Ter 16 (aos 16)

(Em especial para Jean Piter Inzaghi)

É difícil falar da vida quando se tem dezesseis anos. É difícil defini-la ou inventá-la. É difícil afirmar que já se teve um grande amor, visto que a expressão de todos ao meu redor é de dúvida e desconfiança. é difícil ser tratada como “gente”, quando se está nessa transição, esse pacto/ritual de passagem para a vida adulta que é a adolescência.
É muito fácil isolar-se e compreender que aquele (esse?) mundo não é o meu. Ou que não vou me adaptar. É muito fácil encontrar refúgio entre quatro paredes de uma casa cujos conflitos são muito maiores do que o existencialismo lá de fora. É muito fácil afogar-se na escrita. É um privilégio, um êxtase. Mas não cura. Palavra magoa, machuca, mata. E tudo que escrevo é desabafo de inquietação. Não acho que tenho um dom, tenho sonhos. Os sonhos são minha fonte de inspiração. Minha fuga, pois é o que me guia. Do contrário, já teria desistido há muito tempo (de viver).
É difícil encontrar ouvintes que estejam dispostos a escutar as queixas ou os versos de uma precoce. É difícil achar leitores que abram os olhos para um suposto talento. As pessoas descartam os sonhos de outrem com muito desprezo. Como breve exemplo, tenho um pai que vive para os números e o dinheiro. É difícil ser filha de alguém assim. É difícil ser pai de alguém como eu. É difícil compreender os dois lados da história.
Esse envolvimento literário que possuo é fome de crescer. Agora, mais do que nunca, apenas crio coragem para reunir crônicas e publicar um livro, embora não acredite ter capacidade de colecionar muitos leitores.
É difícil ser criança e tentar crescer nessa terra de gigantes, em um lugar em que o massacre e a ignorância são motivos de superioridade. É difícil ter voz aqui. E a minha permanece rouca. Um fio de voz que ecoa na multidão.
Você consegue ouvir?

Anúncios

2 respostas em “Ter 16 (aos 16)

  1. Pingback: Ensaio sobre a beleza (interior) « sobre f a t a l ismos

  2. que texto lindo.

    Eu estava vendo umas crônicas suas antigas e encontrei essa
    Que profundidade. Impressionante.

    “Diga a ela que fiquei extasiada pela bela mesinha que pintou” (trecho do filme “Orgulho e Preconceito”)
    (estou me referindo a vc!!!)
    espero que tenha entendido
    mesmo demorando tanto para ver essa obra de arte, espero que vc saiba e leia o meu comentário.
    bjs

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s