Não me arrependo

“- Mas por quê você decidiu começar a peça com a frase: ‘Eu não me queixo’?
– Porque talvez esse seja o início de um livro de memórias que jamais escreverei.”
::Marília Gabriela, em entrevista ao Programa do .

Eu não me arrependo. Possivelmente esta seria a frase inicial de um livro de memórias que eu também jamais escreverei. Não me arrependo das escolhas mal feitas (aos olhos alheios) porque todas me pareceram sensatas, mesmo que hoje eu pense que deveria ter feito aquilo de uma outra forma. Não me arrependo de ter demonstrado admiração em vão. Nem de ter odiado aqueles que hoje são consideravelmente queridos. Não me arrependo dos sentimentos não-declarados às pessoas que amo, ou da falta deles para os que sempre estão presentes. Não me arrependo de não ter chorado no enterro daquela senhora que a vida inteira me criou, pois depois muitas lágrimas foram derramadas quando estivemos sozinhas. Eu aqui e ela há sete palmos. Não me arrependo de ter passado as férias lendo todos (eu disse t-o-d-o-s) os livros de Machado de Assis e Fernando Sabino. Não me arrependo dos absurdos que disse ou dos que deixei de mencionar. Nem dos elogios travados ou exagerados. Não me arrependo da insensatez, da falta de sensibilidade ou do excesso de ambas. Não me arrependo das surras que levei, muito merecidas por sinal. Não me arrependo dos “nãos” que dissera outrora, nem dos poucos “sims” que nunca sairam de minha boca. Não me arrependo dos fracos que já fiz chorar ou dos fortes que me trataram do mesmo modo. Não me arrependo do orgulho, da mediocridade de minhas ações, das declarações não feitas, dos sonhos não realizados e de meu comportamento. Não me arrependo do passado imperfeito. Do ontem ou do amanhã. Das decisões, das contradições. Dos erros, pequenos ou grandes. Dos acertos mínimos. Do maior dos erros: O de nunca ter dito “eu te amo” para quem merecia. Não consigo. Achava que essa coisa do “não me arrependo de nada que fiz, apenas do que não fiz” era real. Mas à mim isso se aplica com total inexistência. Não consigo me arrepender do que me dá identidade. Nem creio que me arrependerei no Juízo Final. Eu vou mesmo para o inferno.

“Eu não me arrependo de você
‘Cê não me devia mal dizer assim
Vi você crescer
Fiz você crescer
Vi ‘cê me fazer crescer também
Pr‘além de mim…”
::Não me Arrependo – Caetano Veloso
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