Um romance para Jane Austen escrever

Ela é uma alma atormentada, pequena e frágil. Não madura, sequer inteligente. Sensata demais na maioria de suas decisões e, não raramente, isso lhe era um defeito.
Fugia da maneira que podia: Não com as pernas, o caminhar de uma falsa valsa que a fizesse ir embora, mas com a distração que buscava na leitura. Quando quer, pega um navio pirata e foge para o refúgio de sua Inglaterra querida. Aquela do século de outrora. Faz isso só de ir até a estante, puxa um exemplar de Orgulho & Preconceito e senta-se para ler. Esse ritual foi manipulado para lembrar dele. São protagonistas reais de uma ficção. São personagens de Jane Austen.
Lembrou-se do que um amigo lhe dissera: “Se você vivesse no século XVIII, jamais se entediaria com a falta de recursos tecnológicos. Pois sempre haveriam os livros e você não se sentiria só”.
Estava errado. Sempre sentia-se sozinha com os livros. Costumava passar horas lendo sem cessar, mas preferia a companhia de um amigo mais que tudo.
Abriu cuidadosamente o já tão velho livro e deslizou os dedos pelas páginas amareladas. Os críticos da época diziam que Jane jamais poderia se tornar uma grande romancista, porque nunca havia vivido um grande amor. “Mas o tempo fez com que ela se tornasse uma das maiores escritoras de sua época”, pensou. Olhou para si. Quantas vezes tentara escrever um romance sem conseguir? Pelo óbvio. Também não tinha vivido o seu – ainda.
Começou então a leitura. Tentou se colocar na posição de algum personagem – quase sempre faz isso. Não tinha toda a bondade da senhorita Bennet mais velha. Nem a inveja de Caroline Bingley. Mas com certeza tem uma mãe como a senhora Bennet.
E a vivacidade de Elizabeth? Toda a simplicidade da mais sensata das irmãs Bennet poderia ser facilmente atribuída para si. Talvez ela tenha o olhar esperto que conquistou o orgulhoso Mr. Darcy. Ou toda a falta de cortesia e excesso de ironias que causaram o mesmo impacto de um olhar. Ela tinha charme, sem saber. Mas sabia como usar. E ele soube utilizar palavras certas – porque o Mr. Darcy dela também é um escritor. E um homem que conquista com palavras deve ser dígno de atenção. Por outro lado, ela se condena: Pode amar alguém que nunca viu, mas que fez com que voltasse a acreditar nos sentimentos apenas com o poder das palavras?
Sim. Em toda a sua vida, as palavras só tiveram significado de ofensa e recusa, eram palavras que feriam. E as feridas, que por muito tempo ficaram abertas (e muitas ainda estão), podem ser facilmente esquecidas quando todos os seus pensamentos se voltam para ele, inevitavelmente. Persuasão. Ele provocou e ela esteve inclinada a essa promessa.
Abusando de razão e sensibilidade, talvez haja um paradoxo que ela não ousa entender. Quer amar, mas não pode. E não sabe porque não pode. Haverá impedimentos da parte de sua família, com certeza. E a única qualidade que deveria obter de Elizabeth, ela não possui: A capacidade de enfrentar seus familiares para tornar-se feliz. Mas Jane também não tinha esse refúgio, tanto que precisou descrevê-lo em uma de suas personagens.
Tempo e distância são impedimentos iniciais. Algumas diferenças também. Ela não sabe o quanto ele irá se arriscar, nem tudo pode ser como uma ficção. Nem tudo são flores ou romance de época. Ela é uma jovem que ninguém entende. Jane era uma jovem que ninguém entendia.
Ela repousa o livro na mesinha de centro. Quer um final feliz, mas não sabe ainda se a obra ficará inacabada ou disponível a uma publicação póstuma. É apenas um esboço de livro, um capítulo, um prefácio. E as consequências do que é real não está ao alcançe da escrita.

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9 respostas em “Um romance para Jane Austen escrever

  1. As palavras podem trazer sensações a nós que antes pouco ou nunca chegamos a ouvir. Podemos acreditar sim em sentimentos se recebemos palavras sinceras de alguém que quer mostrar que existem sentimentos ainda nesse tempo. As palavras são muito usadas para ferir sim. As vezes sofremos com nossas falahas, com nossos impulsos. Quando menos notamos, lá está alguém chorando por palavras afiadas que saíram de nossas bocas. Errar é fatal sim, mas quem é perfeito.
    É bom avaliar cada um por cada um. Há sempre quem nos quer bem, quem nos oferece palavras afetuosas e nos mostra um lado que desconhecemos. Há sempre um bonito horizonte pra ser contemplado. E sempre há quem nos faça abrir os olhos para poder enxergar essa beleza.
    Sempre há esperança.
    Não há paradoxo. Se quer amar, ela pode. Amar não depende de ninguém. Não há ninguém que nos possa impedir de sorrir. Porque haveria pra impedir que amássemos? Pra mim as pessoas criam prisões dentro de si mesmas, colocando a culpa em fatores externos pra justificar uma covardia, ou um medo de enfrentar. Quem ama não quer saber de distância, nem de diferenças. Quem ama não pensa em obstáculos, apenas ama. E isso ninguém tira da gente, muito menos impede.
    É por isso que dizer que quer amar mas não pode, é apenas uma maneira de criar um muro pra si mesma. Você pode até dizer isso da boca pra fora, ou até escrever livros e mais livros descrevendo você, mas nada, ninguém diminuirá aquele pulsar do coração… aquele, apenas aquele que significa amar alguém. Nenhuma correnteza deixa de seguir seu curso, e ninguém o consegue impedir. Ninguém que é capaz de amar se deixa ser impedida de amar.

    Amar é inerente… o Amor é intermitente.
    Quando se começa a amar, jamais para.

    ;)

    Beijos

  2. Sabe o que é legal nas dificuldade?
    Quando elas passam se tornam engraçadas.

    Terá uma ótima hitória, acredite.

    “sem luta não há vitória”

    beijos

  3. todaa vez q venhu akiii, fico de um certo modo tranquilizadaa, seus textos me dão paz por alguns minutoos
    amoooooo tdo q escreve xd

    bejoos

  4. Esse texto é muito bacana. Legal mesmo Nina. Lembrei de um texto da Letícia que também é blogueira (Afeto literário) e deu um mergulhinho em Jane Austen e nos personagens de Orgulho e Preconceito.

    Gostei demais. Sou seu fã, gosto dos seus textos e é por isso que volta e meia estou aqui.

    Bj.
    Inté!

  5. Eu vi o Filme Orgulho e Preconceito…
    E tenho que dizer que não é todo mundo que consegue sentir o que o filme tenta fazer o espectador sentir.

    Esse texto ai é a mesma coisa.
    Tem que ter o mínimo de sensibilidade pra captar.
    =)

  6. Poxa! Vc me deixou com vontade de assisitir esse filme, várias vezes eu o vi, mas pensei… hum… a estória naum parece boa… Me interessei agora :D

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