Todo carnaval tem seu fim

Sentei no lugar mais tranquilo da cafeteria: Caderno na mesa, caneta na mão. Pessoas ao redor. Inspiração poderia ter a qualquer hora, em qualquer lugar, mas fiz tudo de modo planejado. E na maioria das vezes, pelo menos em minha vida, planos simples não costumam dar certo.
Tédio. Queria escrever, mas é Natal. Queria esquecer essa data, mas ainda continuará sendo Natal. Não tem como mudar isso.
Vou lembrando aos poucos de festas de outrora, anos atrás. Nunca tive um Natal ruim, péssimo. Mas nem todos foram bons ou ótimos.
Uma vez tio M. levou vinho e champagne. Fora os tantos chocolates que me deixaram lambuzada, o rostinho sujo, as repreensões de mamãe. Eu devia ter quatro anos. Naquela época o Natal era mais sofisticado. Era sempre em nossa casa, no tempo em que papai tinha amigos e gostava de convidá-los para a ceia.
Houve outro, neste eu já teria seis. A chuva caía lá fora e vovó me levou até a janela. Ela tinha aquela mania de imaginação. Pedia que eu fingisse que estava em Londres e que os pingos da chuva eram flocos de neve. Mas os meus poucos conhecimentos geográficos não identificavam Londres. Tampouco sabia muito de lá. Mas vovó sabia. Sabia e sentia saudade. Mais tarde pude entender que ela se sentia presa naquela casa, queria voltar a ser jovem, aos sonhos e bailes.
Eu gostava muito de preparar a ceia com mamãe. Cortava o panetone em fatias e deixava sobre a mesa para quem quisesse pegar antes do peru. O peru sempre atrasava. Passava da meia-noite. Eu queria ir para a cama, mas Papai Noel não deixava. Eu queria vê-lo chegar, mas o meu pai dizia que ele só chegaria se eu estivesse dormindo. Mas eu nunca dormia. Nem depois da ceia. Simplesmente me sentava na frente da árvore decorada e assistia a televisão – aqueles especiais de Natal – ficava vendo aquele filme do quarto rei mago que todos os anos a Globo exibe na madrugada do dia 24. Ficava assim até dormir. Acordava, obviamente, com todas as caixas de presente à minha volta. E um brilho no olhar que não tinha preço.
Eu era uma criança, uma menina. Ainda possuía a inocência que o Natal exigia. Por muito tempo Natal foi sinônimo de esperança e ansiedade. Eu pedia presentes, mas pedia muito mais que os sonhos de todas as crianças do mundo se realizassem.
Em um Natal, eu sonhei com o Peter Pan. Mas já tinha catorze anos. Meu presente foi o primeiro sutiã. Então Peter veio pedir que eu não crescesse. Não deu certo. Sou mais amiga do Gancho que qualquer outra pessoa. Ainda gosto de histórias com piratas, mas o menino da Terra do Nunca já deve estar à procura de outra Wendy.
Com esta última lembrança, ainda recordei o fato de que todo carnaval tem seu fim. Sabedoria popular à lá Los Hermanos. Natal também termina, ou pelo menos a magia dele.
Mesmo em família, sinto-me sozinha e distante nessa época do ano. É que existem apenas doi grupos em minha família: O das crianças e o dos adultos. Não há um meio-termo para mim. Então dedico metade do meu tempo às discussões retrospectivas e a outra metade para as histórias de piratas que os pequenos tanto adoram. Este caderno ainda tem bastante folhas. Vou inventar mais algumas.

*Em suma, feliz Natal!

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6 respostas em “Todo carnaval tem seu fim

  1. Natal pra mim não significa mta coisa além de consumismo exagerado e matança de perus, coisas que eu abomino. O real significado da data parece ter se perdido pra maioria das pessoas… embora na minha família a gente sempre faça questão de lembrar durante a festa.
    Em casa sempre teve presentes, ceia e Papai Noel. É uma época que a gente espera com uma certa ansiedade e mtos preparativos pq vem todo mundo que mora fora… e ironicamente é bom qdo acaba!
    Beijo

  2. Discussos retrospectivas são sempre melhores. Quanto ao natal, que bom tenha fim. Já não gosto mais de fim de ano, natal, reveillon e essas coisas. São puramente chatas. É a época mais hipócrita no mundo e ainda por ser a data de maior valor comercial, junto com o dia das mães. Quer dizer, ninguém liga a mínima pra essência, pra magia e essas baboseiras. O pessoal só pensa em fazer sua boa ação de graças, e dar e receber seu presente de fim de ano e natal.

    Aí vem o novo ano e tudo volta como antes no quatel de abrantes. As pessoas parece que vivem apenas um mês pra propagar coisas boas, generosidade e blá blá blá. Pura hipocrisia…

    Simplesmente acho natal uma perda de tempo. As pessoas deviam ser assim todos os dias. Mas é ilusão pensar assim… eu não sou e jamais vou ser algo que não sou em um dia. não sou hipocrita a ponto de praticar algo que não me sinto confortável em fazer…

    Tem que ser sincero e espontâneo.
    Mas essa magia é que todos esqueceram…

    Grande beijo
    E feliz 2009 meu anjo.
    ;)

  3. Adorei, pra variar!
    Eu também gosteva mais quando eu era criança.
    Hoje ando na turma dos adultos que bebem vinho!
    A questão é que ainda sou o “Piter Pan”, e sinceramente, não quero crescer.

    beijos querida

  4. Continuas a deixar os teus leitores colados ao ecrã a desejar que o teu texto não tenha fim porque sabe bem ler o que escreves.
    O Natal é das crianças, houvesse esta frase todos os dias nesta época. Só elas ainda conseguem ver a magia que envolve estes dias, só elas vibram com a chegada do Pai Natal. Para nós, crianças mais crescidas o Natal passou a ser uma obrigação para gastar dinheiro, uma época em que gastamos o que temos e o que não temos para fazer a nossa parte. Será que um simples presente junto com um abraço não deixaria o mesmo brilho nos olhos daquela criança?
    Natal é cada vez mais sinónimo de negócio. Infelizmente!

    Seja como for desejo-te um Feliz Natal ***

  5. Se eu tivesse que decidir entre ficar no meio dos adultos ou das crianças, eu com certeza escolheria o das crianças. Uma vez nas minhas férias estava na casa da minha avó, só com os primos pequenos e os tios. Não estava mais com vontade de ouvir aquela “fofoca familiar” e fui brincar com as crianças de dançar, de quadrilha… Lembro-me que ri até doer a barriga e as bochechas, foi tão bom!
    Bjitos!

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