Visor Retrô

“- O tempo de vida delas é tão curto que um minuto presa num lugar fechado é uma estação. Você sabia disso?, ele me perguntou descendo a Rebouças numa velocidade desnecessária.
(…)
Falamos de política, das guerras acontecendo por toda a parte, da violência entre as pessoas e as raças, da morte, da finalidade da vida e, mais do que tudo, da breve existência das borboletas num clima que dizia nas entrelinhas que era frágil e perigoso viver, mas valia a pena existir. Pelo menos eu entendo assim.”
:: Do livro Lis no Peito – Um livro que pede perdão, de Jorge Miguel Marinho.

– Quanto tempo vai demorar?
– Já liguei para ele, deve chegar em alguns minutos.
O fato de Pedro não ser “exato” em suas respostas de certo modo me irrita. Estávamos quase fora da cidade, em um fim de mundo qualquer, três da tarde de uma quinta-feira. Calor insuportável, meu rosto corado e o dele até engraçado, tão vermelho quanto os cabelos e a barba cor de fogo. A exaustão era plena, não tínhamos água, nenhuma boa alma viva passava pela estrada e o carro dele havia quebrado de novo.
Tudo isso porque eu fui confiar em sua conversa, dois dias antes, por telefone:
– Encontrei um sebo ótimo. Dois livros da Jane Austen e um do Antonio Prata. Fica um pouquinho longe, mas de carro não tem problema, quer ir?
Encontramos o sebo – cujo endereço ele havia encontrado na internet, mas não havia sinal de Austen ou Prata. Perda de tempo. Alguns minutos depois, já na volta, o carro parou. Carro velho e acabado. E motivo da situação que nos encontrávamos. Por sorte, restava o aparelho celular. Ele ligara para o irmão, que já estava chegando ao nosso socorro.
Silêncio total. Suspense? Nenhum. Eu nada mais tinha a fazer além de conter minha raiva e meu tédio pleno. Eis que ele decide puxar conversa em hora errada:
– Dezessete anos, hein? Nem parece. Daqui à pouco você já será uma mulher.
É a forma mais ridícula e irritante que um adulto tem para analisar uma criança. Todos ficam impressionados quando respondo minha atual idade. “O tempo passou rápido” ou “Já está uma moça!” Outros preferem não acreditar e alguns deduzem que eu possuo treze anos e nada mais.
Isso me faz lembrar que por muito tempo esperei glória dos meus quinze anos, e no entanto, não dançei valsa com o papai ou um possível namorado. Não tive o encantamento preciso que uma debutante sonha – não cheguei a ser uma. Tenho valsas prometidas e beijos não cumpridos. Adolescer é cair no esquecimento dessa gente adulta. Não fazia mal. Eu queria ser igual a eles, em todos os sentidos.
Na janela empoeirada do carro, rabisco o número 15 em tamanho razoável. Observo por um instante o retrovisor. Não é o meu rosto ali, mas o daquela menina-moça que lia mais do que devia, que escondia a face por trás de um livro e derramava uma lágrima teimosa, teimando em não amar, sabendo que era impossível. Foi a idade mais dolorosa e evitava sair do casulo. “Borboleta tem vida curta”, a sua também deveria ter. Mas se hoje escreve essas linhas é porque não desistiu de aprender a voar.
Em outro canto da janela de vidro empoeirado, fiz uma borboleta pequena e discreta. Inútil pensar.
Aos 16, talvez o amor perdido e a vida desequilibrada tenham sido seus motivos de inspiração. Isso apenas acentuava o que ela já previa: É uma péssima escritora. Mas chegou a ouvir que alguém letradamente importante admirava-se com a capacidade de seu intelecto. Tolice. “Prodígio”, assim ele disse. E detestou a definição. Como resposta, apenas falou:
– A inteligência é, de todos, o fardo mais pesado e pecaminoso que uma mulher pode carregar. E do qual não se cura e sequer torna-se submissa.
Foi ainda nessa idade que, sem saber como, foi capaz de impressionar um outro jovem escritor e seu assíduo leitor. O possível romance dela em um futuro não muito distante. A promessa mais esperada e atual motivo de sua inspiração.
Vejo no retrovisor uma noite enluarada, rádio ligado, madrugada de domingo. Ela sonha distraidamente acordada, enquanto ele dorme longe dali. Ela repete o seu nome e chora baixinho e discretamente, mas sem conter. Não é possível acreditar.
Faço agora um coração no vidro do carro, “a mão que escreve e os olhos de quem lê”, que romance literário…
Antes era imaturidade. Ou o excesso dela precocemente. E solidão. Tudo isso para temer o futuro (reação inesperada) e quebrar a cara, o coração, a coragem, os limites e a razão com a “vida adulta” que a espera e lhe consome. Sai dali para não ser presa da liberdade falsa que procurou em vão. Liberdade, não felicidade (favor não confundir). Não me atrevo, não ouso mais ser vítima de uma meta inexistente e impossível de ser alcançada.
Apago toda a arte que fiz no vidro da janela do carro e tento lembrar de uma canção. O retrovisor já nada exibe de meu passado, visão, visor retrô.
O irmão do Pedro chega, perguntando surpreso como fomos parar ali. Sorrisos à parte e explicações à dar. Uma borboleta azul passa e a vida deve ser isso mesmo: Frágil, delicada, o sol sobre a estrada é o sol (sobre a estrada é o sol), é caminho, orientação. Deve ser um sinal. E minha bússola voadora me guia na direção certa.

Anúncios

8 respostas em “Visor Retrô

  1. Putz, Nina, acho que de tudo de super incrível que você já postou aqui, acho que essa crônica foi uma das que eu mais curti. Mesmo!
    Não sei porquê, mas me vi um pouco nela.
    beijos

  2. As borboletas são tão fascinantes.
    E no fim todos somos como elas, somos mais frágeis que pensamos ( e nossa vida é relativamente curta pra desfrutarmos de tudo que poderiamos ). Estudamos, estudamos, nos especializamos, e continuamos estudando pra nos reciclar, até ganhar dinheiro e juntar pra comprar algo que no fim não iremos comprar porque não deu tempo.

    ;*

    [amei o texto]
    Ps: eu no lugar do irmão do Pedro desconfiaria de vocês nessa lonjura. :X

  3. Uau.. que lindoo isso!
    Vou concordar com a Anna enquanto me levanto para aplaudiiir!!!!!
    Como vc é linda e sensível, quem dera houvesse mais e mais meninas com esta sensibilidade toda!! =)
    Adoro vc, mas admiro cada vez mais o teu jeito de existir iluminando o mundo! Beijooo amiga altinha do coração bonito! ^^

  4. ai nina, que lindo esse post (:
    adoro essas tuas crônicas.
    ah, consegui um livro com todos os romances da Jane Austen, até lembrei do seu post passado…
    :*

  5. Cara Daniele, informo-lhe que mudei de Blog; recomecei, mas continuo de olho em seus escritos.

    Gostei da Cara Nova de seu blog, ficou melhor que antes.

    Mario Rodrigues Filho

  6. Olá…. Se eu não me engano na introdução do filme ‘Amor e Inocência’ (Becoming Jane) baseado na vida de Jane Austen é citado um trecho similar a este, citado em sua crônica:
    ‘A inteligência é, de todos, o fardo mais pesado e pecaminoso que uma mulher pode carregar. E do qual não se cura e sequer torna-se submissa.’
    Gostaria de saber se minha suposição está correta e se estiver qual é exatamente o trecho em que Jane descreve as mesmas idéias!
    Abraços e Parabéns pelos textos ^^

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s