A escrivaninha de Machado de Assis

Ali estava a polícia no local do crime. A popularidade do antiquário do velho italiano só poderia dar em assalto. E essa já é a quarta vez em dois meses.
-Dessa vez foi a escrivaninha! A escrivaninha!
-Que escrivaninha? – Perguntaram alguns.
-A do Machado! A do Machado!
Sim. Dizia o velho possuir há anos a escrivaninha de Machado de Assis. Um móvel já gasto, porém muito querido. O único que ele preservava naquele antiquário. Aquela escrivaninha tinha história.
Conta-se que o bisavô do italiano, quando ainda jovem veio ao Brasil, havia presenciado a morte do escritor, por ter sido um dos criados de sua casa. A mesma precisou ser desapropriada após o falecimento, e os criados – muito mal-criados, por sinal – com medo de nada receberem, foram furtando aos poucos algumas peças da casa. Mas o bisavô do italiano, bom homem, quis preservar o lugar preferido de seu patrão, levando a escrivaninha consigo.
-É herança de família! – Berra o velho italiano.
Era uma herança furtada, de fato. E ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, diz o ditado. Talvez essa tenha sido a filosofia atribuída ao criminoso, nunca se sabe. Mas não foi o pobre do italiano quem levou a escrivaninha para si.
A autenticidade da relíquia também reclamava sérias suspeitas. Mas o velho faz questão de comparar as fotos de Machado sentado ao lado da escrivaninha com a dita cuja que ele possuía na lojinha. Eram idênticas.
O velho italiano estava mesmo muito velho. Mais velho que suas preciosidades ou as histórias do bruxo de Cosme Velho. Velhice lembra caduquice. E a polícia, convenhamos, não é de perder tempo. No último roubo haviam levado a cadeira que fazia par à escrivaninha. O italiano chorara dias e o caso não fora solucionado. A polícia pediu que o velho aguardasse novas notícias. Nesse dia ele não abriu a loja, mas ficou lá dentro trancado, olhando da janela a vizinhança, na esperança de que alguém devolvesse seu tesouro.
Ás seis da tarde ele finalmente saiu. Foi levar o lixo para fora e, dentro da grande lixeira, encontrou pedaços de madeira que ele conhecia – e muito bem.
-Mio Dio!
Levou as mãos à cabeça em saber se ria ou se chorava: Encontrara a escrivaninha, porém, ela estava completamente em pedacinhos. Tinha sido vandalismo, com certeza.
O que se soube depois disso é que o italiano fez as malas, fechou a loja e voltou para a Itália. Deixou apenas uma vitrine aberta, para quem quisesse levar suas últimas preciosidades: O estilingue de Fernando Sabino e os óculos de Carlos Drummond de Andrade.

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