Como surgem meus personagens

A angústia me parece eterna. Por quê não escrevo um livro? Enquanto a resposta não vem, ou as histórias, me aventuro em breves contos (que, confesso, não é meu estilo literário favorito), que falam de personagens. Ora anonimos e alheios, do meu cotidiano. Pessoas que vejo todos os dias, indivíduos seguidos de soslaio pela minha íris curiosa e atenta. Movimentos, falas e gestos devidamente perscrutados por mim: observadora distraída da realidade.
Há, por exemplo, o carteiro. Cumpre minuciosamente seu itinerário que eu sei, começa pelo meu bairro logo de manhã cedo. Termina cerca de cinco da tarde, quando volto do colégio e o vejo no ponto de ônibus.
Ali também há o estudante de Direito. Meu personagem mais sedutor e misterioso. Rosto de menino, mas creio que seja apenas a aparência. O terno que usa o deixa sério e ele está sempre com pressa. Há pouco tempo atrás, sua repentina presença me incomodava. Ele me observava na rua, quando eu passava. Era desconfortante. Até o dia que resolvi esperá-lo no ponto de ônibus para tirar satisfações. Mas ele é gentil. E, pela nossa conversa tão breve, já fez faculdade de História. Deve ser alguém interessante, presumo.
Branca de neve é o nome que dou à estudante japonesinha que usa batom vermelho. Seus traços orientais são nítidos. Às vezes ela também aparece comendo maçã com uma fita de cetim cor-de-rosa amarrada aos cabelos. Esta saiu de um conto de fadas.
A professora de Biologia usa óculos de armação vermelha e tem cabelo curto. Está sempre com uma bolsa amarela, que me recorda um livro, lido quando ainda criança, de Lygia Bojunga Nunes. O professor de História do terceiro ano é um homem alto e de olhos cansados. O rapaz que me observa na escola é encantadoramente sutil. Um pouco tímido e inseguro. Mas tal personagem deve ser trabalhado com toda a seriedade ( e serenidade) de um poeta.
O estudante de Filosofia que visita a sebo da esquina nos dias de sábado daria um belo professor. O filho do dono da sebo é um menino desligado. Mas sua namorada, com os cabelos mais brilhantes que os da Madonna, parece estar ligada na tomada. eis um paradoxo.
Há o professor de francês, que todas as manhãs vai à biblioteca. Há a garçonete sorridente e atenta do restaurante do português, há o próprio português…
E eu só listei alguns. O que não me falta, para um primeiro livro, são pessoas que estejam disponíveis a protagonizá-lo. Nem que seja ocultamente, da forma mais sutil possível, na visão e no papel de um personagem.
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