Opressão

Dentro de minha casa, existe um mundo particular repleto de sonhos coloridos do qual só eu posso assistir. É que quando a liberdade é mínima e a opressão máxima, a tendência é inventar um universo paralelo que me faça esquecer a decadência de fora.
Em casa eu já fui tratada como prostituta quando saia de casa com uma maquiagem mais elaborada e voltava depois do “toque de recolher”, que se programava antes mesmo do pôr-do-sol. Eu olho para toda essa gente desacreditando na juventude que tiveram. O meu pai é um sobrevivente do AI-5 e eu sou uma filha de 68. Porém, ainda assim sou submetida a uma ditadura imposta por um sobrevivente da mesma! Como ele pode se comportar como um Hitler se já foi uma vítima da opressão?
A maioria dos pais criam os seus filhos para o mundo, para que assim tenham vida própria e formem os seus próprios pensamentos. Mas a minha família de supostos libertários sofridos demonstra lidar com seus filhos de maneira muito tradicional. E por que não dizer também – medieval. Nas mãos deles devo ouvir a todas as críticas e mal-dizeres muito bem calada, afinal, como eles fazem questão de frisar: EU SOU UMA PROPRIEDADE DELES, como se eu fosse um produto ou um imóvel que estivesse à disposição de seus donos. Eu não devo levantar a voz (voz? que voz? será mesmo que eu tenho isso?) para expressar opiniões porque ninguém irá ouvi-las, obviamente. Logo, os meus direitos são inexistentes e os deveres, absurdos. O que eles ganham com isso? Orgulho, talvez. A sensação de estar no poder, como autoridade máxima deve ser ótima mesmo. “EU MANDO EM VOCÊ!”, é fácil ouvir isso com frequência por aqui. Eles mão sabem, mas a cada briga, crítica e discussão, eles me perdem cada vez mais para aquele universo paralelo que eu posso adentrar a qualquer momento, bastando apenas pular da janela ou fazer as malas e sair de casa. Afinal, nessa proteção excessiva, sequer a Lei que deveria estar do meu lado se preucupa em mover uma palha. O que me resta? Esperar pela carta de alforria que vem aos dezoito anos! Bah! Até o exílio para o Inferno seria o melhor para mim.
Há quase dez anos eu desconheço o abraço do meu pai. Ou um carinho, uma palavra de afeto. Mas as críticas, os xingamentos, eu guardo na memória. As infinitas acusações como se eu fosse uma criminosa que roda bolsinha, fuma maconha ou pega dinheiro escondido da carteira deles, isso eu sei de cor.
Essa falta de compreensão familiar reflete e afeta o meu comportamento social. Afasto as pessoas que mais amo na vida, porque tenho medo de que elas vejam em mim o que os meus pais vêem. Tenho dificuldades para me relacionar com alguém, temendo obter a mesmíssima rejeição que tenho deles. E nem sequer posso confiar na minha escrita porque, segundo eles, é inútil e não dá lucro.
Eu faço planos para o futuro em vão. Eu sei que nunca vou fazer a faculdade que quero ou encontrar alguém que me tire daqui e que me ame de verdade, com toda a lealdade e confiança que eu deveria ter em mim mesma. Porque, por mais que eu peça, implore e me martirize, nenhuma força superior ouvirá minhas preces, pois a verdade é que eu sou egoísta, mal-agradecida, mimada e incapaz (e até Deus deve pensar isso de mim, não é mesmo?).
Porque a minha vida é um buraco negro, um círculo vicioso apontado e direcionado sempre aos erros, à infelicidade e à falta de amor.
Porque tudo que eu mais quero é amar e mais nada além de ser amada. Mas parece que pedir isso é querer demais, e querer não é poder. Porque eu sempre vou amar excessivamente o homem errado, até aprender, que a razão da minha vida é caminhar sozinha por lugares estreitos e cheios de miséria, em busca de paz e equilíbro, mas sempre encontrado pedras e muros altos no meio do caminho.

“Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão.”

::Tigresa – Caetano Veloso

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6 respostas em “Opressão

  1. Olha… Seus 18 anos estão próximos.
    Faça uma forcinha pra aguentar, e depois, saia, sem olhar pra trás. Pais merecem nosso respeito sim, mas quando são compreensivos e amigos e enxergam nosso lado. Do contrário, não sei pq se deram ao trabalho de ter filhos.
    Vamos contar os segundos pra sua liberdade!
    Beijo

  2. Não sei bem o que dizer. Gostaria de estar ai para te dar uma abraço. Não desista da vida nem de seus sonhos. Não antes de tomarmos um cáfé juntos. Espere um pouco…

    Grande beijo e fique bem.

  3. Também não entendo esse tipo de comportamento: gente que foi oprimida e acaba oprimindo também.

  4. “Eu não devo ser normal”

    rs

    Claro que respondi ao meme que você me indicou. Está lá.

    beijosbesosandkisses…
    dear

  5. Não sei a veracidade e se for, qual a relação que você tem com seus pais, mas se está realmente se sentindo assim, converse com eles.
    Eu sei o que você está dizendo e talvez eles não enxerguem os erros ENORMES que estão cometendo com você.
    Bjitos!

  6. Tenho 22 anos e meus pais ainda pegam em meu pé. normal. não mostrar afeto não é um luxo de seu pai. Meus pais não tem coragem de dizer:Te amo, pra mim, mas eu sei que eles me amam, eu também não tenho coragem de dizer. Mas, amor nem é pra ser dito mesmo, é pra ser demonstrado. E quando seu pai te proíbe de alguma coisa é pq ele tem medo te perder, é pq ele te ama.

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