Síndrome de Rubem Braga

Daquelas fantásticas histórias que Adriana Calcanhotto conta, lembro-me de uma em especial, que ela relatou em seus DVD Público. Ela conta que, quando ainda adolescente, ao voltar do colégio, precisava lavar os pratos do café da manhã. Mas em silêncio, porque sua mãe, que era professora e dava aulas à noite, não poderia ser interrompida em seu santo descanso. Desse modo, Calcanhotto aprendeu a “incrível técnica” de lavar pratos baixo, quase em silêncio. E como distração, haviam o rádio e a TV que ficavam ligados (baixo) o dia inteiro. Calcanhotto gostava muito de lavar pratos. E descobriu, em uma tarde na qual executava esta habituada tarefa, em uma entrevista que Caetano Veloso cedera ao Amaury Jr., que ele (o Caetano) também gostava muito de exercer tal função. Calcanhotto percebeu que não estava “de todo só no mundo”.
Minhas análises de não estar “de todo só no mundo”, foram percebidas de forma literária e com diferentes autores. Jane Austen me apresentou o orgulhoso e calado Mr. Darcy, “que não conseguia travar conhecimento em um típico baile inglês, apesar do considerável número de moças solteiras e sentadas”. Criando assim, a imagem insuportável de sua presença nobre e hostil diante de pessoas de “posição inferior”, sendo marcado pelo seu comportamento “insociável e taciturno”. Ao ler os trechos que descreviam os principais personagens de Orgulho & Preconceito, eu não sabia se sorria ou se me enraivecia, por notar que sou tão irônica quanto Elizabeth Bennet e de uma presença tão desagradável como Mr. Darcy. É certo que, em ocasionais comemorações, converso pouco, torno-me impaciente e demasiadamente grosseira ao falar mal de um ou outro convidado “pela minha limitada experiência”, e recuso danças “se puder evitar”.
O fato é que eu nunca aprendi a conversar muito bem com as pessoas, apesar de ter, supostamente, o dom da palavra como Mr. Collins. Minha delicadeza de fato é fruto de um “estudo prévio”, mas, por sorte, ninguém sequer desconfia de que minha cortesia “seja ensaiada”.
Meu defeito também é encontrado no escritor Rubem Braga. Cronista que, parcimonialmente, é visto em minhas avaliações escolares de interpretação de texto. No ano passado, lembro-me bem, após a leitura de Dom Casmurro na biblioteca do colégio, aderi ao empréstimo de 200 Crônicas Escolhidas, uma coletânea da obra do autor. Uma determinada crônica chamou a minha atenção (infelizmente, o título de tal proeza não me ocorre agora), e o seu conteúdo ainda me é nítido. Falava da visita de uma moça em seu apartamento, uma leitora assídua, se não me engano. Ela, curiosa adolescente, fazia-lhe perguntas diversas sobre sua vida profissional (e pessoal. Sendo cronista, não há muita diferença), às quais ele respondeu sem jeito, pausando em uma timidez violenta. “As pessoas dizem que sou ótimo quando escrevo, mas péssimo no que falo”. Mais uma vez, me vi às voltas de um novo embaraço. No livro Bisbilhotices – Segredos e Curiosidades das Maiores Celebridades de Todos os Tempos, de Amaury Jr. (vejam só, mais uma vez…), há um trecho que confirma a minha análise: “Hebe Camargo confessou qual foi a entrevista mais difícil de sua vida: Com Rubem Braga. Monossilábico, o escritor só respondeu ‘sim’ e ‘não’. De vez em quando colocava um ‘hã hã'”.
No meu caso, quando criança, cheguei a suspeitar de que possuía “fobia de gente”. Eu tinha pânico de qualquer coisa que poderia se relacionar a uma primeira conversa. E aquilo era estranho de certa forma, pois o natural é que a criança, em sua inocência e vivacidade, tagarele da melhor maneira possível, expondo assim seus sentimentos. Meus familiares começaram a suspeitar de algum déficit de atenção, pois com frequência eu desviava os olhos no meio de uma conversa (mal que até hoje possuo), ou não respondia as perguntas mais comuns que me eram feitas.
Ao telefone, também sou um desatre completo. Há um misto de insegurança, nervosismo e abuso de boa educação. Arrumo um impressionante sotaque sulista que nem sei onde fui buscar. Notável desastre que, depois de um tempo, ao costume e confiança de falar com certas pessoas, volto ao bom baianês de pitorescas gírias soteropolitanas. Sinto-me à vontade.
Quando criança, não conversava com moças e rapazes, já que estes, com frequência, caçoavam dos pequenos. E os mais velhos não dispunham de atenção. Também havia a dificuldade de pedir informações na rua. Era comum a minha reserva aos livros, cujos personagens tornaram-se companheiros constantes. Mas o que eu realmente alimentava era a minha vontade de crescer, tornar-me bela, interessante e inteligente; estando assim preparada para novos conhecimentos. Criança incomum e tão pouco sociável: Eis um trauma do qual sequer pude me curar.
Nunca gaguejei em uma conversa, apesar do medo de desconhecidos. Me correspondia com um embaraço terrível entre negativas e afirmativas, acenos, gestos, longos períodos silenciosos e essa minha falha maldita de desviar o olhar (considerado por muitos tão bonito, esverdeado, esperto e inquieto. Como aquela Marthe Daubreuil, descrita por Agatha Christie em Assassinato no Campo de Golfe como “a menina dos olhos inquietos”) para outro ponto do ambiente, deixando o meu parceiro de falatório tão embaraçado quanto eu, que realmente sou tímida.
Tive aulas de etiqueta. Não com profissionais, mas com pessoas a quem me refiro com amabilidade e estima, pois recebi ensinamentos muito úteis. A ironia transformou-se em doce e eu bem sei como apimentar conversas. Ao longo dos meus quase dezessete anos, ocorreram exceções, já que a espontaneidade da ausência de uma ocasião nobre é mais dígna de contentamento. Raridades assim acontecem, porém, na maior parte do tempo, volto às origens daquilo que apelido de “síndrome de Rubem Braga”.

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12 respostas em “Síndrome de Rubem Braga

  1. É… Eu também sou assim,monosilábica. E também sempre fui a criança tímida dos livros. Quanto mais proxima, mais calada eu me torno. Estranho né? ^^’
    Mas eu aprendi que olhar nos olhos faz toda a diferença; mesmo calada, observo firmemente os olhares do colega de conversa.
    Ah sim. E adoro essa coisa de me reconhecer no que estou lendo. É como disse dia desses ao um colega-escritor: é uma delícia ler algo que simplesmente lê você.
    Abraços, Dani!

  2. Sempre fui assim, digamos tímido. Mas enfim, o que importa comentar aqui é a tua sensibilidade no trato com as letras, palavras e pensamentos.
    Gosto do modo que vc se expressa, e não vejo como defeito a tal síndrome de RB.
    Cada um, cada uma de nós é ou funciona de um jeito peculiar.
    Uns são absurdamente sociáveis. Outros menos e alguns são o que se pode chamar de meio termo. O fato é que ao longo da vida podemos nos permitir coisas como a criação de personagens ou máscaras que usaremos em situações diversas… não para não sermos reconhecidos ou pré-julgados.
    Mas sim para que nós mesmos, mesmas tenhamos condição de adaptação e até defesa!
    Mto bom te ler…. MESMO!!
    Grande beijo minha amiga de conteúdo! =)

  3. Adorei a cara nova do blog. *-*
    Mas menina, jura que tu é assim mesmo?
    Eu sou totalmente o contrário. oO
    Tenho medo de te conhecer pessoalmente,
    eu vou falar demais, que nem uma maritaca
    e quanto mais calada você ficar, mais com vergonha
    eu fico e mais eu falo. Ai saco. :S
    AHAHAHAH

    =* linda

  4. muito interessante o post! ah, sinceramente, que bom que vc se encontrou nos livros, principalmente, de bons autores.
    seria dificil engolir se vc se encontrasse em algum funk proibidão e saisse por ai revoltada… hiauhaiuhai!
    adorei ler sobre a adriana calcanhoto na adolescencia, nao sabia disso…
    beijo

  5. Ah, felizmente eu até me socializo bem com as pessoas.
    E o meu caso é diferente do seu, não porque eu me socializo mais fácil, mas porque eu me socializo somente com quem quero.
    Pode parecer pretensioso e arrogante, mas é uma das poucas escolhas que podemos fazer livremente na nossa vida – quem fará parte dela ou não – mesmo não sendo tão livre assim.
    Bjitos!

  6. Quando pequena eu também era muito tímida, conversar com os outros pra mim era um problemão. Lembro que meu pai sempre me mandava falar com estranhos pra pedir informações pra ver se eu destravava.
    Com os anos fui me soltando, e agora me socializo bem, mas confesso que não o faço mais porque não quero. As pessoas me dão preguiça, muita preguiça.
    beijos

  7. Oi Nina, adorei o seu texto, me vi ali em muitos momentos. Eu sou bem fechada com as pessoas, qdo não as conheço. Não costumo falar muito, é mais facil escrever.. e falar no telefone então? So atendo se estiver sozinha em casa ou se for meu celular, mas em ultimo caso mesmo. Eu cheguei a me perder, mas nao pedi informação.. rs

    Beijos, um otimo fds

  8. “As pessoas dizem que sou ótimo quando escrevo, mas péssimo no que falo.” Me identifiquei com essa.
    Beijo

  9. Continuo sendo sua fã numero 1.
    \o/
    keep keep
    beijinhos
    boa semana pra ti Nina querida.

  10. =) Apenas passando pra deixar um beijo…. nó, tah td mto corrido!!

    Saudade e carinho!

  11. Cara…Eu ia escrever sobre isso essa semana. Má até que hoje em dia tou aprendendo a ter mais amigos sabe? é algo completamente novo, me juntar à um grupo e talz. Gostey do nome da sindrome. :D

  12. Ih, também sofro da “síndrome de Rubem Braga”. Eu fiz aulas de teatro pra ver se diminuía minha timidez, não diminui muito, mas foi uma época maravilhosa!

    P.S.: Mudança radical no visual aqui… até fiquei em dúvida se tinha entrado no blog certo…rs
    Ficou bonito!

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