente por uma carta minha. uma carta que nunca vem, que nunca chega, porque foi escrita e não enviada. Não como esta, que amanhã fará parte do nosso pretérito, que foi imperfeito. Mas nosso.

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