Presença (de Nina)

“Então falarei do colégio.(…) Conversei com Regina Dantas, ela será novamente minha professora de História, assim como havia sido no primeiro ano. Gostaria que fosse C., cheguei até a acreditar que seria ele, pois havia ensinado para as turmas de Informática em 2008. Me enganei, tudo bem. Emily e eu até conversamos sobre ele quando passamos por uma das salas em que ele estava na frente do quadro. Ela também desejava ser sua aluna porque, segundo ela, C. tem todo um perfil típico de professor de História, parece ter nascido para a profissão. Concordei em gesto e pensamento.
Inclusive, nós duas estávamos semana passada na sala dos professores conversando com Álvaro César, o professor de Física, quando ele chegou (surpreso ao me ver, naturalmente) e puxou a cadeira que estava ao meu lado. Imaginei que iria se sentar perto de mim. Aquela emoção e nervosismo me encheu de expectativa, então tirei minha mochila de cima da mesa para que ele pudesse se acomodar melhor. Mas ele respondeu que não era necessário, pois só queria pegar os pertences que estavam em cima da cadeira. Ele disse isso com voz fina e amável, mas sem olhar em meus olhos, sem me encarar. E aquela foi nossa primeira conversa, depois de um ano inteiro trocando olhares misteriosos e desviando frequentemente. Penso que minha presença o incomoda bastante. É um homem intimidador, mas traz nos olhos mensagens que não consigo decifrar. E já nem tenho chance de travar com ele algum conhecimento pois, ano que vem, retiram sua matéria de meu curso.
Naquele dia, depois de ter tirado suas coisas da cadeira, ele preferiu sentar-se na outra extremidade da mesa, mas era fácil observá-lo. Haviam muitos jornais ali espalhados e eu me esquivei do assunto que tratava com Emily e Álvaro para espiá-lo. Ele pegou um jornal e começou a leitura. Fiz o mesmo com um exemplar do A Tarde. Havia uma nota sobre um possível esboço que revelava o retrato de Leonardo da Vinci quando jovem, em uma página do Códice sobre o Vôo dos Pássaros. Queria mostrar-lhe e comentar aquela descoberta, poderia ser um assunto de seu interesse, mas não tive coragem. Fiquei apenas a observá-lo naquela posição séria e artística que ele possui. ‘Como seria se fôssemos amigos? Parecemos ter muito mais em comum além da estima pelo passado. Diversas vezes já expressei minha vontade em fazer uma faculdade de História, e da minha contemplação pelo início das civilizações e Revolução Francesa, porém, nada pareceu interessá-lo’, pensei. Mas fui interrompida quando o sinal tocou e Emily me convidou para que saíssemos dali antes dos professores chegarem. Nos despedimos de Álvaro e nos direcionamos até a porta do corredor de trás. Dei ainda uma última olhadela, mas ele tampouco percebeu que eu estava ficando ausente no aposento.”
:: Do meu diário em 8 de Março de 2009.

Anúncios

11 respostas em “Presença (de Nina)

  1. Eu cultivo admiração e respeito pelos grandes professores que tive (e ainda tenho) durante esses quatro anos e meio de faculdade. Perto deles, vejo que tenho muito o que crescer ainda. E como quero crescer. Quando recebo um elogio de um desse professores, sinto que meus esforços estão sendo reconhecidos. É uma prazer único. Já estou preocupado com as dedicatórias e agradecimentos que farei em meu convite de formatura e na minha monografia. E cá pra nós, não é dificil que essas admirações se estrapolem, não é?

    beijos a ti.

    *te ligo sim.

  2. Ai, lembrei agora meus professores. O mais pertubador era o de natação, aiai…

    P.S.: Bom receber sua visita no meu blog. Volte sempre que desejar.
    P.P.S.: Eu nunca escrevi em diário.

  3. Lembrei de alguns professores que tive, alguns marcaram bastante. Legal o texto… gostei :)

    Obrigada pela visita, te linkei lá também.

    beijinhooo

  4. Olá Nina!!
    Passei para te agradecer pela visita ao Lush-Pepper e no final acabei dando uma olhada no seu blog, nos textos e nesse modo inteligente que Vc tem para escrever e contar histórias!
    Bacana demais!
    Nesse post atual, além da narrativa envolvente, acabei tb lembrando de quando eu dava aulas! Deu saudade hehehe
    Mas voltando ao seu blog, parabéns pelo talento com as letrinhas e palavras!! ^__^ Gostei mesmo!!
    Obrigado pelo comentário.. voltarei em breve!

  5. Ai, Nina… juro para você que eu tentei visitar todo mundo. Não fica braventa comigo hein!?

    Sabe, as vezes quando eu leio seus relatos, sinto que estão tão bem escritos… parecem até páginas perdidas de livros de romance! ;D

    Kiss

  6. Gente, nada passa despercebido pra ti. Acho bastante revelador as suas palavras. A maneira de descrever o cotidiano e as pessoas que cercam esse mundo é estupendo.

    Aprendo muito contigo.
    Sabe, as vezes dá medo de ti. Você é uma mulher que decifra, observadora e bastante sagaz. Gosto dessa sua pose discreta e bastante oculta. Isso a torna uma mulher com muita personalidade,
    e deveras misteriosa.

    Penso que se te conhecer um dia não será mais como imaginei.
    Será melhor, haja visto que por trás dessas linhas escritas, que descrevem alguém forte, guarda uma mulher de fibra.

    Gosto de mulheres de fibra.
    Sabe, Deus me coloca as pessoas certas no meu destino. rsrs

    ps.: Queria só completar o raciocínio do comentário do texto anterior. Não creio que seja necessário pra ti, mas pra mim ficou ambíguo.

    Queria dizer que você é muito mais, como ser humano. Mais que elas. Algum desavisado pode entender que pudesse estar dizendo que você fosse pior que elas rsrs. O que não é verdade. Esclarecido rsrs

    Beijos querida.
    Se cuida.

  7. Preciso confessar que sempre fui uma ‘leitora secreta’ de seu blog. Visitava, lia, observava… mas tinha vergonha de comentar. Fiquei toda feliz com a sua visita ao meu cantinho, e agora vou comentar sempre aqui. =)
    Sempre tive muito carinho e admiração com meus professores, principalmente os de história. Aliás, tive um professor de história que vai sempre ser um herói para mim. Sempre ficava imaginando coisas inteligentes pra dizer pra ele, mas acabamos conversando sobre música e nos falávamos sempre depois das aulas.
    Discussões políticas, vinis do Queen, gritinhos do Axl Rose, teorias sobre coisas mal explicadas na Revolução Francesa… enfim, sempre rendiam boas conversas, entre eu professor e alguns amigos. Tiveram as tardes com futebol e shorts ridículos, cafezinho à noitinha e violão, desenhos na poeira do carro. Tempos que não voltam mais. Coisas que eu não devia ficar falando aqui nos seus comentários, mas que acabei lembrando.

    Kissus =**

  8. Sempre fui muito apegada a meus professores, a maioria deles. O meu ex-professor de História é um querido, e você falando ali do professor de História nato e eu me lembrando dele, que era exatamente assim. A gente discutia, eu discordava dele, batia boca, mas sempre gostei muito do jeito dele.
    Assim como hoje sou apaixonada pelo meu professor de Química e pelo de Redação. E pelo de Redação acho que tenho mesmo é um encantamento por toda a história de vida dele, pelo jeito que ele fala, como anda pela sala e as caretinhas que faz sempre. Na última aula que tive com ele, fui falar sobre um problema nas minhas apostilas, e ele com seu jeitinho tão doce que até dói pegou minha mãe e me orientou sobre o que fazer. Eufemismo é dizer que eu derreti na hora.
    Mas enfim.
    Beijos

  9. Fiquei apenas a observá-lo naquela posição séria e artística que ele possui. ‘Como seria se fôssemos amigos?

    Ò.ó

    por diversas vezes pensei nisso com meus professores. afastei tais pensamentos com rapidez. eu não sei fazer isso.

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s