A praça do poeta

É intocável. E quase pouco notável nos dias de hoje. Mas ele está ali, declamando versos com a mão estendida apontando e abençoando o mar da Bahia. Ah, só mesmo quem mora aqui pode compreender!
Sentia inveja de Copacabana: Drummond está lá, magrinho e franzino, meninão mineiro de costas para o mar. Vendo a vida passar e o Rio de Janeiro evoluir, dia após dia, ele nunca sai de lá.
Sentado, olhando para o lado. E o poeta daqui está de pé, vejam só! Certa vez, aos cinco anos, perguntei à mamãe: “Mas ele não fica cansado?”, ela riu e me explicou: “É só uma estátua, Nina!”
Não. Não é somente uma estátua. O nome dele é o nome da praça, aquela praça é sempre citada em época de Carnaval. Meu caro poeta, boêmio que só ele, parece gostar dessa comemoração ativa e tradicional.
É maravilhoso. Adoro a rua Chile pois, mais à frente, encontro a antiga sede do jornal A Tarde, é um prédio tão antigo! Mas é belo. Algumas janelas estão quebradas, é verdade, suponho que tenha sido vandalismo. E o tempo também contribuiu para o desgaste, afinal, o prédio fora construído no início do século passado e já está desativado há mais de cinquenta anos, antes mesmo do regime militar.
E o poeta está lá. Basta fazer um movimento de cabeça para poder vê-lo do outro lado da rua. Mas o encanto termina ali. O que vem depois é o comércio e as banalidades de um caos urbano na Avenida Sete de Setembro. O que vem antes daquela praça é todo o lirismo do Pelourinho, da Prefeitura, Câmara de Vereadores, Palácio Rio Branco, Edifício América… Construções modernas e outras que me remetem a um passado distante e inócuo, visto apenas em fotografias e relatos dos que já se foram.
Aquela praça, porém, é o que oscila na paisagem sutil. É o paradoxo e o fim do que se pode chamar “felicidade”. É um momento só meu, é o que vou recordar de saudade se um dia, por ocasião do destino, precisar ir embora.
É ali que quero estar pouco antes de morrer. É ali, eu quero ver. Eu quero ver o poeta abençoar minha cidade. Eu quero ver o mar e o céu da Bahia pela última vez. Eu quero fechar os olhos e chorar. Depois vou abri-los, para que no último momento, eu possa ver a mão de Castro Alves sobre minha cabeça e minha alma que também se iguala ao coração de um poeta.

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