Outros olhos e armadilhas

Três anos passados. Inteiros. Completos. Você já não tem mais 22 e nem ela tem 14. Você já não vai à faculdade e ela não frequenta a escola de música. Você não precisa fazê-la rir, pois sorrisos já não se estampam no rosto dela. Você a conheceu distraidamente e ela estava chorando. Limpou-lhe o rosto, disse seu nome. Pediu um café, ela não quis. Pediu um sorvete, ela aceitou. E até, com certo esforço, esboçou um sorriso, como qualquer criança que encontra em um adulto a possibilidade de uma amizade duradoura. Conversaram muito, você em seu instinto protetor, ela tímida e insegura. Sem perceberem, deram-se as mãos e caminharam noite afora. Beijaram-se. Aquele havia sido o segundo beijo dela (e tomou todo o cuidado para fazer direito). Valeu a pena, compensou o desastre do primeiro. Entre inexperiência e maturidade, agora devo sussurrar: Você foi o meu primeiro namorado.
Por três meses estiveram juntos, apesar dos desencontros frequentes, suas desculpas e promessas para enganá-la de qualquer maneira. Ela soube por terceiros que havia sido sua prenda, seu castigo naquela aposta perdida da faculdade. Um motivo de piada para você e seus seguidores. Doeu. Chorou mais do que devia e, pela segunda vez, retomou os pensamentos suicidas.
Mas ergueu a cabeça, limpou o rosto e prometeu a si mesma que nunca mais seria enganada novamente. Não deu. Algum tempo depois, lá estava ela: Amando, errando e culpando-se. Carregou todo o peso da responsabilidade nas costas, cabeça e pensamentos. Responsabilidade excessiva de quem ainda não aprendeu a diferenciar sentimentos. Quebrou a cara, despedaçou o coração. Torturou-se. Nunca conseguiu juntar os cacos e perguntou-se: “Será que vai ser sempre assim?”
Três anos depois, tarde gris, chuva grossa e violenta. Empecilho da natureza, razão do reencontro. Você ouviu algumas notas de uma velha canção italiana. Outra vez a faculdade, “pavilhão da música”, respectivamente. Seguiu o som.
Precisou vê-la ao piano, tocando com os pés, divertindo amigos. Notara que muito daquela menina de outrora já não estava ali. Corou, congelou e empalideceu. Ela via tudo, sem se surpreender. Ao menos não expressava isso. Ela sorriu. Um meio-sorriso demasiadamente irônico, como quem se vinga, como quem afirma que “o mundo dá voltas”.
Você, de péssimo jeito, controlava o nervosismo. Ouviu as tiradas inteligentes que ela falava, em um tom de voz que queria impressioná-lo de alguma forma (mais tarde, ela se sentiu boba por ter se comportado daquela maneira). Ela ria e bebia vinho, estava muito diferente.
A chuva não cessava. E a conversa inevitável acabou acontecendo. Perguntas habituais, respostas automáticas, provocações no tom de voz. Você elogiou a beleza dela. Esta, por sua vez, mostrou-se indiferente. Um silêncio de longos segundos. Desconforto, desconfiança e incoveniência. Chegava ao nível do insuportável, a chuva felizmente acabou.
Ela recusou o seu abraço, apesar do frio. Recusou a troca de olhares, apesar da vontade. Viu um carro se aproximar. Uma moça bonita chamou o seu nome e vocês se despediram. Ficou imaginando se aquela era mais uma vítima ou se você havia tomado jeito. Não importava. Sentia-se, em todo caso, com uma missão cumprida. Aquele dia, aquele local, aquele destino só serviram para afirmar que as coisas não precisam de você.

QUEM DISSE QUE EU
TINHA QUE PRECISAR?

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12 respostas em “Outros olhos e armadilhas

  1. É… QUem disse que tinha que precisar?

    (Uma coisa é certa… o mundo dá muitas e outras voltas)

  2. ÊEEEeee! Libertou a “poderosa” que havia dentro dela! ;D

    Eu li que tu estava de TPM… eu também não me seguro e depois fico pensando em quão chatolina eu sou. Melhorou!? Hahaha

    Kiss♥

  3. Vingativa.
    Estou vendo.
    Agora me diga, é ou não é muito bom o gosto dessa vingança em tom de “tapa de luvas”?

    beijos (my dear)

  4. Gostei, tava com saudade desses tipos de textos que vc escreve :D
    Tão bonito e melancólico ao msm tempo..
    Beijo

  5. aain nina,seus textos pra mim são os melhores de todos os blogs que visito *-*,eeu lendo esse texto lembrei-me de uma amiigaa minha que passou por uma situaçao iguaal :)
    vou epdiir pra elaa leer,

    beejos

  6. Que máximo, você se inspirou com a música. Eu me inspirava com filmes, ou com algo que sentia e escrevia em cadernos. Me alivia saber que o mundo dá voltas, que as coisas mudam. Que um dia as coisas melhoram, e a gente pára de precisar de quem nos faz sofrer.

  7. Oi Nina, já tava com saudades do seu texto! Muito legal ler vc. Pra variar adorei esse tbm…

    E as coisas não precisam de nenhum de nós ;D

    bjs

  8. Essas dores são bem difíceis de mensurar. Sabe, a vida nos preparar armadilhas assim mesmo. Nunca sabemos como lidar. As surpresas são constantes. As vezes um instinto, as vezes um desejo.

    Nem sempre as coisas precisam de nós. O contrário também.

    Beijos floridos.

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