Fora da ciranda (de pedra)

(Ao Pedro Lins)

A valsa ecoava, solene. Os sons da minha infância ainda estão bem nítidos. Os casais já estavam formados, mas eu observava apenas. Era somente o ensaio para a apresentação teatral, mas todos faziam festa, sem levar em consideração o compromisso pendente.
Eu estava ali, Pedro. Eu estava sentada no parapeito da janela a ler um livro. Eu estava ali e você, vez ou outra, oferecia-me doces de uma bandeja qualquer. Eu estava ali e observava você dançando com minha irmã, valsando com ela, apertando sua cintura, soltando seus cabelos, gastando-lhe as sapatilhas.
Eu estava ali, Pedro. Eu estava lendo um romance inglês. Eu estava me controlando para não chorar, para não desistir e sim resistir ao impulso de demonstrar-lhe que eu estava ali. Eu queria que você me concedesse àquela valsa. A cena se repetia noites inteiras, mas você sequer se preocupava em notar minha presença ou meu desespero. Eu só tinha treze, você quase trinta. Você era o mais velho de nós (ou daquele grupo que jamais pertenci), estava na faculdade de Filosofia, tornara-se responsável. Eu menos de quinze e você pouco mais de vinte e cinco. Havia aquele homem triste que sentava no canto da mesa, amigo de papai. Havia aquela menininha gorda que dançava sozinha e se sentia feliz com isso. E que vez ou outra furtava um docinho que estivesse próximo.
Você me perguntou naquela carta se fiz amigos, pois sempre me encontrava sozinha, em meio aos livros. Achava minha infância solitária, triste. É, respondo-lhe sinceramente que não mudou em muita coisa. Há um grupo de meninas em minha escola ao qual pertenci no início do ano por pura conveniência. deve-se lembrar de Emily, a de cabelos cacheados, você a viu certa vez, quando foi me buscar no jardim de infância. Mas não vai recordar Úrsula, acho até que jamais chegou a conhecê-la, quando eu estava no ginásio. Enfim, aquele era o grupo dos sonhos e eu só estava lá porque as conhecia desde muito antes. E só. Não havia nada que nos ligasse de forma mais concreta, mais real. Era, na verdade, um sonho bobo de adolescência, de pertencer a algum grupo. De adotar um estereótipo que fosse atraente para divertir a turma. Mas esteja certo de que nada deu certo. Minha vida social é inativa. Quando ando com essas meninas, caminho lentamente, logo atrás, prestando atenção em suas conversas fúteis e desprovidas de meu interesse, só ouço porque não há nada para se fazer. Fora estudar, a escola torna-se entediante em certos momentos. Sento-me então na escada da biblioteca e consolo-me lendo muitos livros. Ajuda bastante na solidão.
Um desses livros foi Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles. Você não deve saber,mas aqui no Brasil, a rede Globo está exibindo uma adaptação do livro no formato de novela das seis. Como não acompanho o enredo televisivo, ponho-me a ler esta obra. Mas não foi esse o real motivo. Você não sabe, mas certa vez ouvi atrás da porta do escritório de papai, uma conversa sua com minha irmã. Dizia que minha introversão era de nível preocupante. Como você estava lendo o livro na época (e acho que minha irmã também) comparou-me a menina Virgínia, que andava na ponta dos pés e queria fazer parte daquela ciranda formada por membros de sua família e alguns amigos. Sim, Virgínia, a caçula, desajeitada e cheia de perguntas. Lembro bem dessa cena. depois dele, inclusive, muitos passaram a me tratar bem (obrigada), passaram a tratar-me como alguém, e não como “Nina pequena”, a “bonequinha”, a “mascote da turma”. Mas era pena. Faziam isso apenas porque você havia pedido. E pena não é amor.
Como vê, ainda não pertenço a essa ciranda (de pedra). Não pertenço a um círculo definido, porque sempre estou voltada a outros assuntos. Agora, depois de tanto tempo, você me envia uma carta. Decifro-te Afonso ou Conrado. Agora, na verdade é tarde demais para entender ou tentar mudar. A valsa ficou para trás, o passado enterrado está. Até breve.

“Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim
E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim…
Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim
Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos Bandolins…”
::Bandolins – Oswaldo Montenegro
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