Ao meu maior acaso

Oi, lembra de mim?

Olhei para trás e vi você. Na fila do cinema. É claro que eu me lembro. Já faz quase quatro anos, não é verdade? Nossa… eu era bem novinha. Devia ter onze ou doze anos. Não que muita coisa tenha mudado. Ainda sou uma menininha.

Era dezembro de 2005. Faltavam duas semanas para o Natal. fazia frio, já era noite. Tomei aquele ônibus a fim de voltar para casa. Não havia sido um dia fácil e os meus olhos, cansados, escondiam também algumas lágrimas derramadas em silêncio. Não me ocorre a necessidade de contar-lhe o que ocorreu, mas eu queria muito que aquele dia terminasse logo.

Daí olhei para trás. Como fiz agora à pouco. Você me observava. atentamente. Por quê? Parecia querer dizer alguma coisa. O que era? Me conhecia de algum lugar? Já tinha me visto?

Não me lembro da cor dos teus olhos, quatro anos se passaram e alguns detalhes me fogem da mente. O brilho se perdeu, de modo que agora tudo é preto e branco. Me recordo apenas de breves traços. Mas o seu olhar foi enigmático, foi o primeiro. Parecia indagar-me qualquer coisa. Quando, na realidade, era eu quem questionava. De onde você veio? Por quê prestava atenção logo em mim?

Desviei. mas vacilei. Me voltei e repensei. Recordei. Tentei puxar lá do fundo da memória. Não vinguei. Não sabia mesmo quem você era. então sorri de minha bobagem. Você sorriu de volta, também encabulado. Já olhou para alguém e sentiu que conheceu essa pessoa em algum outro lugar? Ou de uma outra vida? Parecia um dejavu

Eu senti isso. Mas deixei para lá. Meu ponto chegou. desci. Parti. Ainda vi você me espiando da janela. Estava deixando ali um mistério. Uma parte de mim, sensação de futuro incompleto. Caminhei. Voltei para casa. dormi e sonhei. Porém, já conformada com o fato de que nunca mais poderia te ver novamente. Me enganei.

Na semana seguinte, foi a festa de fim-de-ano da escola de música que eu estudava. Você chegou quase no fim mas de primeira olhou para mim. Surpreso. também me surpreendi. Confesso. E sorri. Você retribuiu. Acaso?

Foi mesmo por acaso. aquele nem era o meu turno. Tampouco a minha festa. Era a comemoração do turno vespertino e acabei sendo convidada porque estava ali desde a manhã. E você foi. Perguntei a pessoa mais próxima:

-Olhe discretamente e me responda: Quem é aquele que está ali na porta?

-Chama-se D.B., é músico e francês. Toca flauta búlgara. Tem vindo aqui há duas semanas.

-ah, então era sobre ele que vocês haviam mencionado na aula passada?

-É sim.

-Pois é. ele veio aqui, mas eu não estava. E agora nos encontramos.

-Do que você está falando? De destino?

-Quase isso. É só acaso.

E silêncio. Misturado a arrependimento, talvez. Sim, me arrependo de ter passado por aquela porta e não ter falado contigo.

Ainda encontrei você. uma última vez. Dia chuvoso, quase ano-novo. Você vestido numa capa preta. Guarda-chuva de mesma cor. Eu, voltando da escola. Sorri. Você também. acabou ali.

Da única informação que coletei ao seu respeito, uma amiga contou-me que você chegou a dar aulas de música no colégio que estudo hoje. Mero acaso.

Os dias passaram e eu procurava nas ruas a sua presença. em vão. As semanas voaram, os meses… Um ano passou. Dezembro de 2006, mais uma festa de fim-de-ano, com a leve diferença de que você não estava lá. Saudade. Saudade do que nunca existiu, do que não foi dito ou tocado.

Quatro anos.

Oi, lembra de mim?

Esperança misturado a brilho. Pensava em você naquele exato momento. Olhei para trás e vi… aquele guri do colégio, da época do ginásio. Não era você. Mas queria que fosse. poderia ser, não

poderia? Por quê você foi o meu melhor personagem e o primeiro também. Um segredo, uma imagem que me foge da memória, está quase indo embora. espero. saudade.

Acaso.

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