O problema não sou eu

“O problema não é meu
O paraíso é para todos
O problema não sou eu
O inferno são os outros”
::O Inferno São Os Outros – Titãs

Eleições 2008. O cotidiano do povo brasileiro muda de acordo com a propaganda eleitoral e o horário que ela exerce. Se isso aqui fosse democracia de verdade, existiria um canal de graça só com propaganda política repetindo e repetindo o dia inteiro. Assistia quem quisesse. Desse modo, o Jornal Nacional não seria interrompido e o SBT, quem sabe, passaria mais um pouco daqueles seriados gringos com gostinho de fim-de-semana. Mas o que devo fazer entre oito e meia e nove horas?
“Desligue a TV e vá ler um livro” me pareceu a resposta mais convincente. Enfim, volto ao hábito de pegar um livro na biblioteca do colégio e ficar uma semana com ele, inteirinho, só para mim. Às vezes leva menos tempo – quando se trata de um livro de crônicas, consigo devorar em um dia, ou em uma noite. É só não ver novela e filme, acabo rapidinho.
O fato é que eu já passei dos quinze anos e já nem tenho todo aquele vigor e expressão política que tinha há… pouco menos de um ano atrás (quando tinha quinze). Cansei de defender ideais ou de gastar minha voz na aula de Filosofia e Ética na Sociedade Atual (aula esta que eu sou convidada a assistir na faculdade, de vez em quando). Naturalmente, como caçula, mascote da turma, fica difícil alguém acreditar que eu possuo “tanto interesse no assunto”. Mas enfim, isso não vem ao caso no momento.
De uns tempos para cá, tenho desistido de muita coisa que, até pouco tempo atrás, fazia algum sentido na minha vida. Eleições, por exemplo. Política nunca foi o meu assunto preferido, mas eu discutia, era até boa nisso.
Lembro-me de que, ano passado, conversava com um amigo (jornalista, por sinal) e ele me fez a seguinte pergunta:
-Vai votar ano que vem? Tá na hora, e você assim, tão feminista…
-O que te leva a pensar que vou me dar ao trabalho de caminhar no Pelourinho em dia de domingo com diversos panfletos de candidatos depravados jogados ao chão, me dirigindo, respectivamente talvez, ao Palácio Rio Branco a fim de cumprir meu dever de cidadã?
Ele ficou perplexo, sem resposta e eu prossegui:
-É claro que vou votar ano que vem. Mesmo tendo dezesseis, farei questão de mudar o país!
Defendia os de esquerda, detonava os de direita. Às vezes o contrário também acontecia, mas muito raramente.
Mas hoje me limito apenas a assistir aos debates que, vez ou outra, uma emissora de televisão decide fazer (ao vivo, é claro). Mas esses mesmos debates (políticos, lembremos), tem servido muito mais como motivo de riso do que algo que deve ser digno de audiência. De debate de pessoas civilizadas, acaba virando circo. E de circo, acaba acontecendo um teatrinho digno de exibição no programa da Márcia Goldsmith! Onde “a verdade tem que ser devidamente apurada”.
Ataques aqui e ali. Os candidatos criticam a administração do atual prefeito que, por sua vez, pretende ser reeleito.
Um já foi apontado, três vezes, como o melhor prefeito do Brasil (dois de seus governos foram aqui, em Salvador). Obviamente, ele não deixa ninguém se esquecer. Mas faz questão de frisar um outro fato: O atual prefeito de Salvador foi apontado como o pior do Brasil, segundo o jornal “tal”.
O petista causa briguinhas insignificantes aqui e ali. Cava o passado de cada candidato, típico ato de quem não tem proposta bem resolvida e quer mesmo confundir o eleitor dizendo: “Eu sou o melhor, eles que erram, votem em mim!”. Coisa de criança mimada procurando birra só porque não conseguiu o que desejava. O resultado é procurar o colo de outro partido. Não foi isso que o senhor fez Pinheiro? Ameaçando ir para o PSOL?
“A Salvador do século XXI” é o grito de guerra do meninão ACM Neto. Sim, mais um do império “terninho-e-gravata” exercido há mais de trinta anos pelo patriarca da família Magalhães: ACM, o legítimo que fez muito, muito mesmo pela minha cidade adorada. Mas um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Quem garante que ACM Neto vai ser o clone do avô? Ele mesmo? Hahaha, faça-me rir. Ele é quem tem propostas menos convincentes. Apenas se vangloria do nome (e sobrenome) que herdou. Parece ser o suficiente? Claro que sim! Ele vai pro segundo turno e vai ganhar. Está escrito.
O candidato do PSOL nem sequer pode ter esperanças. É o último dos últimos nas pesquisas de ibope (vox populi, como gostam de chamar) e não tem chance alguma de subir. Porém, suas propostas tem algum fundo de objetivo. Esse não brincaria em serviço.
Mas também fico com um pé atrás. Não confio em ninguém, muito menos nesses senhores que prometem, prometem e sabe-se lá Deus se vão cumprir. E o discurso se inicia: “Quando eu for eleito…”
Tenho dezesseis. Iria fazer este ano o meu título, mas desisti à tempo e não me arrependo disso. Votaria em branco. Aliás, o Brasil – e os políticos – só vão tomar vergonha na cara e consciência quando perceberem que metade da população nacional votou em branco. Seria um sonho pra alguém como eu, que ainda tem um pingo de esperança, mas não vai acontecer.
Enquanto isso, ou depois disso, quatro anos vão passar e eles continuarão a acreditar que “O Haiti não é aqui” com típicos bordões e frases de efeito como: “Não fui eu, eu juro!” e “Mas eu nem tinha conhecimento do ocorrido!”
É. O inferno são os outros.

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