Pequena aventura de Bienal

A Bienal do Livro em Salvador é um evento que realmente estimo e costumo esperar ansiosamente, visto que sou uma frequentadora assídua de dois em dois anos. Neste ano, rejeitei a companhia de um adulto familiar para juntar-me ao grupo colegial coordenado por professoras.
Nossas expectativas de uma agradável “feira do livro” começaram quando a professora de História Regina Dantas pediu que os alunos levassem notas de cupons fiscais para o colégio, para que ela pudesse trocar por “vale-livro”. O vale-livro poderia ser adquirido dessa forma: 10 notas = 1 vale. Haviam dois postos de troca – um no bairro do Comércio e outro no Centro de Convenções, local onde aconteceria o evento. Como o colégio estava inscrito no site da Bienal, havia uma cota de 200 vales para cada escola. Eu havia levado 70 notas. Na quinta-feira, 16 de abril, a professora Regina tentou, mas não conseguiu a troca.
Mas isso eu fui saber apenas no dia seguinte, pois foi o que me contou Jéssica Priscila, que havia encontrado Regina no turno da noite. Houve confusão no Comércio, no meio do troca-troca, e os nossos vales – que estavam reservados – foram entregues à uma outra escola.
Minha indignação foi plena e fiquei ainda mais inquieta por não encontrar Regina, que poderia explicar tudo aquilo com mais detalhes. Afinal, sexta-feira e segunda eram os dias do colégio na Bienal. Os estudantes que gostariam de comparecer ao evento estavam agora sem poder levar alguns livros para casa, a não ser que estivessem com dinheiro em mãos.
A professora Rita Lobo, de Biologia (e ex-coordenadora do meu curso de Informática), chegou avisando que Regina estava doente, resfriada há vários dias. De modo que ela a substituiria como responsável pelos alunos. Já era 13h30, e nem metade do pessoal/galera/alunos haviam chegado, sendo que tínhamos que estar lá às duas da tarde, conforme agendado. Havia chance de que as notas pudessem ser trocadas lá mesmo no evento. Mas ainda assim, seria apenas 1 vale para cada aluno, intensificando a falta de vales suficientes. E eu, que tinha 70, receberia apenas 1.
Engano nosso. Ao chegar lá, todas as cabines estavam fechadas. Conversamos com um membro-organizador da Bienal, e ele nos respondeu que os vales estavam esgotados. Explicamos o erro de quinta-feira e ele explicou que a culpa daquilo era da Secretaria de Educação, que cuidava da troca de cupons por vales.
Outros problemas surgiram, como a ausência de ônibus que pudesse nos encaminhar para o evento. Ônibus esse que o colégio pediu (a professora possuía em mãos um documento que trazia o número do ônibus) e que não compareceu à porta do colégio. Nem na sexta e nem na segunda-feira. Culpa de quem? Secretaria de Educação, com o seu pleno descaso. Afinal, do Barbalho ao Centro de Convenções, apenas um ônibus passava. Ônibus esse que demorava de chegar e de viajar.
Culpa da Bienal foi a má-organização da entrada. Pela principal ou pela garagem(?). Na sexta foi pela principal. Na segunda pela garagem(!). Entramos cerca de vinte minutos depois da hora que havíamos chegado, mas entramos. E por sorte, sem pagar ingresso.
Minhas amigas levaram apenas o dinheiro do transporte, imagino que, para elas, deve ter sido entediante caminhar entre tantos livros e não poder levá-los. Em meu bolso, haviam dezesseis reais para o lanche e a promessa de encontrar livros baratos, até nove reais.
Apesar da infinidade de livros caros, lançamentos de grandes editoras, haviam muitos de três e cinco reais. Naquele primeiro dia, não me alimentei, mas levei quatro livros para casa: James Lins, de Mário Prata; Os Segredos de Lady Roxana ,de Daniel Defoe; Bisbilhotices, de Amaury Jr. (hehehe) e Fragrâncias, de Johanna Kingsley.
Passeei pela Cult Livros e Companhia das Letras (editora que admiro para caramba, meu primeiro livro vai ter que ser nela). Na Cult encontrei clássicos da literatura universal (em tradução literal e literária: uma coleção inteirinha de Jane Austen, com Persuasão, Orgulho e Preconceito, Palácio das Ilusões, Razão e Sensibilidade…), na Companhia das Letras vi o novo livro do Chico Buarque (se eu tivesse meus vales, dava para levar!). Tentei encontrar o escritor Moacyr Scliar (grande contista! E um imortal, sabiam? Tá na Academia!), mas ele só estaria no Café Literário às oito da noite. E eu precisava voltar para casa às seis, conforme o toque de recolher (preciso dizer que foi instituído por papai-Hitler no campo de concentração?).
Voltei para casa, li Mário Prata (vá lá, um dos meus escritores prediletos, pai do Antonio Prata, outro dos meus escritores prediletos) e separei alguns livros para trocar em dois dos sebos montados na Bienal. Estava pronta para a segunda-feira.
Na segunda acordei cedo, antes da aurora e tomei um banho frio (para despertar). Reforcei o café da manhã (com café mesmo, coisa que eu nunca tomo, a não ser quando realmente preciso ficar acordada) e voei para o colégio. Não haveria aula por conta do feriado no dia seguinte (Tiradentes, enforca na segunda. Irônico, não?!), um grupo já esperava Rita Lobo. Eu estava com os cupons fiscais na mochila, imaginando que poderíamos trocar sem problemas pela manhã. Jéssica Priscila, que não foi conosco na sexta, chegou para me fazer companhia. A professora já estava atrasada. A professora estava realmente atrasa. Tanto que duas pessoas desistiram e voltaram para casa. Jéssica e eu conversamos banalidades (coisas “jeneaustenânicas” como: “Ouvi dizer que a biblioteca de Netherfield é uma das maiores do mundo”…). Mas eis que chega Rita Lobo. Apesar do atraso, comparecemos no horário: Dez da manhã.
Novamente problema com as notas. As cabines não abririam, por falta de vales suficientes. Estavam fechadas desde o domingo. Pensei em reclamar, fazer uma revolução estudantil até o AI-5 me prender e blá blá blá. Mas o meu espírito de “filha de 68” estava esgotado. Paciência. Restava a esperança dos sebos.
Novo engano. Eu havia adorado um dos sebos, onde encontrei Jane Austen (um livro só, Orgulho e Preconceito que eu devo ter lido zilhões de vezes, mas era um bom livro), Voltaire e até Jô Soares (O Xangô de Baker Street, eu tava doida para ler…). Mas eles só trocavam na loja. Me perguntei então o motivo daquela maldita placa de “trocamos aqui”, com três exclamações em vermelho e uma seta apontando para baixo. Aff. Fui ao segundo.
Estava com dez livros na mochila: Cinco de medicina, cinco de literatura inglesa. Livros em ótimo estado, orelhas bem cuidadas e nenhum risquinho só. Cuido muito bem do que é meu. Mas havia um peso enorme em meus ombros. E, como se já não bastasse toda a loucura dos últimos dias, a senhora que me atendeu ainda foi descortês. Segue o diálogo:
– Bom-dia, aqui troca livros?
– Sim. Mas não é só trocar, não. Tem que pagar uma taxa. – Disse ela, quase gritando, dando muita ênfase à palavra “taxa”.
Jéssica e eu nos entreolhamos.
– De quanto? – Perguntei.
– Ai depende. O que você tem para trocar?
Abri a mochila e retirei todos os livros. Ela os analisou bem (é, bem mal), desaprovando sei lá o quê até dar o veredicto:
– Troco esses dez por dois daqui e não cobro nada por isso.
Outra vez eu e Jéssica nos entreolhamos. Respondi:
– Então eu lamento pois, não creio que seja uma troca justa eu lhe dar dez livros e a senhora me oferecer apenas dois!
– Mas você não pagará nada!
– Confesso que é a primeira vez que vejo isso, minha senhora. Pelo menos nos sebos que frequento, sei que posso trocar esses dez livros por outros dez sem pagar “taxa adicional”!
Ela pareceu se impressionar com o que eu havia dito, como se fosse o maior dos absurdos.
– É mesmo?
Deixei-a sem resposta e devolvi meus livros à mochila. Indignada. E quase aos prantos, com o rosto vermelho, parecendo uma criança mimada que não ganhou sorvete em um domingo de verão. Estava disposta a voltar para casa, quando Jéssica, tão bondosa e caridosa, disse:
– Calma, escolha alguns livros e eu pagarei por eles. É o meu presente de aniversário adiantado para você.
Expressei um sorriso e fomos procurar. Nossas preferências literárias são semelhantes. Por sugestão minha, ela levou um pocket book romance de época para si. E nas prateleiras mais baratas da última sexta-feira, encontrei os meus. Sendo eles: Sofá Branco, de Márcio Paschoal; O Estranho Caso de Mademoiselle P. (simplesmente ótimo, baseado em fatos reais e com tudo que eu gosto: Romance proibido em pleno século XVIII e um final nada clichê!), de Brian O’ Doherty e Um Baile de Máscaras e Outros Contos, de Alexandre Dumas (queridão, adorei A Dama das Camélias e O Conde de Monte Cristo).
Fizemos uma pausa na praça de alimentação. Comemos pizza em cone (a minha de calabresa e a dela de frango) com refrigerante Kuat (porque somos anarquistas demais para nos rendermos ao capitalismo da Coca-Cola? Não. É que o sabor da Coca é muito forte para mim). Já ia dar uma da tarde, horário que combinamos de encontrar o nosso grupo, próximo da Arena Jovem, para daí partimos. Mas fomos teimosas, retomamos às compras. Às duas da tarde, Rita Lobo nos descobriu e nos repreendeu, mas de forma doce, chamando-nos de “traça” e “comedora de livros”!
Eu e Jéssica voltamos para a minha casa, onde eu lhe emprestei uma bolsa maior para o tanto de livros que ela estava carregando, visto que as sacolas eram frágeis. Tive uma forte dor de cabeça ao longo do dia e precisei dormir para que passasse. Não fiquei ressentida pelos desastres anteriores, afinal, tudo acabou dando certo.

“Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou -­ o que é muito pior -­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um.”

:: Livros – Caetano Veloso

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10 respostas em “Pequena aventura de Bienal

  1. Adorei saber toda a sua saga pela Bienal. Faz tempo que não vou no meu sebo favorito daqui, por falta de tempo mesmo, infelizmente. Mas sempre me sinto bem em meio aos livros!
    Uma pena que vocês não tenham conseguido os vales livros, aí você poderia ‘fazer a festa’ mesmo.
    E como você mesma disse, ainda bem que no final, tudo deu certo!

    Kissus =**

  2. Mais uma vez, eu, detentora de baixo poder aquisitivo, não pude ir à bienal, nem pra olhar =´/

  3. Chata essa confusão toda Nina!
    Faz um tempão que eu não vou a uma Bienal. Sempre ia eu e meus pais, mas os livros deixaram de ser tão baratos, então perdeu um pouco a graça pra gente. E olha que sempre voltávamos cheios de livros.
    Bjitos!

  4. Oi Nina…
    Caramba, é uma pena que isso tudo ainda aconteça… quero dizer, falta de organização, gente despreparada para lidar com cultura, em eventos, no trato com o público e em geral, seres humanos totalmente desprovidos de sensibilidade.
    A aventura no geral teria td para ser inesquecível pelo lado positivo….
    Enfim, mas não se pode desistir…. eu que trabalhei e ainda trabalho com educação sinto na pele a degradação que ocorre, em vários níveis. E tem momentos que dá vontade de chutar o balde, jogar td pro ar… afinal de contas… de que adianta o esforço de alguns abnegados se o estado de coisas é tão grave?
    Mas dai vem sempre a vontade maior de fazer algo… seja como for, não é fácil mesmo isso td!
    Obrigado por me deixar comentário e visitar Nina! Deus te proteja! Beijos!

  5. Oh, minha cara Lizzy, que pena todo este transtorno!!! Pecado de fato não termos conseguido os vales. Foi uma frustração muito grande, principalmente por saber que você e outros estavam confiantes e ansiosos por estes vales-livros. Que desorganização. De nada adiantou naquele dia falarmos (eu e Alix) com a pessoa responsável na SEC, que não tinha como justificar aquele fato. Tentou responsabilizar o governo do Estado, que teria diminuido a quantidade de vales disponíveis, mas NADA poderia justificar o fato de eles terem enviados outras “mil” escolas (além das 18 para lá designadas) para o NOSSO posto de troca, entregando os NOSSOS vales!!!
    Bem, fico feliz por você e Jéssica terem conseguido alguns títulos interessantes.
    Desejo boas leituras.
    Um abraço.

  6. Aqui em Brasília tem feira do livro. Sempre no mesmo shopping, e sem muitas promoções. Tsc, tsc.

    Eu adoro café, mas não fumo. Se bem que nem sei se muitos fumantes gostam de café. rs

    Seu papai-Hitler te protege de mais, ele não confia na educação que te deu não? Af… se alguém quiser aprontar não há cerco que segure.

  7. Ah, gostei da mudança no layout, viu? Bem psicodélico. Lembrei até da banda Led Zeppelin agora. rs Adooooro!

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