Portraits d’enfants qui ont appris à grandir

(Para Jean Piter Inzaghi. Aliás, meu bem, feliz aniversário nesse 18 de maio.)

Fila de caixa de supermercado. O casal de idosos a minha frente conversam sobre o novo namorado da neta. À frente deles, outro casal, bem mais jovem. Minto. Ele não é tão jovem assim. Ou talvez ela seja muito mais moça. “Deus do céu, que falta faz um namorado”, é o que penso. Mas, esperando por dezembro, tudo se ajeita. Atrás de mim, uma mulher que poderia ser musa de Balzac. Carrega nos braços sua filha de 1 ano. Do lado esquerdo, o corredor de perfumaria. Uma menina, de três anos (acredito), aparece naquele corredor, seguida de sua mãe (que poderia ser uma mulher machadiana, se quissesse). A menina da fila aponta e chama (ao seu modo, como uma criança que mal sabe falar) a menina do corredor. É fascinante ver como as crianças se comunicam. As duas sorriem e ficam um bom tempo se olhando, com a mútua sensação de espanto. A mulher machadiana chama a menina e ambas dirigem-se à outro corredor.
Uma vez, me disseram que, quando uma criança muito pequena observa outra de idade aproximada, com grande interesse e surpresa, é porque se conheceram em outra vida. Não ouso afirmar a sensatez dessa constatação, já que tal explicação deve-se, com certeza, a crenças religiosas. E eu, tendo crença apenas em meu livre arbítrio, não costumo acreditar naquilo que se expressa antes dos cinco anos, antes da “Idade da Razão”. Mas é um mistério esse encanto. E deve ser difícil, imensamente difícil, para uma criança de fala ainda não desenvolvida, poder justificar seus métodos de observação.

***

Não tive “amigo imaginário”, embora muitos dos que me lêem pensem, já que sou inteiramente insociável e reservada por educação e timidez. Mas a minha conduta sensata nunca me permitiu tal luxo. Entretando, por volta de meus dez anos de idade, passei a escutar sorrisos e uma voz feminina que chamava o meu nome. Isso sempre que eu estava sozinha em casa. Então, quando eu adentrava o corredor, podia ver a barra de um vestido cor-de-rosa que se escondia rapidamente, entrando no antigo quarto que era de meus pais. É óbvio que nenhum adulto jamais soube disso. Eu mesma sequer dava importância ao fato. Não queria admitir para os outros que era louca; ou que enxergava espíritos, fadas ou ninfas. Sequer admitia aquilo para mim.
Poucos anos mais tarde, recebendo como presente de um parente francês retratos, cartas, postais e pinturas de antepassados, ao encontrar a pintura de uma donzela de olhos intensamente verdes, pude constatar que era ela o meu espírito visitante, já que usava aquele vestido cor-de-rosa que eu tanto ansiava por ver. Eu a conhecia, decerto. Mas estava diferente, bastante jovem. Cerca de quinze anos e, pela imagem, frequentando a alta sociedade inglesa daquela época. Minha avó.

***

Recentemente, revelei a um determinado amigo (que não é apenas um amigo, mas vá lá, alguém que estimo demasiadamente), um daqueles fragmentos infantis que costumo soltar vagamente no meio de uma conversa: Nunca acreditei em Papai Noel ou Coelho da Páscoa, mas eram meus visitantes noturnos Peter Pan e Pequeno Príncipe.
O divertido deles eram suas inesperadas aparições. Não havia data específica, comemorativa ou religiosa, em função do capitalismo que vivemos. Eu dormia com a janela aberta – a janela dos meus sonhos. Sininho escondia-se em uma gaveta qualquer e não me deixava voar, com o seu pó mágico. Isso aborrecia Peter, pois sua fada era teimosa. De modo que nunca voei sobre o céu, nunca visitei a Terra do Nunca. E tinha receios de não voltar. Eu lhe contava histórias de piratas e ele relatava suas batalhas com um certo Gancho, que passei a admirar em segredo. Trocávamos experiências literárias, desse modo. Mas ele apreciava muito mais as histórias de princesas com finais felizes. E me falava de sua incrível Wendy, de quem eu possuía um determinado ciúme. Ele me pedia para não crescer, como havia pedido a ela, mas o inevitável aconteceu. E não mais o vi. E nem lhe dei um beijo ou um dedal, como despedida.
O Pequeno Príncipe foi o meu grande filósofo e conselheiro de noites tempestuosas de primavera. Havia nele a maturidade inocente que carrego como um enorme aprendizado. Ensinou-me a enxergar o belo com o coração. Pois “o essencial é invisível aos olhos”. Com ele, passei a dar valor aos pequenos detalhes e milagres da vida. Lembro-me da sua primeira noite aqui, chegou carregado por pássaros e foi exigente ao pedir:
– Desenha-me uma borboleta!
– O quê? – perguntei, ainda sonolenta.
– Desenha-me uma borboleta, como pediu minha flor.
Oh Peter, oh Príncipe! Ambos tiveram seus amores: Flores exigentes, fadas teimosas, meninas narradoras. E deixaram-me com a sensação de culpa, pois cresci antes do tempo e ainda não sei lidar com isso. Olho aquela estrela no céu: Antes era só pedir que o Pequeno Príncipe me acenava de longe. E Sininho já não corre pelo meu quarto, assustando-me, anunciando a chegada de seu estimado protetor.
Peter deve estar à procura de outra menina que queira fugir consigo sem medo de precisar voltar, sem medo de crescer. Wendy já se foi há muito tempo, e não me falta muito para iniciar a fase adulta. Espero que o Gancho sempre perca suas batalhas, que nunca encontre tesouros escondidos. Não os de pirata, baús imensos recheados de ouro, mas corações frágeis e desconsolados de quase-adultos que, inevitavelmente, decidiram crescer.
O meu, por exemplo.

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12 respostas em “Portraits d’enfants qui ont appris à grandir

  1. =) Ninaaaa, menina!!
    Que bacanaaa entrar aqui meio sem pretensões, apenas querendo saber se tinha atualização e sair babando… que maravilha de texto!!
    No todo!!
    Bacanaaa isso tudo querida!
    Vc é genial, acredite, é genial mesmo… quanta sensibilidade e leveza pra escrever!!! ^^

    Parabéns, não apenas pelo recente aniver… mas por vc ser assim encantadoramente perfeita amiga!!
    Bjokas!!

  2. essas ‘cronicas’ que vc posta sao as melhores. me perco lendo e nem vejo a hr passar..
    beijo

  3. Nossa, Nina, muito linda a forma como vc escreve. Podia ter dito que me lincou, né? Acabou de ganhar mas um fã. Fiquei surpreso com esse texto em adivinha, eu adoro surpresas

    Prazer!

  4. Muito bonito, Nina. Uma das melhores coisas que eu já li aqui… Lindo, lindo.
    Eu até gosto quandov oce conta assim, da sua infancia recente e já quase esquecida, parecida um pouco com a minha. Aì eu vejo essa garota tão seria, e tão inteligente… Perder-se em sentimentos bonitos, assim.
    Voce é incrível.
    =*

  5. Voltei…

    Mto lindo mesmo o teu post, aliás.. para variar.
    Admiro demais tua capacidade de escrever assim, a maturidade das palavras e esta intensidade toda viu Nina??
    Fiquei pensando neste final de post, acho que o tal Capitão Gancho realmente deixou a terra do nunca e veio se instalar em algum país sulamericano, tentando a vida na carreira política…

    Bjokinhas

  6. Amei a conclusão do texto!
    Não me lembro de ter amigos imaginários. Acho que não tive mesmo, porque minha mãe nunca me contou algo parecido. Eu até projetava algumas pessoas para brincar às vezes, mas ter um confidente imaginário, isso não.
    Bjitos!

  7. Acho que nem sempre nós precisamos de explicações. E os seus textos mostram exatamente isso.

  8. Já disse que sou apaixonada pelas referências literárias que você coloca em suas crônicas de forma tão sutil e sensível. Digo mais uma vez.
    Esses dias, passeando na livraria, encontrei um livro muito lindo que você talvez deva gostar, se ainda não leu. Se a memória não falha, chama-se Cartas do Pequeno Príncipe, que tem um apanhado de cartas e bilhetes que o Exupery enviou pra sua amada. É muito lindo.
    beijos

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