Eu me vejo em Dorinha

– Engraçado… Quando eu era criança, detestava pintar o rosto na escola. Mas em 92, sai nas ruas com a cara pintada, em protesto.
Eu nada respondi. Até porque, nem poderia. Em 92 eu estava nascendo e ela tinha treze anos. Era menina rebelde, precoce. Hoje é uma senhora. Casada e mãe de dois filhos. Encontrei-a no shopping esses dias. Seus meninos vieram ao nosso encontro com os rostos pintados de Batman.
– Esses são Pedro e Camilo.
Pedro. Eu quero um nome desse para o meu primeiro filho também. Sempre gostei de Pedro. É simples. O mundo precisa de coisas sutis. Eles tem rostos angelicais e alegres. Gêmeos, com seis anos de idade. Ambos com os olhos de Dorinha, com a boca e as expressões. Caretas idênticas. Dorinha fazia graça sempre.
Dorinha agora é dona Dóris. É uma senhora cuja vida daria um belo livro de memórias. Dorinha não merece só uma crônica como essa. Ela merece algo melhor que justifique sua vida inteira.
– Sou professora agora. E continuo escrevendo.
“E eu aprendi a escrever”, queria dizer. Agora ela é professora. Quando a conheci, de primeira fiquei sabendo que queria fugir com uma banda de rock em um ônibus. Ela queria conquistar o mundo e pintar o cabelo de “louro californiano”. Depois entrou em um curso de teatro e queria ser atriz. Ela era uma ótima atriz. Fazia mais drama que a Julianne Moore. Era perfeita.
– Sou professora de teatro.
Ah, claro. Isso já era esperado. Devia escrever roteiros também, não duvido.
– E você, que tem feito?
Eu? Nada demais. Escrevendo muito e lendo sempre que posso. Nesse ofício sem mérito, mas também sem perdas.
– Tudo na mesma.
– Na mesma? Desde que você tinha dez anos?
Dorinha não é boba, ainda é a menina das perguntas. Curiosa, nada lhe escapa. Até hoje não me atrevo a afirmar se esta é uma qualidade ou um defeito. Virtude? Não sei. Aqueles olhos azuis é que são doces demais para que alguém fique brava com ela.
– Estou bem. A família também vai muito bem. Minha irmã, dia desses, até comentou que nunca mais te viu em festas e…
– Tá. Mas não é sobre os seus pais que eu quero saber. É de você, menina! Olha como você cresceu e está bonita, uma moça linda. Vamos, me fale sobre você.
Dorinha me fez um cafuné. Quando perdi minha avó, ela foi uma das poucas pessoas que me acolheu e seu gesto maternal nunca foi esquecido.
– Já se apaixonou alguma vez? Já teve um romance? Deus, eu lembro de quando tinha a sua idade. Queria todos só para mim. E desprezava muitos depois. Você tem quinze anos, não é?
– Na verdade, tenho quase dezessete.
– Com esse rosto de boneca? Que sorte a sua. Olha para você, está muito bem. Mas me conta, já namorou? Está namorando?
Eu queria lhe contar Dorinha, de que quase me arrependi e quase desisti de amar. De que chorei muito, maltratei a mim mesma e senti culpa depois. E de que agora eu amo de novo e é um amor louco que eu não conseguiria te explicar no momento. Mas é amor. Eu queria te contar tanta coisa! Mas não posso. Você não é a mesma e eu não mudei em nada. Ainda estou fechada. Você ainda é a amiga da minha irmã mais velha, da qual não posso compartilhar muitos segredos.
– Bem, eu…
– Ah, olha ali. Meu maridão chegou.
Um homem alto se aproximou de nós com um sorriso.
– Lembra do Fábio, Nina? Das festas…
– Sim, me lembro. Olá.
Ele respondeu com um outro sorriso e Dorinha precisou lhe dizer que eu era a irmã de Fabiana. Ele já não me reconhecia.
– Bom, te vejo em breve, mocinha. Um beijo.
– Tchau.
Eu vi Dorinha ir embora. Com os filhos correndo e de mãos dadas com o Fábio. Eu vi Dorinha e me vi ali nela, num futuro que eu ainda desconheço. Eu vi Dorinha e tive incertezas. Os passos ainda são os mesmos, dessa maneira engraçada que eu tenho de observar o modo como as pessoas andam. Dorinha faz falta nas festas e farras. E eu a vejo agora – ainda maternal, porém mais responsável.
Eu sempre pensei que iria ser igual a Dorinha quando crescesse.

Anúncios

8 respostas em “Eu me vejo em Dorinha

  1. Ai Nina, você é minha escritora preferida dessa blogsfera, sempre uma delícia vir te ler. Eu não tenho uma dorinha na minha vida, mas com certeza quero ser igual à ela quando envelhecer. Filhos, uma pessoa pra compartilhar alegrias. E as ALEGRIAS, lógico.
    Um beijo.

  2. Eu também gosto de ler a Nina.
    Já acostumei com esse olhar. É cada coisinha do dia virando crônica. Legal isso. Quero transformar meus amigos em textos também.

    Engraçado é que a gente muda muito, mas sempre fica uma característica quase eterna, pela qual podemos ser reconhecidos. Isso tanto externa como internamente.

    Cheguei em manaus e revi amigos antigos. Todos com mulheres, filhos e barrigas. E eu me acho igual. Sensação boa. Me sinto aquela água que bate na pedra até que ela fura.

    Bj!
    Inté!

  3. Ai Nina, você é minha escritora preferida dessa blogsfera, sempre uma delícia vir te ler. (concordoooo )
    caracas quee belaa históriaa de Dorinhaa :)
    ameeeeei ,

  4. É bom termos referenciais.
    Vez por outra observo a mim mesmo e vejo algo que absorvi de outra pessoa. rs

    beijos

  5. Olá, tudo bem?
    Q texto legal esse.
    Me chamou atenção pelo nome “Dorinha” q é o apelido q minhas amigas me chamam hehehe
    Eu tb me vejo nessa Dorinha (ela tem um “q” de revolução, e isso corre nas minhas veias – adoooro)

    Bem, certamente eu virei sempre aqui.
    Abraços!

  6. Interessante. A vida nos proporciona mudanças mesmo.
    Essa Dorinha pareceu ter vivido demais. E isso é bom. Mas chega um tempo em que aquela correria cessa né. E começamos a focar um rumo pra nossa vida.

    Pra ti eu prevejo muita coisa boa.
    xD

    Beijocas

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s