Labirinto quase epílogo

De tão mal acostumada, ela aprendeu a esperar. Esperava por algo que nunca chegava, pois tudo sempre lhe foi dado na mão, bastava pedir. Mas daquele ponto de partida ela não movia um passo.
Não poderia mover as pernas – presas por uma corrente grossa de ferro. E seus pés estavam cravados em um cimento frio. Era tudo metáfora, mas o enfeite das palavras serviam para dissimular a falsa dor que ela sentia. A porta permanecia aberta, mas seus olhos estavam cegos. Por hora, ela desviava. Não queria enxergar a saída porque não estava pronta para ir embora. Nunca esteve. Fala em liberdade como uma revolucionária. Sabe o caminho, mas não tem certeza se vai. Pensa nas consequências, desiste. Volta, altera. Pensa. De tanto pensar, descobre que passou anos ali, naquele mesmo lugar sem escolha definida. E cresce sem saber que ainda é menina.
Ela está no meio do labirinto – não no final dele. Lá pelo início, alguém corre atrás na direção certa, caminho oposto ao dela. Ele procura o fim para justificar um começo. Sempre correu atrás de tudo. Lutar é um verbo tempo-espaço e sentido da vida que ele leva. Adjetivo do grande vencedor. Assim ele cresce, sem nunca voltar a ser infantil. E nem quando está cansado desiste. Ela quer gritar, para lhe indicar a direção. Mas não pode, não tem voz. E depois do labirinto há um reino de contos-de-fada, Terra do Nunca, navio pirata. A paisagem é mais interessante, há um mundo inteiro para tocar e apreciar. Então ele esquece e ela não deve culpá-lo. Já não é a primeira vez que acontece e não será a última. O tempo passa, o corpo de menina desaparece. A boneca de pano torna-se uma adulta ranzinza e infeliz. É muito fácil adivinhar o futuro. Nunca mais o vê, como nunca viu antes. Contatos se perdem, pensamentos idem. Um dia talvez se curem um do outro. Por enquanto, perdem-se em um labirinto que dá voltas na rotina. Ela é uma menina sem saber que cresceu.

AGORA VEM A PARTE VERDADEIRA:
Eu não sou uma menina de guerra e nem tenho um codinome que signifique “Borboleta” em francês. Não sou “a voz adolescente da denúncia” que vai relatar uma parte da história. E nem gosto de escrever. Faço apenas por inquietação e para não ser esquecida. Não sei mentir, não sou ficcionista. Escrevo as crônicas que se perdem com o vento e que futuramente ninguém irá ler, com o intuito de que essas palavras sejam dirigidas apenas aos meus próprios olhos, à minha própria memória. Não às pessoas mais caras, sequer aos desconhecidos. Preciso estar aborrecida, entediada ou infeliz para ter inspiração e é por isso que eu nunca me tornarei uma boa escritora, pois não sei felicitar meus leitores. Eu moro em um campo de concentração chamado “casa”, meu toque de recolher é às seis da tarde, meu pai é um ditador e, não raramente, sofro torturas físicas e psicológicas. Hitler tenta silenciar a voz de seus inferiores, mesmo com a existência de laços familiares entre nós.
Este blog completará 1 ano em 15 de Março de 2009. Pretendia acabar com ele. Simplesmente parar de escrever sem aviso prévio. Mas esta seria, sem dúvida, minha maior prova de resistência. Começei a escrever para esquecer. Para “rir de tudo isso”, um dia. Mas o passado distante é recente e mora ao lado. Reli todas as postagens, tudo que escrevi. Olhar para trás foi macabro. Me deparei com demasiadas tolices e frases repetidas. Apesar da metamorfose ambulante que passei de novembro para cá, é notável que, em 1 ano de blog, não consegui passar uma semana sequer como um ser humano alegre e feliz.
Vocês percebem? De nada me serviu um diário on-line para continuar nessa insatisfação. O que eu pretendia? Escancarar minha vida assim, sem nada receber em troca? Muito provavelmente. Invisíveis são mestres em chamar a atenção da forma mais discreta possível. Não estou “treinando a escrita”. Estou desabafando, vomitando letra. Vocês acham surpreendente uma menina de 16 anos escrever assim? Pois é para se impressionar mesmo – e muito – com uma menina de 16 anos que vive tudo o que escreve. Quem dera que fosse ficção, história boba, romance de banca de revista. Ou que eu fosse ao menos como são os de minha idade que alteram facilmente o humor para um nível melhor quando surge de imediato um convite para alguma festa! Mas este é o diário de um insignificante grão de areia que tem pena de si mesma!
O refúgio que tenho mora em meu interior. Não é um espaço grande, tampouco acolhedor. Mas é o que tenho. E a maneira que encontrei de expressar tudo o que sinto – mesmo as maiores leviandades – devem ser confiadas a uma folha de papel. Mesmo que meu resquício de integridade chegue um dia a me trair. Escrever é faca-de-dois-gumes. Liberdade é inexistente.
Já pensei em suicídio várias vezes. Mas não para acabar com todos os meus problemas. Para ser um problema a menos na vida de todo mundo, isso sim. Queria felicitar à todos, mesmo que momentaneamente. Mas nem coragem de acabar comigo mesma eu tenho. Nem isso. Então vieram a máscara e o disfarce. Os sorrisos falsos serviam para esconder uma dor maior e profunda. Eu me despedaçava em refúgio e renascia como Fênix quando perto de amigos e estranhos. O medo de ouvir algo como “você precisa da ajuda de um profissional” me aniquilava. Como se eu, que já sou reservada, tímida e insociável fosse revelar a um adulto meus mais íntimos e caros pensamentos porque, de fato, ele “só estaria ali para me ajudar com uma boa análise”, tolice!
Eu não decidi escrever. Essa foi uma decisão do destino, fui levada com o vento e não pude voltar atrás.. Perco tempo, ganho nada. Só escrevo por escrever. Para me analisar sozinha e me diagnosticar como louca ou não. Certa da cabeça eu com certeza não sou. Meus próprios pais afirmam que sou uma completa desequilibrada e sonhadora! E devem estar certos, pois me conhecem desde o dia que nasci!
Mas não. Não pretendo acabar com o blog. Afinal, como toda pirralha adolescente que insiste em crescer antes do tempo pré-determinado pela sociedade civil que não se dá ao luxo de compreender quem ainda nem é gente, também sofro com as frequentes mudanças de humor seguidas de explicações científicas que justifiquem tal comportamento. Explodo hoje, permaneço calma amanhã. Talvez eu acorde menos cinza, menos retrato enigmático de Da Vinci e mais do jeito que todos querem que eu seja – vocês inclusive.

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12 respostas em “Labirinto quase epílogo

  1. Bem, não sei se entendi direito. Terei que pensar um pouco pra comentar.

    Fique bem.

    um grande abraço

  2. Oi Nina, li e fiquei meio sem saber o que dizer.
    Talvez nem seja preciso dizer nada, uma vez que tudo que a gente vive, sente ou passa em nosso mundo só mesmo ‘cada uma de nós’ consegue saber o tamanho e a intensidade.
    De toda forma, passei faz tempo pela adolescência mas lembro q tive alegrias e dramas. Da mesma forma que depois de velho continuo tendo alegrias e dramas. Anos atrás pensei e tentei fazer besteira com a minha vida por conta de momentos q eu achava duros e difíceis(e eles eram mesmo). Mais alguns anos e eu passei por outras coisas tão ruins que faziam as anteriores parecerem piada… Só que desta vez não tinha mais meu pai ao lado pra socorrer como na primeira vez.
    A gente em geral tem uma força danada por dentro, mas somos frágeis como uma flor… ou seja estamos sempre ‘sujeitas’ a ventos, tempestades… e qdo há sol e tempo bom a gente parece q nem repara mais neles.
    Enfim… desculpe escrever tanto assim. Não to 100% tb… mas vou ficar! Se cuida e jamais se entregue, aconteça o que acontecer, seja como for… e não para mesmo com o blog!!
    Bjos

  3. Não quero que você seja de nenhum jeito específico, acho suas histórias lindas e fascinantes. Você deveria aprender a olhar o lado bom de tudo, porque até mesmo as tragédias tem.

    “Preciso estar aborrecida, entediada ou infeliz para ter inspiração e é por isso que eu nunca me tornarei uma boa escritora, pois não sei felicitar meus leitores.”

    [ eu também, fato, por isso só ando escrevendo porcaria. ]

  4. Eu quero que você seja você, para que eu possa me comparar e lhe comparar com situações, amores e pessoas. Para que eu enxergue as diferenças que ao meu ver são belas. Para eu perceber que só você é assim.

    Meu alívio é saber que decidiu não terminar com o blog.
    Pode ser coisa da minha cabeça “normal” mas, é fase… essas crises vão e voltam.

    Kiss♥

  5. Não sei o que dizer.
    E nem precisa… É bom quando se tem noção exatamente do que é, né? Por tanto tempo me escondi sem assumir..
    É bom pra vc, ajuda a não se perder (tanto).
    Beijo

  6. Oi, Nina. Não tenho uma idéia muito exata do que possa ter provocado esses sentimentos em vc, e mesmo que isso não seja de grande ajuda agora, lembre-se que por toda a vida passamos por problemas. Alguns momentos são mto doces, outros extremamente amargos. Sequer sabemos o motivo, mas assim é a vida.
    Mtos lamentariam se vc deixasse de escrever, pq mesmo não fazendo questão de ser reconhecida pelo seu talento, vc de fato escreve mto bem.
    Um dia alguém me disse uma frase que me ajudou a encarar melhor os momentos difíceis: “isso também vai passar”. Isso vale pros seus problemas familiares também.
    Beijo

  7. Olá moça. Obrigada pela visita e pelo link ;)
    Você disse que não sabe escrever, mas eu li tudinho e você escreve muito bem. Mas olha, é comum ter pensamento e ato distorcido aos 16 anos. Achei você parecida comigo só pelo que escreveu e entendo você. É apenas uma fase chata e passageira. Cê vai ver como passa rapidinho. Viva o que tem de bom pra viver aos 16 anos e não se cobre tanto ;)

    Um abraço e não delete seu blog.

  8. Texto pesado, difícil dizer algo que lhe acrscente algo bom…
    Só acho que eu tomaria a mesma atitude que você se estivesse me sentindo como você: escreveria para me ajudar, para registrar, ao menos, para não enlouquecer com tudo que me roda…
    Bjitos!

  9. Blog serve p/ isso minha, desabafe e pense sempre que as coisas giram e volto ao seu devido lugar. Angustias assim servem apenas p/ nos deixar alertas.

  10. Sinceramente? Li tudo isso a contragosto.
    Antes de mais nada, me desculpe Daniele, mas ler tudo isso me deixou levemente triste e chocado. Creio que as palavras soaram muito duras. Não seja tão rígida.
    É nessas horas que é fácil notar o quanto és uma menina. Meio adulta, mas menina. Mas isso eu já tinha notado. Também não é o maior dos problemas.
    Quando vim aqui pela primeira vez e quando fui te conhecendo melhor, pude ter a certeza que estava diante de uma pessoa ímpar, que com apenas 16 anos já mostrava que tinha uma cabeça além, muito talentosa com as palavras, evidenciando um lindo intelecto. E até hoje ainda acho isso.
    Não sei dizer até que ponto tu está beirando ao extremismo, mas não gosto de te ver falando assim de ti, da vida, e de mostrar ser alguém com pouca alegria. Passaste um ar muito depressivo nas palavras.
    Daniele, você tem apenas 16 anos. Não exija de ti um fardo maior que você não está capaz de intuir ou compreender.O que me dá medo é te ver falando assim, não apenas se mostrando solitária e amarga, mas mostrando um comportamento adulto que não condiz com a sua idade. Não te exija responsabilidades que não estão na sua alçada.
    É delicioso ler seus textos, seus pensamentos tão maduros, é muito legal ver que és alguém muito amadurecido, humano e especial. Sei que pode ter um pouco de exagero e drama nas palavras, mas Daniele, não torne as coisas como se fossem dilemas de uma vida inteira. Não seja adulta sempre. Quando puder, saia de casa descalça e procure brincar, correr, ir num parque, num balanço. Sinta a vida lá fora pulsando. Esqueça os problemas, sorria. Não se sinta dentro de um romance machadiano.
    Não se sinta inferiorizada. Não se ache um ínfimo grão de areia insignificante. Porque pensar assim se tu é tão especial, querida e amada. Pessoas como você não são grãos de areia, mas estrelas no céu, porque iluminam o coração de alguns. O meu mesmo.
    Entendo muito do que diz. Já fui uma pessoa muito depressiva também. Tenho alguns complexos sim. Inferioridade em algumas coisas. Mas hoje já não sou tanto assim.
    Não posso também te exigir muito. Assim como eu, eu também precisei de anos para poder entender e concentrar mais meus pensamentos, e finalmente poder enxergar que sou importante para este mundo, para algumas pessoas. Isso me felicita.
    Não precisa felicitar os leitores para ser um bom escritor. Nem mesmo se preocupe com os leitores. Apenas seja espontânea na escrita. Sempre surgem leitores que se identificam com as palavras, porque as vezes passam pelas mesmas experiências.

    Você não é um problema para todo mundo. Pelo menos pra mim não. e se isso valer alguma coisa, tu me ensina muita coisa, és um ser humano bonito sim, tem um coração vibrante
    Você já mora no meu coração. E sempre vai ser assim. Eu me importo contigo. Você é importante pra mim. Quero te ver bem.
    Não és louca. Se és sonhadora, aleluia! Isso é bom. Sonhos constroem os caminhos. A felicidade é muito maior quando almejamos e realizamos os sonhos. Quem não sonha comemora a vitória sem sorrir. Quem sonha comemora a vitória com pulos e alegrias, porque era aquilo que a pessoa sempre desejou ter.

    Decidiu escrever sim. Escolhas são escolhas, até mesmo quando não parecem óbvias. Se você quiser parar agora mesmo, tu para. Quem realmente quer consegue. Mas tu não quer, porque tu escolheu escrever. Ninguém faz nada que não queira verdadeiramente fazer ou escolher. Apesar das pessoas se enganarem quanto a isso…

    Todos vivemos dentro de um labirinto. A diferença é que uns procuram sair dela. Outras não. E essas outras ainda crescem. Só crescem, mas continuam circulando nos mesmo problemas pela vida inteira.

    Não sei se já leste “Quem mexeu no meu queijo?”. É bem interessante e diz algo nesse sentido.

    Bem,
    Daniele, não tem obrigação de considerar os meus comentários. Mas eu precisei ser sincero. Teu texto mexeu comigo. Desculpa qualquer coisa.

    Jamais esqueça: Gosto muito de ti!
    Agora sorria mais viu rsrs
    Um beijo carinhoso pra ti

    ;)

  11. o diario de anne afrank representa uma obra inesquecivel e tem que ser lida por todas as pessoas e muito interessantes epseroq ue voces leiam e muito legal! tchau

  12. o diario de anne frank e uma obra representada pela autora anne frank uma garota de treze anos e essa obra e muito interessante leiam e veram que muito interessante vale a pena!

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