Em 68

( Minha amiga Luísa Marcelle pediu que eu escrevesse um texto que falasse sobre o ano de 1968, sem perder o lado pessoal de uma determinada personagem que ela representa no teatro. O texto a seguir é quase uma carta. )

Em 68, depois da nossa briga, senti-me suja, coberta da imundície de uma discussão sem fim. Pedi que você esperasse um pouco, eu queria lavar minha alma para que este corpo que outrora você possuiu estivesse limpo e virgem de novo, para fazermos as pazes. Pedi que você esperasse no quarto, como de costume. O que iria acontecer depois você já previa.
Mas quando a cortina foi aberta, no espelho vi sua mensagem escrita por um batom vermelho, aquele que eu usava para que você me fizesse gueixa, ninfa, sua. Estava lá a palavra “J U D A S”, o nome da traição. Corri até o quarto, dei pra mal dizer o nosso lar, queria sujar teu nome e te humilhar. Talvez me vingasse a qualquer preço com o intuito de me fazer novamente tua.
O quarto revirado, gavetas retiradas, travesseiros rasgados. Meu ímpeto de ir procurá-lo. Voltei ao banheiro, vesti uma toalha, encarei outra vez o espelho. Meu novo nome ali estampado no banheiro da minha casa, na cidade do Rio de Janeiro, cujo estado sofre mesmo nome, aqui no Brasil, América do Sul, do hemisfério sul, cujo mar de Copacabana é oceano atlântico do planeta Terra, ponto azul e distante do escuro universo.
E desse escuro universo, do planeta Terra, oceano atlântico, hemisfério e América do Sul, Brasil, Rio, minha casa, meu banheiro… Desci as escadas à sua procura, e ouvi gritos lá da porta. Hesitei um instante enquanto você gritava meu novo nome. Foram rápidos os militares que eu chamei para prenderem mais um jornalista comunista bastante procurado que, na época, em 68 ( lembremos ), foi traído por uma amante cortesã como eu.

“Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim.”

::Tango de Nancy – Chico Buarque

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11 respostas em “Em 68

  1. Muito bonito o texto.
    Uma parte dele até me lembrou uma música da Elis Regina, Atrás da Porta.

    Beijo!

  2. Cruel! Mas me lembrou as histórias machadianas pela beleza em trabalhar com as palavras.
    Bjo

  3. Gostei muito, como ando estudando ditadura incansavelmente, meio que já previa o final.
    Beijos

  4. Agora sim. Nao estava conseguindo acessar o teu blog.

    E o texto é phodástico. Gostei do jeito como ele nasceu. E queria ver a tal peça da tal personagem.

  5. Oi Nina,

    gostei do texto contextualizado. Pude sentir o ar de 68 e toda aquela briga política que se instaurava pelos cantos do Brasil e América.

    só achei o texto curto; você poderia ter explorado mais, prolongado mais a história que começou tão bem, mas deixou um gosto de reticência. Taí, sugiro que você faça a parte 2. Que tal? rs

    Um beijo pra você;

  6. Nina, definitivamente você me surpreende a cada texto. E esse ficou belíssimo. Colocar em palavras o ar de 68 numa história assim é difícil. Ficou envolvente. Só achei exagerado a parte que tu vai do “Brasil” até o “distante escuro do universo”. Achei irrelevante. Fora isso, o texto ficou lindo.

    Grande beijo Anjo.
    Te adoro.

  7. Pingback: Futilidades cômicas da década de 90 « sobre fatalismos

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