Dickinson, Austen e eu

Ele toma o livro da minha mão com a sua típica agressividade adolescente e pergunta:
– Emily Dickinson? É um daqueles bobos romances de época que você costuma ler?

* poema para o meu amor platônico de outrora *
Sua ignorância me irrita
Emily Dickinson é poesia.

Eu ainda me atrevi a responder:
– Emily Elizabeth Dickinson nasceu e morreu em uma pequena e conservadora cidade de Massachusetts, Estados Unidos. Seu reconhecimento como escritora foi dado apenas após o seu falecimento.
– Por quê?
Ele franziu o cenho e pareceu se interessar. Hesitei. Aquilo não era novidade, mas certamente parecia raro.
– Ela publicava poemas anonimamente. Na maioria das vezes, por insistência de amigos. E passou cerca de vinte e cinco anos em total reclusão, isto é, não recebia e nem dava visitas e o seu único contato com o mundo exterior era através de cartas.
– Anti-social como você. Agora fiquei na dúvida: Você foi Dickinson ou Austen em outra vida?
Não pude deixar de sorrir. Algum tempo de convivência comigo certamente o ensinou a ser tão sarcástico quanto eu. Lembro-me de que tivemos uma conversa meses atrás sobre a literatura de Jane Austen, que resultou no seguinte diálogo:
– Odiei Orgulho & Preconceito.
Ao que eu respondi, de uma maneira bem “janeaustenânica”:
– Poderia perdoar facilmente a sua vaidade, se não tivesse me magoado.
Da rotina de Jane, sei apenas que ela acordava cedo e, após o café matinal, tocava piano e punha-se a escrever (as duas últimas atitudes não nessa ordem necessária). Fiquei imaginando como deveria ser o cotidiano de Emily Dickinson, já que ambas as autoras viveram ao menos no mesmo século. Infelizmente, sabe-se muito pouco da segunda autora citada.
– Sadomasoquista.
Ele disse aquilo examinando uma das páginas do livro. E eu ainda estava atordoada com os meus pensamentos.
– Como assim? – Perguntei.
– Aqui diz que o possível motivo para tantoa anos de reclusão foi uma paixão rejeitada. Parece você.
Implorei em pensamento para que ele calasse a boca. Sabia aproveitar minha dor melhor do que ninguém. Estava tentada a mudar de assunto quando ele próprio, de súbito, exclamou uma descoberta:
– Ah…!
– Como assim “ah…”?
– Outra incrível semelhança com você, Nina: “Ao arrumar o quarto de Emily depois que ela morreu, sua irmã Lavínia encontrou uma gaveta cheia de papéis em desordem. Eram dezenas de fascículos costurados e folhas soltas com uma grande quantidade de poemas dos quais apenas dez haviam sido publicados anonimamente. E por iniciativa de terceiros”. Você escreve crônicas, não é verdade? Até ouvi dizer que guarda muitos papéis em uma certa gaveta da escrivaninha de seu quarto.
Tomei o livro de suas mãos com a minha típica delicadeza adolescente (de Sr. Collins, diria Jane) e respondi:
– Não me surpreendo que saiba disso!
Na verdade, eu me surpreendi bastante. Embora ultimamente tenha havido muitas especulações sobre a minha obscura vida (que é alheia) no colégio.
– A informação obviamente foi obtida de maneira sigilosa. Em suma, tenho minhas fontes.
– Não duvido. E o que pensa de meus escritos?
– Você é tão sofredora quanto uma jovem escritora russa que tenha sobrevivido a um campo de concentração em pleno nazismo. Jamais comprarei um livro seu.
– Sinto-me então aliviada por saber que minhas obras literárias jamais estarão sob olhos e mãos erradas!
Na realidade, acredito que a única semelhança que existe entre mim, Dickinson e Austen são as datas. Jane nasceu em 16 de dezembro (eu em 16 de maio), e Emily morreu em 15 de maio (um dia antes do meu aniversário).
Depois que Lavínia Dickinson descobriu os poemas da irmã e reconheceu sua habilidade e magnitude para a escrita, procurou por Thomas Higginson, grande crítico literário da época, que durante trinta anos rejeitou todos os versos que Emily lhe submetera. Lavínia lhe apresentou os quase 1.800 poemas da irmã, ao que Higginson ficou impressionado e mandou publicá-los imediatamente e em diversos volumes. Na época em que havia recusado Emily, lançou vários poetas que não obtiveram prestígio. Hoje, o nome de Thomas é associado apenas ao sobrenome de Emily.
Eu juro que foi um determinado sacrifício começar a publicação em blog. Eu sou minha própria crítica literária e permaneço ácida com tudo o que escrevo. Destaco apenas duas ou três crônicas que considero como “o melhor que pude fazer”. O resto é esboço.
– Mas diga-me a verdade: Pensa em publicar alguma coisa?
– Sim, quando estiver pronta.
– E o que você entende como “pronta”?
– Plenamente amadurecida e encontrando paz para escrever.
A verdade é que eu tenho receios em escrever sendo infeliz. Minha obra pode ficar dramática e vazia.
– Preciso evoluir em muita coisa ainda. Na criação de personagens, por exemplo.
– Mas você já é um prodígio…
– Por favor não utilize esse termo para me definir. Jane e Emily foram prodígios, eu não sou um. Detesto ser tratada dessa forma, soa como “a pirralha adolescente que pensa que pode ser escritora!”
Por outro lado, devo lembrar que tanto Dickinson quanto Austen começaram a escrever com cerca de dezessete anos. Idade que possuo agora.
– Definitivamente, não estou preparada.
Ele me deu um beijo na testa, segurou minhas mãos e disse:
– Para mim você já nasceu pronta.
E me reveleu depois que sou eu a jovem mais amadurecida que ele já teve a oportunidade de conhecer. Foi uma honra saber daquilo.
– Obrigada.
O sinal tocou e ele teria aula. Despedimo-nos e eu subi a escada da biblioteca enquanto ele seguia pelo corredor. Acelerei os passos, sorridente e pensativa.

“Nem para o amor eu tive tempo –
Já que
Muito de mim tinha que dar –
O vão labor que o amor pedia
Achei
Duro demais para aguentar.”
:: Emily Dickinson

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9 respostas em “Dickinson, Austen e eu

  1. nina, eu te juro, é a coisa mais linda que eu já li aqui *—*
    aconteceu de verdade isso? pois parece. tudo tao leve, tao bom de ler…
    austen e dickinson são duas gênias mesmo. tô esperando até hoje chegar meu livro com os romances todos da jane, mas até hoje, necas :/

  2. Sem palavras. De verdade.
    Eu não sei quando foi, ou se tem uma explicação lógica, mais esse texto foi incrivel para mim.
    E você devia ouvir ele. Você nasceu pronta, e isso não te faz uma garota ‘que pensa que pode escrever’, porque você pode.

  3. Pois eu acho que se deve tentar. Tenho muita vontade de escrever um livro também, mas não sei por onde começar; por isso que ainda não comecei.
    Mas você que já tem um caminho andado tinha que perder a vergonha, porque escreve bem.
    Bjitos!

  4. Sinto saudades de quando o “Ele” citado em seus textos eram referentes a mim. Encontrou um novo amigo e admirador e esqueceu-me.
    Oh! Nina, por que me trata assim?! Sabe muito bem da condição de meus nervos!

  5. Quantas entrelinhas num dialogo só…
    Bonito de se ler.
    Sinceramente, acho que devia publicar seus ‘esboços’ aqui; Eu tbm acho que voce já nasceu pronta, e só não te dou um beijo na testa pq a distancia realmente me impede.(rs)
    Sorte e sucesso pra ti.

  6. Muuuuito legal o texto!!! Queria saber postar assim, variar… ser um pouco mais Nina hehehe adorooo aqui, sempre!
    Bjo querida! E saudade!!^^

  7. Apóio totalmente! Acho que você deve tentar sim.. Sempre achei que você escrevia muito bem.
    BTW, amei esse texto! Lindo..
    Beijo

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