A mulher do padre

“Não é que eu queira reviver nenhum passado
Nem revirar um sentimento revirado
Mas toda vez que eu procuro uma saída
Acabo entrando sem querer na tua vida”
:: Quem de nós dois – Ana Carolina

É domingo e amanhece. Mas onde está o rosado do céu? Vejo mais cinza do que azul celeste e “eu quero ser uma tarde gris”. Mas não é essa a canção que toca no rádio. Com o volume baixo, Caetano sussurra: “Você é linda, mas que demais…”, como uma confissão de namorado. E quando eu recuso o seu elogio que também é uma mentira, ele repentinamente insiste – “…você é linda sim”. Peço que cale a boca quando desligo o botão do rádio. Juro que até hoje não sei para quem ele fez essa música. E nem desejo ser informada. Gosto de pensar que foi para mim. As mulheres tem disso.
É quase seis. Apareço prontamente arrumada no corredor que dá acesso à cozinha e comunico aos rostos sonolentos de olhares turvos e passos bêbados que “vou na igreja lá de cima”. A expressão facial de meus pais se altera subitamente. Não sei se devo explicar qual igreja ou o motivo do meu comparecimento lá. O fato é que estão surpresos, sustentados na crença de que “ainda há salvação para essa menina, meu Deus!”, mas enquanto o efeito do choque não passa, minha pressa faz com que eu me despeça da escada rumo ao portão. Lá em cima estão os olhares desconfiados de ambos, mas logo eles me esquecem.
Não há carros na rua e os mendigos ainda dormem. O vento vem forte contra o meu rosto e eu descruzo os braços. Serão três ladeiras antes de chegar e o meu rosto estará corado entre os fiéis. É só por isso que vou mais rápido, correndo e cansando, perdendo o fôlego. Estou na última ladeira e vejo o coreto da praça. Em tempos de outrora, quando então musicista, minha filarmônica se apresentou ali junto com um grupo de circo e teatro formado por hippies americanos. Só me lembro da trapezista: Cabelos cacheados, quase uma Rachel Weisz. E o namorado dela era idêntico ao vocalista do Coldplay. Nunca mais a vi desde o último verão.
A igreja é católica e de arquitetura colonial, como quase todas as igrejas daqui. Está cheia. Gente sentada e em pé. Muitas pessoas. Alguém toca órgão e, quando vejo com dificuldade, percebo que é aquele carinha com quem fui proibida de falar aos treze anos de idade sobre o pretexto e as suspeitas dos adultos de que eu estava “apaixonadazinha por ele” que está tocando.
Quando me privilegio em algum lugar, mesmo de pé, eu o observo. Bem, ele já tem mais que trinta anos agora e nem deve se lembrar mais de mim. Mas levanta o olhar, centraliza os seus olhos em meu rosto e sorri. Retribuo com a mesma cortesia. Não o vejo há anos.
Mas logo saio e fico sentada naquele balanço de corda e madeira pendurado na árvore que até hoje existe na frente da escadaria da igreja. Estive ali em muitos momentos de minha infância. Recordar foi tão bom que o tempo passou rápido. Os fiéis começavam a sair.
O padre é o mesmo. Os anos passam e ele não envelhece. Sua jovialidade está estampada em seu rosto. Ele vem falar comigo:
– É a primeira vez que te vejo em três anos.
– Quatro.
– Veio se confessar?
Eu lhe faço um olhar repreensivo e ele sorri.
– Lembro-me de suas confissões: “Padre, peguei escondido a lata de biscoitos em cima do armário…”
– Nunca me purifiquei com as Ave-Marias que o senhor receitava. Não sabia de que forma aquilo iria me curar.
– Pois é. Você sempre foi contestadora. E sempre será rebelde com Deus e o mundo.
Além do organista, também fui apaixonada pelo padre. Nesse meu vício obsessivo de querer um romance proibido da forma mais perigosa possível e sempre com o homem errado. As confissões eram pretextos para alimentar o meu amor platônico. No fundo, eu tinha necessidade de conversar com um amigo.
– Você está uma moça.
– Todos os adultos dizem isso de mim.
– Está com 15 anos?
– Dezenove!
– Mentira!
– Faço dezessete em maio, padre…
Ele caminha mais perto e eu me levanto. Ele olha em meus olhos que hoje estão maliciosos como os de Capitu. E me abraça. Não me lembro da visão de um padre abraçando alguém, nem em filmes. Mas aquele abraço apertado parecia um remake de Pássaros Feridos.
E foi rápido. Mas ele não quis me soltar de todo. Ficou me olhando muito ainda, com uma das mãos em minha cintura enquanto a outra acariciava o meu rosto. Na cabeça dele se passava a confirmação do fato de que “aquilo era pagão demais”. Eu não ousei me manifestar, apesar do incômodo evidente. Ele beijou minha testa e fechou os olhos. Voltou para si e de mim se afastou.
– E qual o motivo da honra de sua visita? Procurando salvação?
Eu sorri. Era o padre mais irônico do mundo.
– Não quero torrar a paciência do Senhor. Vou arder no mármore do inferno, contento-me com isso. Sabe que eu prefiro acreditar nas pessoas…
– …e no poder que elas tem de salvar o mundo!
– Se quiserem!
Houve então um curto silêncio. O organista desceu as escadas e se aproximou. O padre despediu-se e voltou à igreja.
Eu e o organista conversamos banalidades. Ele me incomodava muito e eu não sabia o porquê. Queria continuar a conversa com o indivíduo anterior. Quando finalmente me livrei do segundo, voltei à igreja. O padre acendia uma vela. E então, virou-se:
– Vai embora tão cedo?
Ele me acompanhou até o outro lado da praça e nós vimos o mar lá embaixo. Eu era um demônio e ele um homem santo. Que poderíamos esperar do futuro?
– Quando pretende voltar? Eu já nem puno você por ter deixado a religião, mas sempre fui amigo de sua avó e seu também.
– Gosto daqui. Mas estou tentando me distanciar de algumas coisas do passado.
– Entendo… E por quê teve uma recaída hoje?
Sorri. Ele me pegou.
– Quer uma última confissão?
– Quero sim.
Com a mão direita, puxei seus cabelos para trás e beijei-lhe a testa.
– Também estive com saudades sua. Adeus.
E parti. Sem olhar para trás ou coisa que o valha. Desci correndo as três ladeiras, assim como subi. No coração, aquela dor fechada, quente e gritante. Corri como quem brinca com crianças: “A última a chegar é a mulher do padre.”
E quase fui eu.

E FAÇO DAS LEMBRANÇAS UM LUGAR SEGURO

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15 respostas em “A mulher do padre

  1. Uau!
    Bela história, belo texto! Tudo.
    Você sempre acerta.

    beijos a ti…

  2. Tá metida agora só pq tá amando, não deixa nem um recado pros amigos.
    Se é que ainda sou considerado assim né!

  3. Aimmm… Eu quero um livro seu só pra mim.
    HOHOHOHOHOHOHO.

    Eu vou te colocar num potinho e deixar você
    na cabeceira da minha cama pra ler seus
    escritos pra mim.

    Sem falsos elogios, eu gosto muito do que você
    escreve, demais demais, uma das melhores.
    A que mais tenho paciencia pra ler e visitar,
    porque não é preciso ter paciencia para ler
    é tudo tão gostoso que envolve e quando se
    vê já chegou no fim da história.
    Teria paciencia para ler um romance
    de 400páginas 0///
    :D

    Bom, chega de bajulação.
    Sucesso pra gente. 0/
    Um beijo queridona.
    :)

    Ps: adorei a brincadeira com o versinho da
    mulher do padre.

    Pps: Você leu Pássaros Feridos?

  4. Ficção ou realidade, nada importa diante de um texto excepcional como este que você produziu, Nina!
    Realmente, é de cair o queixo!
    Principalmente quando me lembro que você tem 16 ou 17 anos!
    Fenômeno igual só vi o da Carol, do blog Letra Vermelha, de Recife, que também escreve bem demais da conta!
    Seguindo esse caminho, mesmo enfrentando os dramas da adolescência e uma maturidade precoce, você vai longe e será reconhecida. Quem viver, verá!
    Bjoooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. Esses casos do passado que voltam, que não nos deixam… Já sofri muito por conta disso. Hoje prefiro pensar no que está aqui e no que estar por vir, claro, porque desprendi-me do meu passado.
    Bjitos e bom carnaval!

  6. Seus textos seriam ótimos curta-metragens. Um dia, quando eu crecser rsrs e ser um cineasta vou contactar vc pra escrever pra mim :D

    PS: Que padre safado! rsrs

  7. Nina você é a maior fofa. Sabia que Caetano tem um blog?
    ‘obra em progresso.com’, dá um pulo lá. Essa música ele fez pra atriz
    Vera Zimmerman.
    Cheguei ao seu blog atravéz do maroto Antonio Prata,
    até dei um esbrege nele pra te responder

    Felicidades..

  8. caraaacas.
    muito lindo. fazia tempo que eu nao lia um post assim, com tanta vontade.
    parabens, tá muito, MUITO bem escrito.
    :*

  9. Que meiga história.
    Adoro esse teu tom meio amargo e meio doce na maneira de escrever. É bom que dá um equilíbrio. Torna o texto fluente e tão sagaz. fica atraente e maravilhoso. Aquela coisa que prende.

    Suas crônica são um caso a parte mesmo.
    As vezes me pego perguntando se existe algo que tu não seja capaz de fazer. (hum, por enquanto me abraçar xD)

    manda lembranças pro “seu” Padre. rsrs

    Beijocas Daniele.
    Te adoro menina de coração bonito.
    :)

  10. Oi nina ..
    Estava fazendo uma pesquisa sobre amores impossíveis e caí aki no seu post ..
    Realmente vc escreve super bem , consegue dominar o leitor .
    Parabéns e continue assim
    bjks :)

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