Nem Romeu, nem Julieta

–  Para todos os efeitos, nessa festa eu sou casada!
– E onde está sua aliança, dona Nina? – Perguntou-me Jéssica Priscila, sorrindo com os seus olhos de gueixa à caminho da quadra de esportes onde aconteceria a festa de boas-vindas aos calouros do colégio vizinho ao meu. Eu estava lá de intrusa, obviamente.
– Não acredito que um simples anel simbolize todo o amor que há entre duas pessoas. Para nós mulheres, isso é demasiadamente desejável. Pois causa inveja perante as outras damas, aumenta o ego e o orgulho também se eleva em um nível atroz.
– Então pense que simboliza apenas o compromisso.
– Sim, de fato. Mas possuo tendência a perder coisas pequenas ou deixar de lado tudo o que dificulta a circulação do sangue.
Minhas conversas de feminista surpreendem a mim mesma pela quantidade de mentiras. A verdade é que penso que devo casar, ter no mínimo dois filhos e passar a vida em uma casa azul e branca no campo. Não sou muito diferente da maioria das mulheres que desejam constituir uma família. E essa afirmação tornou-se nítida quando, no domingo posterior, foi anunciado o casamento de minha irmã.
Houve uma típica reunião familiar, como se estivéssemos no século XVIII. Mamãe, que não é mãe da minha irmã, preucupava-se em manter a casa devidamente arrumada enquanto na cozinha o almoço era preparado – um malabarismo surpreendente que só uma verdadeira equilibrista conseguiria manipular. Eu, a filha bastarda (e rejeitada, por que não dizer), fingia tranquilidade lendo um livro no sofá, sentindo-me uma “filha de Bolena”, muito jovem ainda para assumir o reinado da Inglaterra. Me mantive o tempo todo em silêncio, para que pudesse observar todos os movimentos daquele que permitiria – ou não – a felicidade de dois apaixonados. Aquele acontecimento seria, para mim, da maior importância. Qualquer decisão do patriarca da desestruturada família Vieira era uma preparação para todos nós. Se respondesse “sim”, eu poderia ressaltar esperanças adormecidas de um futuro longe de toda essa gente. O casamento de minha irmã seria uma prova sutil de que papai ainda tem um coração. E talvez ele se lembre disso mais à frente, caso eu venha a me humilhar praticando o mesmíssimo ritual.
Minha irmã e meu cunhado não combinam tanto aos olhares estranhos. Obviamente este fato confirma a teoria de que “os opostos se atraem”. Ela é mais alta do que ele, para início de conversa. A altura e a leveza dos corpos esguios é o charme das mulheres da família. O meu cunhado é muito calado. Abre a boca somente para os seus ou para demonstrar contínua impaciência. Fala por acenos ou movimentos de cabeça quase que imperceptíveis. No início do namoro, lembro-me bem, era um bonito rapaz que fazia todas as primas mais jovens suspirarem, mas agora perdeu o seu encanto. Nunca tivemos uma conversa inteira, pois é de nosso mútuo e espontâneo interesse não travar conhecimento um com o outro. E desse modo eu o vejo como um estranho tolo sem o charme do mistério, deixando que ele me pinte da maneira que bem entender.
Minha irmã, tão tagarela e com frequência às bruscas mudanças de humor (como se comporta uma adolescente), é o mais perfeito efeito contrário de seu noivo. E devo acrescentar que também é fútil, mas por hora até esqueço desse fato. Comigo adere à amabilidade que não tivemos quando pequenas. A pouca convivência que tivemos ao longo dos meus quase dezessete anos fizeram com que as brigas fossem quase que inexistentes. Uma sorte, suponho. Seis anos de diferença nos separam e ambas as personalidades são difíceis e contrárias.
Desse modo, o casal não é inspirador para um romance de época, tampouco para uma comédia romântica. É comum e desconcertante. Não merece canções, sonetos ou óperas inteiras. Não se trata de Romeu & Julieta. Me recordo apenas de um ou dois momentos no qual pude vê-los com terna emoção. Nada mais.
Não consigo imaginar minha irmã em um vestido de noiva, uma igreja enfeitada por lírios e a bênção do padre. O amor é uma ocasião íntima demais para ser exibida dessa forma tão tradicional e clichê. Ela própria pensava antes dessa maneira. E por um momento questionei os meus princípios de união, sem chegar a conclusão alguma.
“O que eu farei se um dia me pedirem em casamento?”, iria recusar, como faço com os rapazes do colégio, mantendo assim o meu título e honra de “menina difícil”? Eu, que já quis entregar o meu coração de pedra ao Homem de Lata sob a justificativa de que ele cuidaria melhor dos sentimentos que não pude controlar por ser tão precoce e frágil, estaria persuadida a me entregar de corpo, alma e coração a um homem igualmente de carne e osso que me prometesse a eterna felicidade? Mesmo sabendo que “eternidade” e “felicidade” são consequências imprevisíveis lírico-dramáticas à literatura shakespeariana que nem sempre se aplicam à realidade? Casar é tão arriscado quanto morrer por amor. Se você morre, tudo acaba. Se você vive e ama, não deseja decepcionar o outro.
A questão é o quanto se está preparado para dar um passo tão importante. E é essa incerteza do “será que vai dar certo?” que me preucupa. E se der, por quanto tempo será? Um ou dois anos? Dez, trinta, uma vida inteira?
Naquele domingo, porém, a expectativa não foi tanta. Sabíamos que papai não possuía motivos para intervir. Não gostava de meu cunhado, mas também nada havia contra. Um suportava o outro da maneira que convinha. O tímido respeitava o louco e este insano mostrava-se indiferente. Os dois (minha irmã e meu cunhado) estavam juntos há sete anos, nada haveria com que se preucupar.
Logo, o pedido foi aceito com todas as honras possíveis. E o falso romântico estava de joelhos a oferecer uma delicada aliança para a moça sorridente que era a minha irmã mais velha. Um almoço serviria de comemoração, enquanto a noiva discursava sobre madrinhas, vestidos e lua-de-mel. A harmonia reinou plena e eu me dispus a felicitar minha irmã pelo futuro promissor ao lado de um suposto bom partido.

“Eu te amo você
Já não dá prá esconder
Essa paixão
Mas não quero te ver
Me roubando o prazer da solidão.”
:: Eu te amo, você – Kiko Zambianchi

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15 respostas em “Nem Romeu, nem Julieta

  1. Bastante reflexivo… Mas acho pessoal demais, sabe?
    Eu tenho sonhos de casar-me, de ter marido e filhos e uma casa minha pra decidir de cor serão as paredes. Mas não sei se vejo motivos para um casamento propriamente dito. Não sendo católica, ia me sentir de certo modo me aproveitando da festa de um,a crença que não tenho, zombando do que outros consideram como religião.
    Me mantenho no direito de pensar assim, mas se eu mudar que eu mude então. E cada um seja feliz com o casamento ou com a solidão que escolher pra sí!
    Sorte pra nossos casamentos futuros, então, Da-Nina! =P
    Abração!

  2. Eu não sei.Sério.
    Houve a época em que me via com 27 anos casada e com filhos,mas no momento só tinha 7 anos e havia visto muitos contos de fadas.Você cresce,se ilude e desilude,e fica difícil dizer o que deseja de verdade.Eu não sei. Eu posso estar apaixonada por um homem aos 21 anos de idade, mais não vou querer me casar. Pelo simples fato de que, por mais que o ame, com essa idade, eu ainda tenho muito para viver, e se casada muito para perder. É que só na vivencia percebemos coisas que não percebiamos quando crianças. Não tem pressa, nem necessidade, nem é um objetivo de vida.
    Cada coisa vem em seu momento certo.Então não posso dizer o que acho agora, porque da mesma forma que minha opinião mudou uma vez, ela pode mudar de novo. É o tão chamado “de tempo ao tempo”.

  3. E eu fico aqui boquiaberto com o que você escreve.
    Tá, eu sou religioso e você sabe. Acredito em casamento e já fui casado, separei e hoje vejo que foi bom. Foi bom porque não foi pra vida toda e sei que teu texto não é pra concordar, mas só pra ler, gostar ou não e ir embora. Que seja eterno enquanto dure é a frase, e que dure a vida toda, ou enquanto houver vida, sei lá, mesmo que o casal seja bobo e clichê de mais pra um casamento qualquer.

    E eu quero casar sim, em breve, talvez não tão breve, eu nem sei.

  4. Dizer: o falso romântico…
    Foi ótimo.
    Ninguém é romântico por um ato isolado. Os romanticos são bregas, piegas, anacrônicos etç. São e não se envegonham.
    E nesses momentos marcantes da vida, como o casamento, eles fazem a fantasia se tornar realidade. Fogem dos clichês. E causam inveja e admiração nos outros.
    Nada daquilo que não tenha graça não vale a pena.
    A pergunta é: A quem ( e o que) sua história irá inspirar?

    Espero que a minha inspire muitas outras histórias. E os versos que ainda não sei escrever.

    beijos


    .

  5. E eu queria comentar pouquinho pq o texto é completo demais. Diz tudo em todos os sentidos. Logo eu que em 99,9% dos casos de relacionamento, por ser nanico neste mundo de garotas altas e esguias(ou nem tanto), só ter namorado, ficado e casado com mulheres centímetros acima. Ou eu, ou elas temos algum tipo de imã para isso. Sempre fiz parte de casais anticonvencionais neste sentido.
    E confesso que paro por ai. No mais sempre tive relações com garotas bacanas e sou mto fofo, simpático e querido ehehe
    Mas como este não é um CV nem meu blog volto ao tema e aplaudo teu texto mais uma vez. Apaixonado por uma garota especial, linda e única(e mais alta pra variar)… entendo que cada um ama como pode ou como é. O q importa é que o romance ocorra, mas não termine como o clássico literário! =) Bjooos

  6. (: puutz, adoro posts assim descontraídos e com algumas perguntas qe desmoronam os cliches !!
    nhaa mas casar é algo muito liindo, naum acredito qe vá um dia dizer naum

    bejoos

  7. “Mas possuo tendência a perder coisas pequenas ou deixar de lado tudo o que dificulta a circulação do sangue.” Hehehe!!!
    Bjoooooooooo!!!!!!!!!!!!!
    E paciência com Hitler!!

  8. Sei lá, sabe? É legal ir e se arriscar. É legal qdo se está com uma pessoa ter certeza. Se vc titubear, não arrisque. Mas se estiver certa, vai fundo. Especular sobre isso é bobagem qdo se está só. No fundo a gente nunca sabe.

  9. Leia isso quando puder, concordo com o Gustavo Gitti quando ele diz: “(…) morar junto sem festa de casamento e lua-de-mel é como ir a praia, enfrentar trânsito para chegar, ser picado por mosquitos, pagar caro pelo guarda-sol e não entrar no mar. É cair na pior parte do casamento sem aproveitar a melhor. Se não quiserem enfrentar papéis e não simpatizarem com religião alguma, apenas celebrem: chamem os mais próximos, dancem, se declarem publicamente ao som da música mais linda e comecem uma vida a dois só depois de chegar do aeroporto.”

    Eu não queria casar, mas ele tá certo. Ao menos a gente tem que celebrar a união, é um bom começo. O que vai ser depois disso depende do esforço de ambos pra dar certo. Filhos, atualmente, eu não quero mesmo. Quem sabe mudo de ideia.

    Eu não me dou muito bem com minha irmã, é pacífico, mas há uma tensão no ar. Mas ela gosta de ter minha aprovação, apesar de não sermos muito, muito, muito amigas.

    Eu quero muito que algum homem seja capaz de me roubar o prazer da solidão de vez em quando em troca do prazer da cia dele.

  10. Gostei da mudança no layout. O azulzinho era lindo, mas esse amarelinho também é muito bonito.

  11. Tu não és diferente de muitas mulheres? As aspirações, os sonhos e demais desejos são os que mais nos assemelham perante os outros. Na verdade tudo chega a pender a um único objetivo: felicidade.

    As diferenças se encontram nos caminhos que cada um traça. Mas enfim, tu és sim muito diferente, justamente por mascarar aquela sensibilidade que existe dentro de ti. Há um mecanismo de defesa em tu que te faz agir assim, de maneira ríspida, amarga e sem carinho.

    Você vai casar sim. Vai ter filhos, vai sorrir quando eles sorrirem pra ti, vai se encantar com a sensação.

    Tu não me engana Daniele.

    Mas também sei que pouco conheço de ti. De fato. Mas não ache que a estou estereotipando e te pintando como quero, ou te impondo algo. São apenas impressões minhas e tranquilamente poderei estar errado. Aliás desde que te conheço posso estar errado. É difícil até pra conhecermos nós mesmos, imagine os outros.

    Só quero lembrar que meu papel como amigo não inclui em te impor nada, apenas de procurar te entender como ser humano, da mesma maneira que procuro me entender.

    Lembre-se sempre que o que acho não é tão importante quanto a tua própria avaliação. Apenas nós mesmos fazemos nossas escolhas. E como todos, sei que tu faz as suas decorrentes das adversidades e de tuas características e personalidades.

    Eu gosto muito de ti minha querida, e queria muito te ajudar diretamente em tudo, mas certas responsabilidades cabem apenas a nós mesmo. Eu vou continuar por aqui ajudando com a minha presença.

    Beijos minha irônica baiana mais amada.
    xD

  12. Pingback: Desamor, sensibilidade e bom senso « sobre fatalismos

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