Sina

Atraso. De tempo, de vida, de tudo e de todos. Acordo no susto com os berros do ditador que eu devo considerar como “pai”. Dou um pulo da cama sem direito a banho para despertar. Visto rápido o uniforme, ponho livros e cadernos na mochila, sentindo aquele peso nos ombros que, na realidade, representa desde já toda a dor do mundo. Lembro-me de quando reclamávamos do peso nas costas devido ao material escolar e as professoras vinham com a chantagem emocional: “As crianças na África sequer tem oportunidade de estudo como vocês”. Mas a verdade é que nem elas se importam com as crianças africanas, quanto mais com a melhoria de suas aulas decadentes. E todo início de ano era a mesma coisa: A equipe de televisão parava na porta do colégio com o intuito de entrevistar alunos sobre suas condições físicas em relação as mochilas. Tão previsível quanto entediante.
É fogo. A mãe diz que eu preciso comer antes de sair. Eu vejo a mesa farta e o estômago roncando. Mas que tempo eu tenho? “Mas o colégio é perto!”, ela responde. De fato é maravilhoso não precisar pegar ônibus (porque eu sou uma fresca com claustrofobia que sequer consegue permanecer cinco minutos dentro de um), mas a primeira aula é de Matemática, a professora é uma fera e o portão tem hora de fechar.
– Aonde você vai?
Ele pergunta sentado em sua poltrona de rei e dono-da-casa com o jornal A Tarde que lhe cobre metade do corpo, da cintura para cima.
– Jornalista é a profissão mais inútil que existe!
A indireta vem para mim, obviamente. E em relação à primeira pergunta, ele sabe a resposta. Mas sempre precisa perguntar. E eu, inevitavelmente tenho que refazer todo um ritual explicativo. Esse é um fato que não posso mudar enquanto viver debaixo do mesmo teto, sendo sustentada por ele e sendo menor de idade (como se fosse o maior crime do mundo). Eu sou uma propriedade de meus pais.
“Eu quero fugir daqui”, é o que penso. Inúmeras vezes planejei fugas, cheguei a levar roupas na mochila em lugar de cadernos. Mas sempre havia a questão do “para onde ir?”, sem dinheiro, perspectivas ou “experiência de vida?” Aos sete anos recusei a proposta de entrar para um colégio interno de moças e freiras, acreditando que aquilo era um orfanato. Hoje me arrependo da recusa e penso que seria melhor ter nascido sozinha, do que crescer desequilibrada e mal-amada.
Desequilibrada. Somos três indivíduos que possuem parentesco por puro infortúnio e azar, e que se desconhecem. E nos suportamos apenas porque a Lei existe e o abandono é crime.
Mal-amada, de fato. Porque há um destino para todos e eu devo me conformar com a infelicidade eterna. E o tempo passa rápido: Eu era criança há três anos e agora sou quase adulta! E talvez ainda nem saiba a diferença entre “amor” e “estima”, “confiança” e “proteção”. Talvez eu esteja amando mais uma vez o homem errado, mas no fundo é bom ter em quem pensar de noite e encontrar nisso uma razão para ter insônia.
Dia seguinte? Atraso, como sempre. Mas já não é o turno matutino que só me trouxe infortúnios. É a calmaria e o vazio da tarde. É não precisar acordar cedo e tocar os pés no chão frio do quarto. É bom ter mais tempo para sonhar que sou livre e amada por alguém. Mas dos sonhos não podemos construir muita coisa. E daqui há alguns dias o meu cochilo vespertino será substituído pelas aulas entediantes até às seis. O pôr-do-sol será menos frequente, mas ao chegar em casa, poderei desabar na cama imaginando uma vida na qual eu não precise dar insatisfações aos intrusos. Pura sina.

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16 respostas em “Sina

  1. Duro ter que depender dos outros! Mas isso tbm vai passar, logo vc vai ter sua profissão e sua vida, sem ter que ficar dando satisfações.
    Bjo

  2. Sina? Tá mais pra saga. hihihi
    Não posso falar muito sobre pessoas que não tiveram uma família amorosa. Só sei que somos livres para reagir da forma que quisermos e racionais o suficiente para perceber que não é porque algumas pessoas nos fizeram mal que todo o resto do mundo fará.
    Ali estava na categoria de crônicas, espero não estar viajando no meu comentário. hihihi
    Bjitos!

  3. Relaxe…conte de um até dez e finja que não é com você!!
    Nunca funciona comigo, mas pelo menos vc fica com a sensação de que eles são mais culpados ainda…
    Acho que vou aí amanhã(quarta).
    Beijos

  4. Nossa comecei a ler e fui me surpreendendo a cada linha que lia,lembrei que há alguns anos também pensei em fugir,ser dona do meu próprio nariza,fazer o que quisesse sem ter que explicar isso a alguém,me deparei com as mesmas perguntas que vc como viveria,e onde?com o quê?…a partir disso reformulei minhas idéias,jurei a mim mesma que estudara e me esforçaria o máximo para sair da ´tal situação o mais rápido possivel,e continuo na luta pelo meu espaço,pelo direito de viver minha própria vida.

    Adorei seu blog,vc escreve muito bem,vou te linkar pois assim fica mais fácil de vir aqui…sucesso…abraços!

  5. Acho tão absurdo o método de educação que seus pais utilizam.. Daí quando os filhos crescem e somem, são desnaturados.. Quanta hipocrisia.
    Se cuida, beijo

  6. as crônicas devem servir a reflexões certo?

    exemplo do modelo de vida contemporâneo…
    e se um piscopata nos aponta uma arma, imploramos pra viver. mas perae, isso é vida? XD

    fazendo juz a alcunha de mal-criado! rááááá!

    :+

  7. Nina, entendi tudinho que você disse aqui!!
    Já tive meus 16 e tentei fugir de casa inúmeras vezes.
    Com 22, deu certo! E, depois, pra minha surpresa, fiquei até amigo de meus pais. De minha mãe, pra ser mais exato!
    Então, segura as pontas, finge que tá tudo bem, o tempo passa veloz!
    Em breve, você terá sua casa e ninguém pra te dizer o que fazer.
    A não ser seu chefe, no trabalho, claro! Desse, eu não escapei até hoje. Pelo menos, até acertar na loteria!
    Bjooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!

  8. Eu espero que não seja autobiográfico, mas tem horas que por mais que a família seja armonica a gente se cansa. Cansada da minha, mas todos os dias levanto as mãos pro céu e agradeço 0/. Você tah bombando na blogsfera em ? Te desejo toda sorte menine. 0/

  9. Ruim ter que dar satisfação aos outros, mas essa é só uma parte das burocracias da vida.

  10. Favor olhar e divulgar, novo post no PL!
    Lembra-se daquele tema que propus ano passado do diagnosticando?
    Fiz e postei uma de Rita Lee, se der prepara a próxima, escolhe uma pessoa e diagnostica!

  11. Por várias vezes me veio a ideia de fugir… Mas eu pensava… Pensava… Não! Não tenho dinheiro, até fazer 18 e conseguir um emprego público minha universidade, aí eu pensei… É… Agora dá pra sair de casa! Mas aí eu pensava… Pensava… Não, não, nao! é melhor ficar… hehehehe

    Sabe pq? acho que não suportaria viver só. E sabe o que é pior q sofrer marcação dos pais? Sofrer com a indiferença!

    Ah! vai q se vc fosse pra esse colégio de freiras e hj estivesse afirmando. Seria melhor se eu estivesse com meus pais agora ¬¬

  12. Ai ai ai…
    Penso que fui eu que escrevi algumas partes desse texto. Minha vida parece muito com a tua. Tenho 21 e continuo sem perspectivas de ter a minha vida. De boa, to esquecendo esse sonho por enquanto. Viver/conviver é algo por demais complicado, e as vezes a gnt fica cansada.

    Realmente não sei o q é pior superproteção/chatice/marcação, ou esquecimento.

    Beijo Nina.

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