Da ironia

(Para Florbela Espanca.)

A ironia é um riso triste e inevitável que se afoga e se esconde em lágrimas não-derramadas. Que fere com sua verdade que ninguém deseja ouvir. Que manipula com o seu sarcasmo, tom de voz incontido, ingratidão deliberada. Fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente. Contentamento descontente e dor que desatina sem doer (ora, isso não seria o amor?).
É o meu charme, meu paradoxo, meu amor imutável e indefinido. É Bethânia no rádio cantando Caetano: “Nem feia ou bonita, ninguém acredita na vida real”. É minha voz que grita suplicante. É o meu aprendizado de menina, minha simpatia de festa. Meu sorvete em um domingo acalorado de verão, meu saco de confete em um carnaval rasgado.
Minha vingança sem pudor, minha escrita. Minha maldição de bruxa, meu sorriso guardado para oportunidade futura. Minha carta não-enviada, meus versos escritos e meu amor declarado.
É meu defeito e virtude, minha antologia poética, tragédia grega e shakespeariana. Minha construção de crônica, meu diário de anseios. Nada mais que minha espera.
É a minha frase repetida, minha desestruturada vida, meu corpo nu, meu auto-retrato de mal-amada.
É minha esfinge, mistério e desconcerto. Meu Hamlet na gaveta, minhas citações esquecidas, meu tango, valsa, trovão e sossego.
É Bandeira, é Pessoa, é Florbela Espanca inteira. É minha personalidade psicótica, meu projeto, meus resquício, casamento, aroma e vício.
Sou eu inteiramente assim, irônica e defeituosa de fabricação. Sem chance de concerto ou possibilidade de devolução. Sou eu, boneca esquecida na caixa de brinquedos. Ou o livro sem capa, verso, autor e palavra. Apenas o descaso que nem eu reconheço.

“Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado.”
:: Florbela Espanca

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12 respostas em “Da ironia

  1. A ironia é o que nos resta quando as palavras soltas ja não funcionam. É o nosso modo de dizer a verdade de mentira. A ironia é a forma de não ser necessário estar na realidade do mundo afora quando a usamos. Não precisamos pensar se é certo ou errado,feio ou bonito.

  2. É só a nossa forma de viver sem precisar de tanto. Sem ser necessário explicação. Por um minuto não precisamos lembrar do que nos esta esperando.

  3. Eu não conheço muito de Florbela mas o que eu gosto dela é:

    Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
    Meus olhos andam cegos de te ver !
    Não és sequer a razão do meu viver,
    Pois que tu és já toda a minha vida !

    Não vejo nada assim enlouquecida …
    Passo no mundo, meu Amor, a ler
    No misterioso livro do teu ser
    A mesma história tantas vezes lida !

    “Tudo no mundo é frágil, tudo passa …”
    Quando me dizem isto, toda a graça
    Duma boca divina fala em mim !

    E, olhos postos em ti, digo de rastros :
    “Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
    Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! …”

  4. Ironia é essa vida que nos quer fazer sorrir quando só conseguimos chorar. Ironia é saber que aquele sorriso jamais foi para mim. Ironia sou eu, com esse jeito inconstante que nunca sabe o que quer. Ironia é você, com palavras tão belas, personalidade(s) tão forte(s), e que no fundo é como todo mundo, só quer ser feliz.
    Ser poeta, ser escritor é ironia. Sofremos mais, choramos mais, amamos demais e acabamos a sós, com as palavras.

    Kissus =**

  5. É mesmo… é um riso triste, quase uma loucura, rir em situações em que normalmente a gente expoe as lágrimas. De vez em quando é bom se esconder por trás dessas coisas. Bater de frente sempre, não faz muito bem à alma.
    Kiss

  6. É uma defesa. A ironia é uma máscara para nossas fraquezas em lidar emocionalmente com as situações adversas que a vida nos oferece.
    É um ataque direto causado por nossas fragilidades, por nossa incapacidade de mostrarmos que somos fracos, que estamos sofrendo com algo.
    É ferir de maneira direta e indireta. É toma lá da cá.

    A ironia é uma flor negra que plantamos nos corações – a depender do que estamos tratando. Ou apenas uma derivado do humor negro.
    Não há ironia doce, nem amarga. Existe apenas uma ironia – a pura.

    E isso tudo já é muito irônico…

    Beijos querida.

    ps: andava com saudades desse teu cantinho. Saudades de te ler. Mas me perdoe tá meu anjo. Não estou passando bem esses dias, decorrentes de amarguras, de estressa, de desgastes na faculdade, no trabalho, e outros detalhes não importantes. Mas nunca deixo de vir aqui…

  7. Voce sabe se descrever como ninguem. E descreve bem até seus disfarces…
    Misteriosamente encantador, como sempre.

  8. Vendo esse e outros textos, tenho a certeza que nunca deixarei de me encantar contigo. Mesmo que aos seus próprios olhos você se descreve como “sem charme”.

    Que meus olhos tem? Que serão deles na primavera?

    Beijos a ti, meu bem.

  9. Oi, Nina!! Tudo bem, querida? Pois é, fazemos de tudo um pouco para viver, inclusive dar pitaco na vida das leitoras. Mas elas pedem, oras…Mande sua pergunta quando quiser. Prometo tentar ser elucidativa ou minimamente original na resposta. Você, como sempre, escrevendo divinamente. Grande garota! Beijos,
    Kika.

  10. muito bom nina (:
    também não conheço muito da florbela, só esse poema que postaram aí em cima…
    mas posso dizer que o teu texto ficou lindo!
    :*

  11. Ironia é faca de dois gumes. Você escreve muito bem! Pena que mais dos assuntos tristes saem textos maravilhosos.
    Fica bem.
    beijos!

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