A Felicidade

(Linda crônica de João Paulo Cuenca para a décima edição da revista Gloss.)

Felicidade é quando nossos pés descalços afundam na areia, e nos beijamos nos lábios, e afundamos nossos corpos um contra o outro num abraço incondicional, e chove forte sobre as nossas cabeças e as gotas são esferas de vidro com recordações do que ainda não vivemos, e as gotas se transformam em asas de gaivotas que rasgam o horizonte, e não há culpa sobre os nossos ombros quando eu olho para você e enxergo outras, quando você me vê e eu sou vários, e a combinação infinita entre esses milhões de casais que moram dentro dos nossos olhos caminha até o mar quente que nos envolve em ondas, e nos molha a todos, os vários de nós dois entrelaçados em combinações improváveis, até que nos encontraremos no ponto onde seremos juntos algo que não sou eu e que tampouco é você.
E então, sob a luz de um amanhecer cor de sangue, atravessaremos o oceano em queda livre, e após retorcer o eixo do mundo com a ponta dos dedos, teremos o céu sob os pés descalços, e as cidades do Planeta Terra serão pequenos pontos de luz abaixo do nosso vôo, nossos sorrisos iluminados como que por fogos de artifício à medida que nos encaramos sem volta, confortáveis em haver perdido o caminho de casa, quando passado e futuro serão termos sem significado, por que só haverá (há) o presente, o instante agudo onde as órbitas dos seus olhos se refletem nas minhas, e vice-versa, como uma multidão de espelhinhos, até que esses planetas livremente se alinhem como reflexos em oposição numa reta perfeita – e nenhum de nós, nunca mais, precise mentir um para o outro.

Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões”
:: Saudosismo – Caetano Veloso
*Estousemimaginaçãoparaescrever.
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9 respostas em “A Felicidade

  1. Meu Deus que linda essa crônica! Vou procurar por mais desse autor, será que encontro?
    Beijo

  2. ai… Adorei todo texto, mas esse trecho foi meu preferido

    “[…]o instante agudo onde as órbitas dos seus olhos se refletem nas minhas, e vice-versa, como uma multidão de espelhinhos[…]”

  3. Fiquei encantada com essa crônica, a facilidade como o autor narra e encaixa as coisas é perfeita, adorei a parte em que ele fala ”e chove forte sobre as nossas cabeças e as gotas são esferas de vidro com recordações do que ainda não vivemos, e as gotas se transformam em asas de gaivotas que rasgam o horizonte, e não há culpa sobre os nossos ombros”. Eu me vi vivendo esse trecho e imaginando como seria. Concerteza a felicidade é constituída de momentos assim!

    beijos flor

  4. Que fantástica crônica. Comovente a maneira tão corajosa de falar sobre a felicidade. Que mestre. Adorei ler isso…

    :)

    Beijos minha linda.

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